23 abril 2010

Trabalhadores apoiantes do Rei

Realizou-se hoje ao fim da tarde mais um comício de apoio ao regime democrático e à Coroa. A escolha do local da concentração foi objecto de alguma crítica, porquanto se situar numa vasta zona da capital inacessível aos transportes públicos e pelo facto das avenidas confluentes se encontrarem, por motivo de apreensão de ataques bombistas, vedadas ao acesso de automóveis, obrigando os participantes a percorrer quase três quilómetros a pé antes de chegarem à vasta praça da Sala do Trono, onde se ergue uma imponente estátua equestre do Rei Rama V (Chulalongkorn), objecto de grande veneração popular.

A convocatória foi feita anteontem e apelava a 100.000 manifestantes. Embora tal meta fosse difícil de atingir, terão acorrido vinte e cinco ou trinta mil pessoas, cujo entusiasmo extravasante não foi de forma alguma atenuado. Aliás, foi o maior comício realizado até hoje no decurso da crise, multiplicando por cinco ou seis o número de vermelhos que se concentram no coração da capital. Sexta-feira à tarde, acesso inacessível, medo pela repetição de uma carnificina como aquela que ontem teve lugar em Silom foram, decerto, motivos de apreensão para o povo de Banguecoque. Demorei quase hora e meia a chegar de moto ao local e ao atingir a primeira barreira do exército, fui obrigado a apear-me e percorrer quilómetros a pé sob uma temperatura que quase atingia os 40 graus. Depois, convém lembrar que estas manifestações diárias não contam com a presença de qualquer figura de relevo da vida política. São pessoas comuns e ignoradas do público que sobem ao estrado e discursam. Se Abhisit fosse o orador, a massa multiplicar-se-ia por três ou quatro.

Ao chegar à estátua de Rama V tive a ventura de assistir a uma velha prática que exprime a teoria do poder régio siamês: flores, incenso fumegante e velas são colocadas na base do monumento, as pessoas ajoelham-se e fazem preces ao Chaw Chivit (Senhor da Vida, o Rei), protector do Budismo e garante da ligação entre o mundo dos homens e o "mundo superior". Fazem-no concentradas, abstraindo-se do que à sua volta se passa ali ficam por minutos em profunda concentração.

Depois, percorri a massa de manifestantes. Saltava à evidência que ali não havia gente trazida nas traseiras de camiões nem gente paga. O único pagamento é uma garrafa de água de rosas, bem fria, oferecida por militantes do "partido amarelo" (Novas Políticas), uma foto do Rei e uma bandeirinha de papel. As pessoas sabem ao que vêm e a massa reproduz fielmente a população de Banguecoque na sua estratificação e cambiantes sociais, étnicas e religiosas.

Bastantes "farangues" (ocidentais), contradizendo a opinião corrente que a comunidade imigrante branca (detesto a palavra expatriada, um tique snob) é por atacado pró-vermelha. Depois, há os "kéék" (indianos), os muçulmanos - uma das minorias mais leais à Casa Real - os Karen e muita, muita gente do Issan residindo na capital. Sim, trata-se de classe operária monárquica que vai chegando em grupos, famílias por atacado ostentando retratos do monarca, bandeiras amarelas e nacionais, dizeres rabiscados em cartazes improvisados.

Os mais ruidosos e compenetrados no significado do acto de afirmação patriótica e de lealdade são precisamente os mais humildes, quase todos exibindo símbolos das "Novas Políticas", confirmando que a rua pertence aos tradicionalistas, posto os democráticos de Abhisit serem mais sofisticados e menos experimentados no exercício da euforia necessária aos actos multitudinários. Só me acorreu à memória uma das mais repetidas palavras de ordem que em 1975 se gritava na Fonte Luminosa, nesse grandes comícios anti-totalitários que detiveram a maré vermelha: "se isto não é o povo, onde está o povo ?"

Um indivíduo acercou-se e identificou-se como professor do ensino secundário. É simpatizante de Abhisit mas deixou-me boquiaberto com a terminologia. "Sabe, 90% dos tubarões e exploradores deste povo são amigos de Thaksin. No campo democrático e daqueles que amam o Rei, a maioria são pessoas como nós, que trabalham, se levantam cedo e deitam cedo, que fazem ginástica orçamental para sobreviver". Feliz por ver que da boca de um homem que ganha duzentos Euro por mês saltam crepitantes as palavras que esperava. Disse-lhe que na Europa era o mesmo: quanto mais ricos, ociosos e metidos nas curibecas, mais pró-isto e pró-aquilo, conquanto nunca lhes metam as mãos na carteira.

A maioria trazia um grande autocolante destinado a enviar um recado para o mundo, infelizmente mal informado pelos media ditos de referência, que fazem clara campanha a favor do plutocrata Thaksin servindo-se exageros e semi-verdades misturadas com totais mentiras. Não [queremos] presidente, resume a natureza do conflito. Thaksin quer a república oligárquica e plutocrática, o poder absoluto para governar a seu bel prazer. Os tailandeses sabem que tal república, que os defensores do multimilionário crismaram já de Estado Novo, seria o fim da democracia e o fim da separação de poderes. Depois, há a repulsa profunda pelo terrorismo, pelo vandalismo e pela protecção que Thaksin tem recebido dos regimes autoritários ex-comunistas da região. Agora, para os defensores do governo, Thaksin é, apenas um traidor.

O professor de liceu disse-me: "se os vermelhos tomassem o poder, desembaraçavam-se de Thaksin, pois ele ainda não compreendeu que já não é nada mais que um financiador". A noite começa a cair e canta-se o Sadudi Maha Raja, Sadudi Maha Ragini (Saudação ao Rei e à Rainha). Uma mulher do povo acerca-se e pede-me que fotografe o "pequeno guerreiro" (dék tahan). Perguntei-lhe se era de Banguecoque. Sim, sou vendedora de rua. Fiquei esclarecido. Esta é a mais acabada imagem da mentira que aí no Ocidente se espalha. Não, não é um problema social que se trava na Tailândia; é uma batalha entre a democracia e o totalitarismo.



เพลงสดุดีมหาราชา (Sadudi Maha Raja)

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Quantas mais fotos, melhor. Desfazem completamente a conversa da treta dos "ricos contra os pobres". Por alguma razão o BE tem tantos votos na Lapa. Uma questão de parasitismo.

Margarida disse...

Nuno, cabe também uma nota de cautela para o bravo irmão, relator das peripécias históricas a que vamos assistindo, tão ao longe.
Mas, também, pelo coração toda a distância se relativiza...
Nevertheless..."cautela e caldos de galinha", Miguel...

Pedro Leite Ribeiro disse...

Ou tenho andado muito afastado das notícias ou os meios de informação portugueses ignoram completamente o que se passa aí. Portugal continua a parecer um país alheado do resto do mundo como se nada nos dissesse respeito. Aqui gastam o tempo todo com a seca interminável que é a pseudo-investigação na AR de um caso que não aconteceu: a compra da TVI pela PT. Tenho a impressão de estar a viver num país surrealista.
Aproveito para reforçar o pedido da Margarida para que seja cuidadoso, Miguel.