17 maio 2010

Banguecoque: passeio nas trevas

Não vigora o recolher obrigatório, mas as ruas estão praticamente desertas. Faz um calor opressivo, o higrómetro do átrio do meu prédio indicava 87% de humidade. A derradeira porta vermelha, situada na Praça Siam, está imersa na escuridão. Para evitar o controlo de entradas, feito por um piquete de milicianos, sigo pela avenida e viro à esquerda. Não há guardas. Passagem livre. O silêncio é quase total, não se ouvissem à distância disparos ocasionais e rebentamentos para os lados do Parque Lumpini, que dista cerca de dois quilómetros do local onde me encontro.

A iluminação pública foi parcialmente cortada. Os edifícios estão desertos e pelos passeios correm ratazanas em busca de alimentos. O lixo não é recolhido há dias e é um verdadeiro festim para os animais saídos das entranhas da terra. Prossigo e vou a um templo que abriu portas a famílias de vermelhos não-combatentes em busca de local seguro. Há centenas de pessoas dormindo nas sala (sala = edifício sem paredes apoiado em quatro colunas) ou abrigadas sob as árvores do parque do templo. As crianças que vira no acampamento vermelho estarão em segurança, pois que as forças armadas aqui não virão quando se desencadear o assalto a Rachaprasong, onde se encontra o núcleo vermelho.

Não ouço vozes, nem mesmo o ressonar daqueles que pela primeira vez em dois meses adormeceram sem a a gritaria do comício que os manteve em permanente vigília. O dédalo de ruelas do templo e do bairro popular que se encontra nas suas traseiras está calmo, terrivelmente calmo, pois sendo Banguecoque uma metrópole cheia de ruídos, hoje não se ouve um carro, uma voz, nem mesmo o latido de cães. Pela primeira vez em dois anos e meio de Tailândia, ouço o ressoar dos meus passos

O acampamento vermelho está quase deserto. Em torno do palco, onde discursa Jatuporn, estarão umas quinhentas pessoas, mas tudo soa a final e a despedida. Viro à direita e entro na avenida Rachadamri, que leva ao Parque Lumpini. A escuridão é total. Um lampião indica o início da zona de fogo. Na escuridão cruzo-me com um verdadeiro exército de milicianos vermelhos. Ao longo da avenida estarão trezentos, quatrocentos ou mais homens armados com lanças, fisgas e chuços, mas avançando mais umas dezenas de metros encontrei grupos empunhando armas de fogo. Agachados em torno de um comandante, cerca de 50 homens trocam impressões. Alguns têm pistolas, outros armas de caça. O comandante, um homem que vira e fotografara há dias, tem uma espingarda de assalto de fabrico norte-americano. Só nesse momento se deram conta que eu não fazia parte do grupo. "Ó farang, o que estás aqui a fazer ? Vai-te embora porque aqui é muito perigoso. Não ouves os tiros ?". Fingi que não percebia thai e voltei para trás.

Regressei à zona iluminada e apercebi-me que a debandada fora geral. Os que ficaram arrumam as suas coisas e preparam-se para procurar refúgio no templo. Três mulheres muito simpáticas vêm falar comigo e ali ficamos uns dez minutos a trocar impressões. Uma delas carrega ao colo um cão e pergunta-me se em Portugal também gostamos de animais. Disse-lhe que a minha mãe chegou a ter 30 gatos e foi uma risada geral. Trinta gatos ? Também comem gatos ? Não, não comemos gatos, mas comemos coelhos. Olharam-me como se estivesse a dizer a maior barbaridade deste mundo, pois aos thais não passa pela cabeça que alguém cometa o imundo acto de comer um coelho. Depois, apareceu uma jornalista americana em busca de restos de notícias. Como não engracei com o género, pois estava muito etnográfica, coberta de peças compradas numa qualquer feira de camisas "tipicamente thais" que os thais nunca usariam, disse-lhe que era iraniano e fugiu a sete pés como Mafoma do chouriço.

Regressei a casa, tomei um duche e adormeci profundamente. Foi esta a última noite dos vermelhos em Banguecoque. Esperemos pelo domingo.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Como sempre, um texto digno de qualquer reportagem de um bom jornal (que não temos).
Quanto à americana, estou mesmo a ver o género. Não pude deixar de rir e involuntariamente deves ter provocado o alarme em certos meios. Um iraniano no meio dos sediciosos? Neste momento, deve ter passado a vontade de ajudar a "revolução". Os nossos imprescindíveis - continuo a pensar assim, apesar de tudo - aliados americanos, gostam de brincar com vidas alheias, mas quando os seus interesses estão em jogo - o "iraniano" no meio dos reds -, então o caso muda de figura. Muito bom! Sem querer, podes ter desferido um terrível golpe em Thaksin...

On d move disse...

Excelente iniciativa. Parabéns.

Não tive oportunidade de ler integralmente os seus textos e espero que a pergunta que em seguida lhe deixo não tenha já sido respondida, num dos textos que não li. Se assim for as minhas desculpas.
Como devemos interpretar o silencio da casa real? Sabendo da condição física de sua S.A.R., da relativa falta de popularidade do sucessor, não seria de esperar que a casa real fosse mais activa e contribuísse, com uma posição publica, para encontrar uma solução?

Cordialmente
Vitor Silva
Soi 22, Sukumvit Road
Bangkok

Nuno Castelo-Branco disse...

Sem estar em Bangkok, queria dizer ao Vítor Silva que o silêncio de S.M. se deverá talvez, às circunstâncias do movimento que fez ecldir o chamado "turmoil" no país. Não se trata de uma luta de partidos, mas desta vez, existe uma clara interferência estrangeira e o móbil parece ser a alteração da estrutura do Estado. Como pode a Coroa colaborar com quem até agora pretendeu derrubá-la? Não. O Rei serve o Povo se defender a Coroa que lhe está confiada.

Por outro lado, há longos anos se tecem todo o tipo de lendas e narrativas acerca do sucessor. Assim foi também com D. Carlos, com o futuro Eduardo VII, com o actual príncipe Carlos, etc. Simplesmente, os herdeiros são homens, têm os seus pontos fortes e as suas fraquezas. Ele está preparado para a sucessão, quando esta chegar. Esperemos que tal ocorra o mais tarde possível, dada a grandeza da personalidade de Rama IX. Mas a Monarquia sabe proceder a transições e as pessoas, ao fim de algum tempo, encaram-na com naturalidade. Contam os princípios, a ideia. Os homens também, mas tornam-se secundários ao fim de algum tempo. Sem que isso queira significar a perda da sua memória.

Durante dois meses, não se viu um cartaz, uma homenagem, um testemunho de fidelidade que agora, no fim, surge como derradeiro recurso. Sim, o palácio dirá algo, se existir a certeza da segurança do Estado. Basta de Luíses XVI.

On d move disse...

Percebo. Mas a questão é a essência formal do regime, seus direitos, obrigações. Também não está em questão a justeza ou não da impopularidade do sucessor, apenas a impopularidade de facto.
A grandeza da personagem e a capacidade única de federar e unir, são o que dificulta o meu entendimento da aparente não intervenção. Digo aparente porque não sei que acções são tomadas em privado (fora da esfera mediática).