09 abril 2010

Nem rebelião, nem revolução: um simpático caos tailandês

Não vale a pena sintonizar as televisões ocidentais nem os opinativos de várias linhas e recursos ilimitados, de suposta seriedade, mas que não conhecem o povo tailandês, desconhecem-lhe a língua e dos modos só estão habituados ao papel de clientes nas indústrias de diversão e relax destinadas a bolsas endinheiradas. Os thais, como disse um sensível autor italiano (Maurizio Peleggi) construiram ao longo das últimas décadas um "business of nostalgia" e outras configurações iconográficas e textuais de folk para exportação, destinadas a preencher as necessidades de "exótico" dos ocidentais que aqui procuram o diferente. Contudo, os thais escondem uma tal diversidade e riqueza de aspectos que seria arrogante reduzi-los à caricatura a que alguns roteiros de "pensamento correcto" por aí vão debitando impunemente em rábulas já lidas e aplicadas noutros locais, mas que aqui a nada correspondem.
Depois de ouvir a CNN, julguei que as coisas estariam nas vascas da agonia para o boníssimo Abhisit, o primeiro-ministro que não quer ver sangue thai derramado e vai esticando semana após semana a paciência dos mais ardorosos empregados de Thaksin. A locutora da CNN trajava sintomaticamente de vermelho, naqueles flagrantes patetas de simpatia por revoluções exóticas, conquanto que estas sejam precisamente isso: exóticas e muito distantes. É a necessidade do Robin dos Bosques que habita qualquer burguês vivendo no hemisfério ocidental. Eram sete da tarde e resolvi, uma vez mais, passar pela concentração vermelha, bem próxima de minha casa.
O que dizer ? O espírito thai tomou conta da coisa. A linha dura dos politizados e endoutrinados, dos leitores de cábulas de marxismo e de glosas de Jitr Pumisak parece ter sido ultrapassada pelo povo chão. Onde anteontem só ouvia morras ao governo, insultos ao Conselho Privado, palavras de ordem contra os "generais" e a "aristocracia", hoje encontrei muita gente, cerca de 20.000, sentados, rindo, cantando, comprando e vendendo produtos, jogando às cartas, com crianças à volta pulando e saltando. Num país onde o regime fascista foi uma palhaçada e o comunismo nem se atreveu atacar o budismo, não é de estranhar que com a passagem dos dias os participantes neste imenso piquenique se revelem como são: gente amável, sem ponta de agressividade, crédula e disposta a brincar, como é marca deste povo lúdico. Aquilo que até ontem era um comício 24 sobre 24 horas, é hoje uma barracaria de comes e bebes a perder de vista. Passou a ser uma feira popular com farturas, gelados, sopas e espetada de frango, mais vendedores de relógios, chapéus, chinelos e óculos destinada ao proletariado de Bangkok. Há música de graça e há, até, kin kao (comida) oferecida pela bolsa de Thaksin, mais remédios "free", mais karaoke "free" e muita conversa com amigos e vizinhos vindos para estas férias pagas desde os confins do nordeste. Os de Bangkok trazem os cães e falam por telefone para os amigos, recomendando-lhes a feira, pois ali se está muito "sabay" (confortável).

Chegam quatro carrinhas e a multidão corre para buscar o arroz de frango "free". Já nem ligam ao orador que no palco vai esbracejando e exigindo-lhes o tributo de palmas pela arrozada dada como se dá o "tambún" (oferenda) no templo. Ficam encantados e comem sem falar, como todos os asiáticos geralmente praticam a instituição alimentar. Comer é para comer. Ninguém fala. Caminho uns duzentos metros entre cachos de crianças adormecidas e adultos agitando umas mãos de plástico que servem para fazer o feito das palmas e entro na área de massagens. Massagens ? Sim, são dúzias de massagistas profissionais que ali montaram negócio de rua, cobrando 100 Bath por um bom "nuad rongtáw" (massagem de pés) e 150 Bath por uma "nud thai" (massagem de pernas, costas e braços). Só não vi a "massagem com óleo", praticada em casas mais resguardadas da vista lá para a zona das lanternas vermelhas de Patpong, o "bairro do prazer" da capital.

Olhando para o simpático quadro, acercou-se de mim um motociclista-táxi, mas sem a mota. Cobria-lhe a cabeça uma boina à Mao e revolucionariamente disse-me "hei mister, do you want to go to oil massage ?" É o que fazem com todos os turistas que desembarcam na Cidade dos Anjos carregados de pulsões. Quando lhe respondi em tailandês que não estava interessado, virou as costas e disse a um outro angariador de clientes para a tal massagem com óleo que eu era um kí nók, o que quer dizer "caca de pássaro" ou "estrangeiro que vive na Tailândia".

Andei por entre a multidão sentada - ninguém se dá ao trabalho de se levantar - e vi um miúdo com um ar absolutamente enfastiado. Deve aqui estar há duas semanas, trazido com os pais na caixa aberta de um camião para fazer moldura humana para a sonhada revolução social prometida pelo mais rico dos tailandeses. Chamou-me a atenção e tirei-lhe uma foto. Meia hora depois, preparando-me para regressar, circulava entre a feira e lá vi a criança. Onde antes havia um mortal tédio, agora brilhava um sorriso encantador. Estava no meio de brinquedos baratos e ali voltava a ser uma criança. Comprei-lhe um carro de bombeiros em plástico, boa acção que me custou 40 Bath (1 Euro).

Este não é, decididamente, o melhor material humano para fazer uma revolução. É o "meu" povo tailandês, que deverá ser estimado e elevado pelo governo da Tailândia urbana, ocidentalizada e democrática para evitar que este ajuntamento usado e abusado pelos pregoeiros [internos e externos] da demagogia se transforme num verdadeiro movimento violento. São necessárias reformas, justiça social, programas de incentivo, mas qualquer boa intenção de Abhisit exige que se faça, que não se perca tempo, pois a intoxicação plutocrática-comunista, acenando com o saque, o partir de montras, a "justiça popular" e a "igualdade" actua com celeridade e pode vir a danificar irreparavelmente o ethos thai. Talvez tenha chegado o tempo da monarquia voltar a arregaçar as mangas e passear-se entre as alas do povo que ama o Rei e que não o quererá ver trocado por um ditadorzinho mafioso e seus capatazes.

1 comentário:

NanBanJin disse...

Valham-nos os ares de comédia e de burlesco que afinal teimam em pairar sobre Bangkok.

Aqui, foi um rir a bandeiras despregadas com essa do sujeito que lhe chamou 'kí nók'. Muito boa mesmo!

Grande Abraço,
NBJ