12 abril 2010

Técnica revolucionária: quebrar todas as convenções


Os vermelhos passearam hoje em caravana por toda a cidade os corpos dos militantes falecidos nos recontros do passado sábado. O espectáculo da exibição pública de cadáveres presta-se a muitas interpretações. Para os thais, a passeata fúnebre foi uma clara violação das mais básicas regras do budismo, mas para os vermelhos tratou-se de intencional propósito de elevar a parada e fazer crer que todas as convenções foram banidas e que se instalou - pelo menos no espírito de quem pratica tais actos - um não-retorno que prenuncia a escalada no conflito.


A psicologia das revoluções é assunto apaixonante. Para o revolucionário, a instalação da violência psicológica como estado normal da vida social e individual é condição propedêutica para a aceitação da inevitabilidade da violência física. Liquidando as barreiras que impedem comportamentos considerados criminosos em situação de normalidade, reduz-se a capacidade de defesa daqueles que se poderão opor ao curso dos acontecimentos e imobiliza-se pelo medo aqueles que, não estando directamente envolvidos, são supostos defensores da ordem estabelecida. O terror psicológico imobiliza, confunde e até chega a culpabilizar as vítimas do processo revolucionário.


Nós também tivemos casos de flagrante terrorismo psicológico, bem expressos em actos que qualquer português minimamente equilibrado reputaria como actos de selvajaria, mas que em efeverscência foram tomados como normais: reuniões magnas de alunos julgando professores, seguidas de humilhação pública destes - pontapeados e atirados pelas escadas das universidades - despedimentos e saneamentos com "justa causa", queima de bibliotecas e arquivos históricos, vandalização de monumentos do património nacional, ocupação de casas privadas e edifícios públicos, piquetes, devassa da intimidade, apropriação de objectos da fazenda do Estado para uso dos bandos revolucionários, etc, etc.


O terrorismo psicológico explica-se pela inferioridade numérica de quem faz a "moral revolucionária". A agitação revolucionária é executada por uma ínfima minoria. Invertendo todas as categorias, evacua-se a substância das instituições - a polícia e o exército, os tribunais e a escola - e despe-se de respeitabilidade aqueles que são os representantes e mantenedores do equilíbrio social. Se o bando revolucionário queima, mata, ocupa, desobedece às leis, tal quer dizer que a ordem antiga acabou e que cabe aos revolucionários legislar a partir de um folha em branco. A chamada "pureza revolucionária" é isso mesmo: o poder nu, a violência sem inibição, a inexistência de leis escritas, a transformação do adversário em inimigo do "progresso" e do curso da "história".


No curso dos acontecimentos, espezinhadas as hierarquias, sobem à tona os aventureiros sem escrúpulos, gente que em situação de normalidade nunca seria tida em conta, sem nível, sem inteligência e sem aqueles predicados que fazem o currículo de qualquer indivíduo considerado útil à sociedade. É o tempo dos doentes agressivos, dos paranóicos, dos vingadores, dos bombistas e dos pistoleiros. Quando serena o extremismo, os mais espertos entram na nova ordem e afivelam a máscara de probos e obedientes acatadores da lei, enriquecem e tomam-se de exageros legalistas. Os outros, os tolos, ficarão sempre ancorados ao tempo distante em que foram pequenos reis durante os cinco, sete ou dez meses em que mandaram, vandalizaram e implantaram a lei da selva. Aqui, começou-se com a infame cena do sangue contaminado com HIV. Seguiu-se a normalização da desobediência, os ataques bombistas em toda a capital, o assalto ao parlamento e o fogo real sobre o exército que tentava conter as manifestações recorrendo a canhões de água, gás e balas de borracha. Só falta invadir as instituições, orquestrar julgamentos populares (leia-se, da ínfima minoria) e abater os "culpados" em frente do paredão. Tudo é normal em revolução.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Sinceramente, creio que o 1º ministro Abhisit tem razão. Não é normal a existência de metralhadoras soviéticas num número tão substancial como aquilo que as imagens mostraram. Deve ter havido uma infiltração de terroristas que se aproveitaram dos manifestantes, neles se escudando. Por outro lado, uma grande potência vizinha manifestou a sua preocupação pelos acontecimentos. se está assim tão preocupada, ajude o governo a estabilizar as coisas. As estrelas vermelhas e os uniformes "à Mao# não ajudam ninguém a acreditar nessa "preocupação". Vimos no que no que se refere ao Nepal. No Quirguistão a tal grande potência também se encontra "muito preocupada" e percebe-se o porquê: Putin antecipou-se e fez bem.
Soube ontem pelo noticiário britânico, que o governo Thai declarou estar seguro de existirem interferências externas. Há semanas que disso se fala abertamente em toda a internet, comentários de jornalistas, etc. Mas qual é a dúvida, dada a situação internacional na área?

Nuno Castelo-Branco disse...

Dizia, "no que se refere ao Nepal".