17 maio 2010

Amazing Thailand

O exército chegou, finalmente e em força, à minha rua. Hoje não foi preciso ir à procura da guerra; a guerra veio bater-me à porta. Parece que noutros distritos da capital ainda se combate metro a metro, que o fogo se apossou de prédios e que os hospitais recebem vagas de feridos. Hoje, tudo isso está longe, pois a pé não posso ir a parte alguma. O exército cortou o acesso e por onde quer que passe há ninhos de metralhadoras, sacos de areia, rolos de arame farpado e barragens militares. Estes meus novos vizinhos são bem recebidos pela população, que se concentra nas esquinas e vai-lhes desejando chók dí (boa sorte) e trata-os como filhos.

Foi um verdadeiro jogo de esconde-esconde. Interceptado a cada passo por cerradas colunas militares, a uns digo que a minha casa é mesmo ali, para de seguida, confrontado com a mesma pergunta por um oficial no comando de outra patrulha lhe dizer precisamente o contrário: "a minha casa é do outro lado do canal, perto dos vermelhos". "Você tenha cuidado, ou ainda não percebeu o que se passa ?". De súbito, senti uma mão que me agarrava o braço. Era uma senhora que me falava com toda a naturalidade, como se nos conhecessemos há anos. Falava alto e disse-me perante os militares: "bem, vamos lá para casa". Que estranho, pois nunca a vira. Quando a coluna se afastou, olhou-me como quem quer desvendar um segredo e disse-me: "olhe, farang, eu sou vermelha e quero entrar no acampamento. Pode-me fazer o favor de me levar lá para dentro "?

Pelo caminho foi-me dizendo que é reformada, tem 69 anos de idade e vive em Banguecoque. Disse-me que mentiu à família, que julgam que foi visitar uma prima e que pensa voltar a casa antes da meia noite. Grande mentirosa, mas de uma simpatia que me deixou boquiaberto. A minha companhia permitiu-lhe passar pelo exército; a sua presença permitiu-me entrar sem dificuldade no acampamento vermelho. Em suma, um negócio. O sol começava a declinar quando lá cheguei. Um rapaz ia penteando o seu gato como se estivesse em casa. Pessoas há que trouxeram a família, mais gatos, cães e pássaros para esta aldeia. Os thais são assim.


O acampamento perdeu todo o interesse cenográfico. Ali estão, avalia a BBC, cerca de cinco mil pessas. Estimo exagerado o número, mas duas mil estarão sentadas em frente do palco ou deitadas na vasta esplanada em frente do Central World. Predominam os homens. As mulheres e crianças estão aglomeradas no templo ali mesmo ao lado. Alguns recalcitrantes vendedores de rua teimam em manter as bancas de comes e bebes, a venda de cigarros e de bebidas. Como um khao ká mú (perna de porco) e movimento-me com alguma dificuldade na escuridão. As únicas áreas iluminadas são o palco e um ou outro foco de luz baça de candeeiros portáteis. Faróis de motorizadas e lanternas em movimento emprestam a todo o ambiente um tom quase sinistro.


As pessoas sentam-se em grupos. Falam, dormem, comem (parece que estão sempre a comer nesta insólita aldeia) e alguns até dedilham guitarras. Não há vida sem música e os thais são verdadeiramente obcecados por música. Antes de sair vou ao templo e encontro centenas de crianças e mulheres entregues à guarda dos monges e da Cruz Vermelha. Dos milicianos que vira ontem à meia noite nem sinal. Devem estar escondidos ao longo da avenida por onde se pensa virá a força do exército.



Ao chegar a casa tenho uma surpresa. Como no meu edifício vivem alguns oficiais superiores, há tropa de guarda. O militar carrega uma espingarda de auto-defesa, municiada com projécteis de borracha e tem, pendendo, uma granada de gás. O governo garante que só usa munições reais em situações extremas. Acredito piamente, pois se assim não fosse teriam morrido já centenas de pessoas.

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Na sexta foto, a da avenida deserta, reconheço perfeitamente o local. À esquerda, o antigo World Trade Center, hoje Central Worl. Logo a seguir, um grande prédio, o Hotel Amari Pratunam, o "hotel da TAP", onde ficavam as tripulações. Mesmo ao fundo a colossal Torre Bayoke II, o edifício mais alto da cidade. Se andarmos cerca de trezentos metros para a direita, lá estará ainda a minha antiga casa, na Soi (rua) Wattanawong. Bons tempos!

Quanto às notícias, aos poucos as coisas parecem estar a compor-se. Hoje, o Bangkok Post faz um violentíssimo ataque a Thaksin, a propósito do "apelo à ONU". Lembra que esse antigo dirigente, foi admoestado a propósito de 2.500 pessoas que mandou matar e arrogantemente respondeu às Nações Unidas. Está no Bangkok Post de hoje. Vindo de um jornal que era conotado com certos sectores "red", isso apenas quer dizer uma coisa: estamos a poucos dias do fim do problema na rua.

Leandro disse...

Dr. Miguel C.B., deixe-me que lhe diga que estes posts são do melhor que tenho visto publicado acerca da crise na Tailândia. Superam em muito aos artigos da BBC e outras cadeias de informação. Limitam-se todos a dizer a mesma coisa, talvez através das agências noticiosas. Estes aspectos mais pessoais, dão uma visão diferente de um conflito que se avizinha do fim. pelo menos, aqui os Ho Chi Mins não passarão.

Cox disse...

Fui de Lamego não da Amadora, mas é o lema do Reg.

A sorte sorri aos audazes.

Melhores cumprimentos e desejos de boa caça,