22 abril 2010

Os tradicionalistas vão tomar o poder ?

Este é o movimento vermelho que os media ocidentais não querem divulgar

Tentei compreender a evolução dos recentes acontecimentos à luz da experiência histórica tailandesa dos últimos quarenta anos e desde cedo me apercebi da natureza ideológica do conflito, que não é senão marginalmente de natureza social mas é, sobretudo, de concepção do Estado e do sistema. O movimento vermelho, que se vai lentamente autonomizando de Thaksin - que continua como figura internacional de cartaz, mas tornou-se refém de uma lógica em que mal intervém - foi-se radicalizando nos modos e nas palavras a tal ponto que hoje é, de facto, um partido comunista apostado no derrube violento da ordem existente. Ainda pensei que Jatuporn, o mais credível e civilizado líder vermelho, pudesse controlar a deriva extremista e refrear os ânimos, colhendo os louros à mesa das negociações e abrir a porta (como o disse há mais de um ano) para criação de um partido de esquerda reivindicativa que pudesse reclamar mais justiça social e direitos laborais no quadro da vida parlamentar desta que é a única verdadeira democracia do Sudeste-Asiático. Mas não, Jatuporn está, também ele, nas mãos de gente impreparada politicamente, agressiva e expedicta que optou pelo bombismo, pelo terrorismo urbano e pela barricada. O movimento vermelho hoje só conta com o apoio do militante radical e gente que aqui com toda a propriedade caracterizei como o lumpen. Não é com o lumpen e com psicopatas que se oferece uma solução de reforma do sistema. O odioso recai, por inteiro, sobre o movimento vermelho e mesmo pessoas incolores e quase indiferentes à intriga e jogo políticos corrigiram a sua neutralidade ao perceberem que a finalidade objectiva do movimento vermelho era o derrube da democracia e o fim da monarquia. As pessoas prezam a liberdade e amam o Rei, pelo que se foram lentamente aproximando daqueles que são, na rua, o dique à instalação de um regime totalitário na Tailândia.

Este é Methee Amornwuthikul, deputado taksinista. Foi nestes termos que respondeu a uma pergunta feita por um jornalista. É este o movimento vermelho !

Sou absolutamente imparcial no que à vida política deste país respeita, mas sei interpretar o que vejo e ouço. Fui por duas vezes ao campo vermelho e segui atentamente o comício monárquico multicolor da praça do Monumento à Vitória. O movimento "rosa" e "multicolor" integra muitos simpatizantes do primeiro-ministro Abhsiti, mas toda a organização, segurança, logística e entusiasmo é obra do PAD (amarelos, Partido das Novas Políticas), uma formação de choque ("Exército Budista da Tailândia") com larga experiência e coerência ideológica que quer substituir esta democrcia por "outra democracia". A fragilidade do exército, que se mantém inerme e a docilidade e simpatia dos democráticos de Abhisit, ao invés de permitirem a abertura de um debate com os vermelhos, aumentaram a agressividade e impunidade dos comunistas. No fundo, os vermelhos perderam no oxfordiano Abhisit a única possibilidade de um pacto para reformas. Ao pedirem a sua demissão, deram a caução a quantos, no campo oposto, exigem uma solução de força. O ódio cego a Abhisit será a tumba do movimento vermelho.


Diz-me o meu "astrólogo" que a sublevação vermelha vai acabar como acabou o movimento esquerdista em 1976: grande efusão de sangue nas ruas, seguida de intervenção tardia das forças armadas. Em 1973, o Rei foi o grande promotor da abertura democrática. Os primeiros tempos foram de paz, diálogo e real liberdade de associação, reunião e expressão livre. Contudo, por volta de 1975, por indução do clandestino Partido Comunista da Tailândia, os moderados foram ultrapassados pelo agit prop marxista, as universidades transformaram-se em viveiros de extremismo esquerdista, greves sucessivas imobilizaram o tecido produtivo e repetidos insultos ao Rei obrigaram vastos sectores da sociedade a alterar a sua adesão à ideia de uma democracia decalcada do modelo ocidental. Foram os civis e não os militares que então sairam à rua e fizeram sua a bandeira do anti-comunismo e do anti-totalitarismo. O fenómeno repete-se hoje, com a agravante para os vermelhos de não terem a seu lado a população urbana, os estudantes e a pequena burguesia: os vermelhos só contam com marginalizados sociais, com gente paga trazida da província e com o núcleo dos eternos descontentes que surgem em momentos de quebra da autoridade.

O Phantamith (movimento amarelo, hoje Partido das Novas Políticas) vai aproveitar esta situação para fazer aquilo que Abhisit e o exército não conseguiram fazer: restaurar a ordem nas ruas, decapitar o movimento vermelho e instalar o seu governo em nome da segurança. Diz-me o "astrólogo" que há cerca de cinco mil amarelos prontos para eliminar a rebelião vermelha e que avançarão sem delicadezas. A secundá-los, há centenas de milhares prontos a sair à rua para aplaudir o fim do pesadelo destes últimos trinta dias. O país precisa de calma e acabou, infelizmente o tempo dos moderados: chegou o momento da luta.
spero que o cenário não se cumpra e que Abhisit consiga, pela democracia e com a liberdade, triunfar sobre o totalitarismo vermelho e sobre a tentação de um "governo forte".

3 comentários:

JNAS disse...

Para algo completamente diferente leia aqui : http://ilhas.blogspot.com/2010/04/acautele-se.html

Nuno Castelo-Branco disse...

Talvez seja disso mesmo que os soldados estejam à espera. Era isso que a monarquia devia ter podido fazer no Portugal do início do século XX. Varrendo com o ínfimo mas violento prp para Timor, teria poupado o país a muitas misérias e às vergonhas que se conhecem.

Arranjem uma solução civil para o caso: paciência, se tiver que ser.

Nuno Castelo-Branco disse...

O tal actor Methee já foi apanhado. Já vomitou informações muito interessantes. Que o passem na tv. Ficam todos esclarecidos.