10 abril 2010

Tanques já rolam em Banguecoque

Finalmente, começou a operação "tam kwamsahart" (limpeza). Na baixa da capital, onde resido, os utentes dos mercados e centros comerciais foram obrigados a abandonar precipitadamente as suas compras e a rádio e tv's pedem insistentemente que a população civil evacue as ruas para permitir a reposição da ordem. O meu vizinho coronel perguntou-me se queria ir dar um passeio higiénico. Fomos ao Comando Metropolitano da Polícia, onde se situa o Hospital Central das forças da autoridade. Nos jardins, tropa de choque, polícia militar e soldados do regimento da rainha, com os conhecidos lenços cor-de-rosa. Sorrisos, v's de vitória e a certeza que hoje ou amanhã tudo estará terminado e que alguns até poderão ir passar o Ano Novo com as famílias.


Depois, na esquina da Praça do Sião, dez minutos de conversa com membros do batalhão da Polícia de Choque, que impedem o acesso ao acampamento vermelho de camiões e motos que ostentem bandeiras thaksinistas. Os soldados estão muito descontraídos, levantam-se para saudar o meu acompanhante e perguntam-me de onde venho. Novamente ouço muitas referência a Ró-Náu-Dú e um sargento disse-me que era de Ayutthaya (antiga capital do reino) e que conhecia bem o Ban Protukét (aldeia portuguesa), para de imediato me informar que não é budista nem cristão, mas muçulmano. Este batalhão deve ser especial, pois gargalham todo o tempo. Os oficiais acercam-se, perguntam-lhes se têm sede e um soldado mais atrevido responde-lhe que lhe tragam um whisky. Uma gargalhada geral.


Como todos os thais, gostam de ter alguém a fotografá-los. Fazem pose, apagam os cigarros, ficam de sorriso parado esperando a melhor fotogenia. É o mesmo povo que ontem visitei, uns vestindo de verde, outros de vermelho. Um soldado mais jovem andava à volta e parecia ter vergonha em falar-me, até que encheu-se de coragem, puxou-me pelo pulso, sentou-se nas traseiras da viatura-cela, colocou uns óculos escuros e pediu-me que o fotografasse. Outro, retirou um lenço do bornal, colocou-o em torno da cabeça e fez-me sinal que estava preparado para "aparecer num jornal estrangeiro".


Como não podia aparecer nas barricadas vermelhos na companhia de um นายพัน (Naypân, ou "senhor de mil homens" = coronel), abandonei o meu companheiro e percorri só os mil metros que separam o cordão da polícia do ajuntamento vemelho. Que diferença entre a noite de ontem e o que me foi dado ver agora. Dos vinte mil manifestantes de ontem, não restam mais de 2000. As pessoas estão sorumbáticas, cansadas e pressente-se que já aceitaram a inevitabilidade da derrota. A tropa actuou hoje um pouco por todo lado com dureza e foi fácil desagregar as milícias de Thaksin, que pouca resistência ofereceram após disparos de gás lacrimogéneo e balas de borracha. Deram entrada nos hospitais civis cerca de cem pessoas. No acampamento vermelho tenta-se agarrar os manifestantes dando-lhes comida e bebidas em grande quantidade.

Os thais, quando preocupados, trincam a língua. O sorriso desapareceu e toda a festividade sileciou-se. As palavras de ordem que se proferem são dirigidas à polícia, lembrando-lhes que eles [polícias] também são do Issan (nordeste) e que não batam nos seus conterrâneos. Na multidão, mais um "português" com a camisa da nossa selecção. Estava tão atordoado que nada me respondeu.

Um casal pediu-me que lhes fotografasse as crianças, mas acercou-se um miliciano de camuflado e óculos escuros deu ordens aos miúdos para que cerrassem os punhos. Não foram muito convincentes. Ao reparar no panda na t-shirt da miúda, só me deu vontade recusar a manipulação. Lenine, Mao e Thaksin não rimam, decididamente, com o amorável panda.

Quem são os irredutíveis nas derradeiras horas desta segunda derrota de Thaksin nas ruas da grande cidade ? Os últimos lutadores de rua são pobres camponeses trazidos à capital, algum proletariado urbano, milicianos vermelhos e alguns monges de duvidosa genuinidade. Nunca vi monges com tal arcabouço físico, com tatuagens punk, camisolas vermelhas e lenços a tapar-lhes o rosto. Juntamente com os idosos e as crianças, servirão como escudos humanos. Vergonhas da política !

A noite está a cair. Terá chegado o momento do ataque final ?

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

A paciência tem limites. O governo e a tropa fizeram bem em esperar e note-se, não existem balas de guerra, mas de borracha. O que os "do costume" pretendiam, era um banho de sangue com mortos e feridos graves. De preferência, com os tanques a passar sobre os manifestantes. Não aconteceu, pelo menos até agora.
Ceder equivale à rendição, num processo que já conhecemos. Tivessem a Guarda Municipal e o Exército actuado como deviam no 3-5 de Outubro de 1910 e Portugal teria escapado a violências, ruínas, ditaduras, erc. Actuar quando se deve, eis o que há a fazer.

Pedro Leite Ribeiro disse...

Aqui passaram imagens da polícia de choque a fugir aos manifestantes e a deixar armamento para trás...
Lenine e os outros podem não rimar com o panda mas são todos da mesma família dos ursos.