10 abril 2010

Na noite mais longa: vermelhos pedem a protecção do trono

Uma noite sufocante, com o termómetro a rondar os 36 graus. Silêncio sepulcral, sem vestígios da polícia e do exército na zona circundante do último reduto vermelho. Pela meia noite atravessei a pé a longa avenida que leva à praça onde se situa o acampamento dos sublevados. A rádio acabara de debitar os aterradores números da batalha do fim da tarde: 700 feridos e quinze mortos. Andei e só vi gente jazendo pelo chão ou deitada em esteiras dormindo um sono profundo.
Entro no templo ao lado de minha casa e, fiados na protecção do Iluminado, dormem famílias inteiras de camponeses. Não há vestígio de milicianos. Parece que a tarde de violência dizimou os mais ousados, os quais se encontram agora internados nos hospitais da capital, ao lado dos quase setenta soldados também feridos nos recontros. Depois de semanas ininterruptas de violência e pressão psicológica, parece ser a noite do grande sono.



Na Tailândia não há família extensa. A família é, aqui, apenas o núcleo pais-filhos, um avô ou uma avó e nada mais. As crianças mais novas dormem com os avós, enquanto os adolescentes ficam ao lado dos pais: as raparigas dormem com a mãe, os rapazes com o pai. Andei mais de quinhentos metros entre pessoas inertes, de boca aberta, pernas contorcidas, corpos em posição fetal. Foi um dia de grandes comoções que se anunciou com lutas esporádicas e terminou num caos de tiros, ambulâncias, cargas policiais e muito sangue. As forças de segurança estarão, também elas, esgotadas, pelo que o silêncio que se abateu sobre a capital é revelador do estado de exaustão em que os actores deste longo conflito civil se encontram.


No acampamento, cada vez mais sujo, estarão agora quatro ou cinco mil pessoas, a maioria em situação de reféns, pois são da província, para aqui foram trazidas pela liderança vermelha e não há meio de se furtarem pelos seus próprios meios. Compreendo agora, por que razão o exército não investiu contra esta pobre gente. Abhisit disse-o indirectamente no discurso que proferiu à noitinha: "lamento o sofrimento, os mortos e os feridos e tudo fiz para evitar esta situação".



À volta de televisores ou assistindo ao comício que se vai produzindo do palco central, as pessoas ouvem as alocuções dos oradores vermelhos. Subitamente, ouvi a voz de Khun Jatuporn Promphan, sem dúvida o mais carismático dos vermelhos, orador de excepção e de enormes recursos na arte de entusiasmar e dirigir a multidão com a magia da palavra. As pessoas foram-se levantando, outras correram para a frente do palco. A cada tirada, uma salva de palmas.

O orador foi discorrendo sobre os acontecimentos da noitinha, da gravidade da situação e do estado de não-retorno que se parece ter consumado com as lutas do dia. Contudo, preparava algo, pois aludiu uma vez ao Rei. Ao ouvirem falar no Rei, os presentes irromperam em gritaria prolongada e o orador sobrepôs-se às palmas, que continuaram a acompanhá-lo na longa tirada em voz poderosa: "nós pedimos ao nosso Pai, ao Senhor da Vida, ao Senhor do Reino; nós, que somos os seus mais humildes filhos, os mais leais, os mais desinteressados; nós que o amamos em tudo, que por ele estamos prontos aos maiores sacrifícios ..." . Foi atroadora a resposta e a palavra de ordem que acabou por calar o orador mostrou a que ponto o amor dos tailandeses pelo seu Rei se mantém: "ráu rák Náy Luang, ráu rák Náy Luang" (nós amamos o Nosso Rei).

Interpretei este grito colectivo como um pedido de protecção e intervenção do trono. Afinal, no momento derradeiro desta aventura, os thaksinistas já não pedem dinheiro, mas a dignidade da cidadania, o reencontro entre o povo trabalhador e o Rei que por eles trabalhou sessenta e três anos, a voz e o conselho daquele a quem os tailandeses consideram o seu pai. Estou certo que o Rei os ouviu e que se pode abrir a porta para a reconciliação. Uma vez mais, a monarquia demonstra a sua magnanimidade e o papel central de árbitro nas lutas civis, eixo da vida comunitária e vínculo de unidade e justiça.


Após a manifestação de adesão à figura do Rei, as pessoas voltaram a sorrir. Jatuporn fez um bom trabalho e evitou, quiçá, a total derrota e humilhação para os vermelhos. Vamos ver o que o dia de domingo nos reserva.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Espero por uma cena igual à outra de 1992, com os chefes dos vários partidos a ouvirem aquilo que deve ser dito. Depois, deverá ser o regresso ao trabalho, às prometidas reformas e à calma.
É melhor habituar-mo-nos a este tipo de coisas, pois nãos e sabe até onde a nossa própria situação chegará. Em Portugal não se ficarão pelas balas de borracha. São acontecimentos raros, mas quando acontecem, é mesmo a sério.

Nuno Castelo-Branco disse...

Dizia, habituarmo-nos