18 abril 2010

Praça da Vitória, clarim da lealdade: por amor ao Rei




Pelo terceiro dia, uma grande multidão multicolor unida por fervor patriótico e inquebrantável lealdade à pessoa do Rei, tomou de assalto a Praça da Vitória, altar da pátria, monumento que recolhe as cinzas dos soldados caídos na guerra anti-colonialista de libertação de 1941 dos territórios usurpados pela França no Laos e Camboja em finais do século XIX. Convocada pela plataforma Amar a Pátria, tendo por palavra de ordem Três Amores: Amor à Pátria, Amor à Religião, Amor ao Rei, foi a mais expressiva demonstração pública de rejeição da subversão vermelha até hoje realizada em Banquecoque no decurso dos trinta dias de crise política em que submergiu o país e que causou já prejuízos orçados em mil milhões de dólares.




As plataformas das estações do metro de superfície por onde passei em direcção ao Monumento da Vitória encontravam-se coalhadas de homens, mulheres e crianças de todas as idades, etnias e grupos sociais empunhando bandeiras amarelas reais e bandeiras nacionais. As pessoas cantavam hinos de Guerra e da Paz, repetiam Song Phra Charoen (Viva o Rei) como um mantra e iam animando-se umas às outras com transbordantes palavras de afecto, irmãozinho e irmãzinha - para os mais novos - e Tio/Tia para os mais velhos, desfiando as razões de cada um pela adesão a este acto de afirmação nacional. Uma senhora de uns 80 anos disse-me que tem vindo todos os dias para "travar o comunismo" e "defender o Rei e a liberdade".




A Maioria Silenciosa acordou finalmente, retirou os estandartes do silêncio e perdeu o medo. É o grande povo tailandês tomado de fúria patriótica que vai retomando a rua e inundando a capital com bandeiras, retratos do Rei e da família real, faixas de apoio a Abhisit e gritando em uníssono a lealdade àqueles princípios bem inculcados que foram no passado chamamento para as batalhas contra o comunismo e pela luta pelo desenvolvimento económico que em 60 anos transformou a Tailândia num país industrializado dotado de uma forte classe média, consciente e decidida a governar sem tutelas e compenetrada a travar o passo ao totalitarismo thaksinista.



Impressionou-me o grande número de muçulmanos distribuídos pela multidão que não parava de crescer. A resposta para essa interrogação foi-me esclarecida por uma rapariga de véu: "hoje, nas orações da manhã, os nossos líderes espirituais apelaram à mobilização de todos os cidadãos muçulmanos para esta luta pela liberdade e pelo nosso Rei".



Youssuf, de sete anos, veio com o pai, os tios e outros fiéis da sua mesquita e pedi-lhe que o deixasse fotografar com o retrato do Rei. O pai corrigiu-lhe a postura e disse que o retrato de "Somdet Phra Jáo Yú Hua (Rei) só pode ser colocado acima da cabeça, perto do Profeta".


A minha amiga Tún trazia dois cartazes, mas fez questão em exibir o que em inglês dizia "Parem o Terrorista, Parem Thaksin". É preciso coragem para sair à rua com tais dizeres, posto que nem a polícia, nem o exército nem mesmo o governador de Banguecoque autorizaram a manifestação e alertaram para a iminência de ataques bombistas perpetrados pelos grupos terroristas das milícias adestradas no estrangeiro para causarem o pânico entre a população civil.



Em cima de uma viatura dotada de potentes amplificadores de som, o animador pedia à multidão que o seguisse em consecutivas palavras de ordem: Rák Chart, Rák Chart, Rák Chart (Amar a Pátria, Amar a Pátria, Amar a Pátria), "Meuang Thai, khong ráw" (Tailândia é nossa) e Chaiô, Chaiô, Chaiô (vitória, vitória, vitória). Vencido pelo cansaço e sob um sol inclemente, o orador passou o testemunho a outro que, também esgotado, deu lugar a umas dezenas de hinos, marchas patrióticas e canções dedicadas ao Rei. A multidão cantou-as emocionada e num crescendo de entusiasmo que foi electrizando a atmosfera até ao hino nacional, entoado a plenos pulmões.




Um idoso chorava emocionado e nesta comoção era acompanhado por uma dúzia de senhoras que lamentavam o estado a que chegou a Tailândia e o desgosto que sentirá o Rei ao ver tanto esforço de unificação do país estilhaçado por um "Khon Jón" (bandido).




Não vi nesta compacta mole vestígios da tal "aristocracia", "clique da corte" e "oligarquia" e outros raquitismos mentais que só existem na cabeça de manipuladores e fabricadores de mitos-pronto-a-usar para abrir portas a uma guerra de classes. Vi povo humilde, vi taxistas, empregados de super-mercados, professores primários, funcionários públicos e outra gente que recusa o tal veneno da "consciência de classe" para se unir numa dimensão mais alta da vida comunitária alimentada pelo amor da pátria e pela vontade de viver junta, livre e sem ditadura.




Ao soarem as seis da tarde, a manifestação entoou uma vez mais o hino nacional. Uma senhora de olhar meigo e voz sumida, cingindo na fronte um lenço do PAD, aproximou-se e deu-me uma bandeira tailandesa com as palavras: "leve para sua casa e reze pela nossa pátria e pelo nosso Rei". Disse-lhe que não precisava de me lembrar tal coisa, pois na minha sala, ao lado da bandeira de Portugal tenho uma foto do Rei e uma coroa de flores amarelas que renovo de três em três dias. Saí dali com a clara impressão que o triunfo caberá às cores do Rei, que não haverá comunismo nem plutocracia, que a China e seus compagnons de route vão levar uma boa lição e que a Tailândia deixará de ser doravante terreno de caça para a impunidade neo-colonial. Este povo acordou e nada o deterá até alcançar a vitória.Afinal, o meu "astrólogo" acertou em pleno.



Rák Chart (Ama a Pátria)

Sem comentários: