01 maio 2010

As cunhas

Diz-se por aí que 45% dos lugares para o primeiro emprego são "encaixados". Não creio, pois se assim fosse, o país ainda seria liminarmente justo ou, melhor, tendencialmente benigno. A cunha, a pretensão, o telefonema, se feitos para um amigo ou um familiar, seja tolo ou inveterado madraço, ainda se compreende. Aliás, quem nunca pediu por um amigo ou quem nunca se sentiu apreensivo pela sorte de um familiar menos impositivo, ou não tem amigos ou detesta a família. Nunca acreditei na absoluta isenção nem na indiferença sentimental ou afectiva em relação às pessoas. Há pessoas de quem gostamos; há pessoas que detestamos, pelo que preferimos ter a trabalhar connosco um simpático pateta a ter de pagar juros ilimitados por uma inteligência sem carácter. O que me custa aceitar é a abstração do princípio do nepotismo, tornando-o universal. Pedir a um amigo empresário que dê emprego a um amigo é um acto de caridade que será partilhado pelo empregador. No fundo, ninguém perde, com excepção do empregador que perde conscientemente por magnanimidade. O mesmo não acontece com o Estado. Ao viciar um concurso público, o Estado perde duplamente: emprega um peso morto e priva-se de o ter a servir um indivíduo qualificado. Para mais, perde a lei e perde a sociedade. Mas não nos preocupemos em excesso, pois o Estado, da mais alta magistratura ao mais humilde contínuo, está viciado na confusão existente entre o público e o privado. Quem manda, vê o Estado como seu. O favoritismo muda, então, de nome: passa a ser a merecida recompensa dada a um determinado partido por haver vencido as eleições. Chamo-lhe saque e não há como impedir a prática, pois o partido que a seguir vier fará o mesmo. Quando ouço um desses Demóstenes parlamentares increpar o governo pela existência de redes clientelares, só me apetece perguntar-lhe como chegou a deputado. Se no nobre areópago estão os mais capazes dos portugueses, o melhor será fechar a luz e trancar a porta.

2 comentários:

scheeko™ disse...

A cunha seria útil se compreendesse a propagação da honra, responsabilidade e reputação: quem pedisse a cunha, poria a sua respeitabilidade em jogo. Obviamente eu preferiria contratar alguém que viesse com uma marca de qualidade.

Infelizmente, a irresponsabilidade e a ausência de responsabilização grassa no nosso país e a cunha é um mero aspecto: a da propagação e persistência da incompetência e do parasitismo. No fundo, a falta de brio, seja ele profissional, cívico ou pessoal.

Saudações.

Nuno Castelo-Branco disse...

Ainda vais preso!