24 abril 2010

O tempo das fezes e dos difamadores

Depois do ciclo do sangue contaminado por HIV, da desobediência civil, da invasão do parlamento, do apedrejamento de imóveis públicos, ocupação de avenidas e levantamento de barricadas, atentados bombista, lançamento de projécteis de guerra sobre civis indefesos, desarticulação da baixa comercial e turística da capital, vandalização de monumentos e entrada em acção de grupos para-militares dotados de armas de repetição e armas anti-carro, parece ter chegado o preiamar do terrorismo psicológico.

O centro da capital está morto. Tudo parou: o metropolitano parou, as carreiras de autocarros foram suspensas, os centros comerciais fecharam. Banguecoque está, pois, totalmente refém de uma minoria armada a tudo disposta para o derrube do regime e do sistema democrático. Serão três, quatro ou cinco mil, não mais, apoiados pela estridência das agências noticiosas, por alguns países que não respeitam o estatuto internacional reservado aos representantes diplomáticos e a muitos intriguistas que manobram nos arcanos, levam e trazem recados, espalham boatos e rumores. A coisa vai na quinta semana e já se terão perdido dois mil milhões de dólares, quase trinta vítimas mortais e novecentas pessoas feridas.

Hoje passei pelo acampamento vermelho, pois impunha-se-me fazer compras e tinha de passar forçosamente por aquela barracaria a perder de vista. Muita coisa mudou deste a semana passada. É um estendal de fezes e urina, lixo e cartões e papel amontoado, um cheiro nauseabundo, crianças completamente nuas brincando e saltitando entre lixo, homens e mulheres agachados fazendo necessidades fisiológicas em plena rua, outros quase nus tomando banho na via pública. Dir-se-ia que Banguecoque voltou ao neolítico e que agora só falta assistir à quebra da autoridade que limita esta Utopia regressiva e subsequente invasão da cidade por uma horda de rapinadores de tocha na mão a pegar fogo e a saquear as lojas e mercados selados.

O estendal de roupas a secar é imenso. Há, até, um "museu" com as "provas do sangue derramado pelos mártires", devidamente integrado num shopping revolucionário onde não faltam o livrinho vermelho de Mao, bandeiras e bonés com a foice e o martelo, crachás com Marx e Lenine, "salas de aula" onde se dão lições sobre a "revolução", animadas por comissários e comissárias "educadores". A liderança vermelha perdeu o rumo e parece já nem exercer autoridade sobre o palco central onde decorre o infindável comício vinte e quatro sobre vinte e quatro horas.

Onde é que se permitia uma coisa destas num país ocidental ? Que governante europeu aceitaria ter em plena capital uma ínfima minoria a tudo disposta sem mandar avançar os carros, a polícia e o exército para jugular uma revolta destas ? Ainda pensei que os mais moderados dos líderes vermelhos pudessem segurar tais excessos, mas não, perderam até o controlo sobre o que no palco se diz. Hoje assisti ao discurso de uma milionária que foi, em tempos, a dona de uma conhecida cadeia de restaurantes japoneses. Dizem que abriu falência há cerca de dez anos e recorreu a Thaksin para a salvar da insolvência. Dele recebeu milhões e é hoje uma das mais exaltadas militantes da república thaksinista. Não sendo propriamente uma senhora, mas uma daquelas arranjistas cujos gestos denunciam a natureza e o dinheiro novo, seria de esperar que a intervenção fosse moderada. Ouvi daquela boca os maiores impropérios, as insinuações mais soezes, os palavrões mais sórdidos a respeito do Rei, da Rainha, do General Prem e do governo de Abhisit. Terminou a arenga, esgotada e quase histérica, de punho cerrado pedindo aos presentes "vingança" e o "poder para o povo".


Depois, há milícias por todo o lado fazendo formaturas e chamadas, outros carregando pneus, arame farpado, lanças e obstáculos anti-carro, há homens fardados dos pés à cabeça controlando o trânsito, equipas de enfermeiros dando "consultas". Ao sair do acampamento pela barreira no extremo oposto, um fulano, que julguei um militar, mandou-me abrir o saco para o fiscalizar. Um militar, aqui, no meio dos vermelhos ? Mas não, era um soldado de uma das milícias que Thaksin mandou para a capital. Isto está pela hora da morte.

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Incrível!!! Aqui, o sr. Cavaco há muito teria enviado as Operações Especiais dar cabo da coisa! Há que tempos!

O Pol Pot no centro de Bangkok? Como é possível existirem anormais que no Ocidente não querem ver o que se avizinha? Estarão pagos? Só pode ser.