20 abril 2010

Vandalizar monumentos


Nós tivemos algo parecido ao longo dos meses em que o Estado desapareceu de cena, as leis cairam por terra e foram espezinhadas, a propriedade pública invadida, ocupada e vandalizada por grupúsculos maoístas e trotsquistas. Destruir, mutilar o ofender a cultura não é um acto gratuito: inscreve-se num programa premeditado de violação da memória e terror que visa suspender e mesmo revogar o significado dos monumentos: levá-los à barra do tribunal da história e considerá-los mortos naquilo que representavam, reinterpretá-los e obrigá-los a outras mnemónicas.
Aqui em Banguecoque, os vermelhos tomaram de assalto o Monumento à Democracia ( อนุสาวรีย์ประชาธิปไตย= Anusawari Phrachatipathai) e ali quiseram fazer uma instalação de "arte para o povo". O resultado da breve ocupação foi eloquente testemunho do programa vermelho: fazer do monumento uma "instalação" de "happening art" e "redescobrir a liberdade por detrás da fachada que o poder cristalizou". Um grupo de "artistas" e "intelectuais" de carrapito entregou-se com afã à obra de embalar o monumento com bandeiras vermelhas, ocultar a estatuária existente e substituí-la por palavras de ordem pinchadas a tinta vermelha que começaram pela base em pedra e foram galgando pelos baixo-relevos acima. Depressa, um ódio iconoclasta extravasou do "projecto cultural" e deu largas à mais selvagem das expressões "artísticas": as figuras parietais foram pintadas com graffiti, os rostos pintados de negro, os dedos e armas partidos. Depois, as palavras de ódio, material insdispensável da paranóia revolucionária: morte a isto e àquilo, fim à "exploração", "o poder para os pobres", "todos iguais".
O governador de Banguecoque, um "aristocrata", ficou chocado ao visitar o local e deu ordens para que tudo o que lembrasse a triste destruição patrimonial fosse varrida, lavada, restaurada. Graças aos voluntários da Escola de Belas Artes de Silpakorn e aos serviços camarários, o Monumento à Democracia renasceu das trevas e hoje, sete dias após o fim da ocupação vermelha, voltou a ser o que era: o monumento à liberdade.
Entretanto, no momento em que escrevo estas linhas, os vermelhos estão a destruir todos os passeios que separam o núcleo do seu acampamento da linha da frente. O passeio público, de pedra e tijolo, fora há poucos meses renovado e orçado pela edilidade de Bangiecoque em cerca de 70 milhões de Bath, o equivalente a milhão e meio de Euro. Tudo destruído numa manhã. Em suma, a selva a instalar-se numa das mais cosmopolitas cidades do mundo.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Está a chegar a hora de uma vassourada rápida e total. Antes que seja tarde.

NanBanJin disse...

E não há meio de Bangkok se ver livre dessa escória vermelha de uma vez por todas...
Já é tempo de dizer "BASTA!"