01 abril 2010

História desconhecida dos portugueses na Ásia: o Rei do Sião salvo pelos portugueses


Portugal enquanto Potência Histórica

Portugal mantém ainda no Sudeste-Asiático o papel de "Potência Histórica" e nessa condição convoca a memória de um tempo em que foi pioneiro nas relações entre o Ocidente e as politéias budistas desta região do planeta.
A expressão Potência Histórica foi cunhada pelo Professor Vasconcelos de Saldanha e surge como a mais feliz síntese de tudo quanto Portugal, já após o ocaso do império oriental, representava para as potências asiáticas ao longo dos séculos XVIII e XIX: a de um Estado europeu que favorecia o relacionamento paritário Estado-a-Estado entre as potências europeias e os potentados regionais que, depois, os imperialismos e colonialismos francês e britânico quiseram extirpar e substituir pelo direito da força. Infelizmente, a nossa historiografia tem dado pouca, senão nenhuma atenção à história diplomática portuguesa na Ásia das Monções e subcontinente indiano após a grande viragem do século XVII, quando Portugal trocou a opção oriental pela atlântica, movendo o eixo central do seu império para o Brasil e Golfo da Guiné. Oferecemos hoje um exemplo elucidativo da permanência do estatuto que continuou a assistir Portugal enquanto agente de intermediação reconhecido pelas demais potências.

O Rei Chulalongkorn
Crise do Palácio Fronteiro. Sião, 1874-75
O Sião possuia, na tradição indiana, uma monarquia bicéfala. Contrariando a lenda do "despotismo oriental" que o Iluminismo espalhou como característica definidora de um regime centrado na figura do Rei, o Sião era uma politéia plural. O Rei dividia funções com um "Segundo Rei" (Uparat), o qual intervinha em todas as tarefas da governação, possuía exército e funcionários, corte própria, dispunha de autonomia sucessória e só dependia do Primeiro Rei em matéria de cabimentação orçamental. Residia o Uparat no Palácio Fronteiro (วังหน้า=Wang Na) e era um poderoso contra-peso e até rival do primeiro titular do Estado. A tensão entre os dois palácios foi marca da vida política siamesa ao longo dos séculos, mas durante o período Banguecoque assumiu por vezes uma tal crispação que quase precipitou o país na guerra civil. Rama I, o primeiro rei da actual dinastia (r.1782-1809), teve de defrontar permanente luta contra o seu Segundo Rei. Ao morrer o Segundo Rei, os seus filhos tentaram um complot contra Rama I, mas a conspiração foi descoberta e estes sumariamente executados.

Uparat ou "Segundo Rei" do Sião

Quando o Rei Rama IV (Mongkut) morreu, em 1868, o poder foi exercido por um regente (Suriyawongse) até que o filho mais velho do falecido rei (Chulalongkorn) atingisse a maioridade. Chulalongkorn (Rama V) assumiu plenas funções em 1873. Concomitantemente, o seu primo Vichaichan recebeu o Uparat. O novo Uparat era a cabeça do chamado Sião Conservador, poderosa facção que, não sendo xenófoba, queria uma lenta transição do regime e exigia que as relações entre o país e os estrangeiros (europeus) fossem marcadas por absoluta paridade, na linha que o tratado luso-siamês de 1820 estabelecera. Era o Sião Conservador uma força revisionista, pois sugeria que os tratados desiguais recentemente firmados entre o Sião e as potências ocidentais fossem corrigidos e se regressasse à letra e espírito do tratado com Portugal. Uma outra facção, hoje apelidada Velho Sião, reunia a velha aristocracia e era adversa a qualquer alteração do regime, opunha-se a qualquer cedência aos europeus e era, até, partidária do caminho da guerra se os europeus ameaçassem o país. A estes dois partidos opunha-se o chamado Jovem Sião, liderado pelo novo Rei Chulalongkorn, que defendia a total abertura ao estrangeiro, a modernização tecnológica e construção do Estado moderno à imagem dos Estados-nação europeus.

Quando o Jovem Sião quis proceder à revisão da constituição histórica do Sião, antiga de 300 anos, pedindo a concentração de poderes nas mãos do Primeiro Rei, bem como a revisão da política fiscal e a criação de novos organismos de governação - nomeadamente o Conselho Privado do Rei - o Sião Conservador, liderado pelo Uparat, opôs resistência. Ao Sião Conservador juntaram-se as forças do Velho Sião. O país estava na iminência de uma luta civil.

Depois de uma série de acidentes que não cabe aqui evocar, o Primeiro Rei (Rama V) mandou cercar o Palácio Fronteiro. O Uparat (Segundo Rei) contava com o apoio de peso do principal representate diplomático acreditado em Banguecoque, o cônsul britânico Fox.

Januário Correia de Almeida


A intervenção decisiva do Embaixador Português

A tensão que se vivia conheceu um crescendo ao longo de todo o ano de 1874. Era novo governador de Macau Januário Correia de Almeida, Barão de S. Januário (depois sucessivamente Visconde e Conde de S. Januário) e, nessas funções, exercia por inerência o cargo de embaixador de Portugal junto das cortes chinesa, japonesa e siamesa. S. Januário conhecera o Rei Chulalongkorn quando este, ainda menor, visitara a Índia britânica em 1871. Entre os dois estabelecera-se grande confiança e amizade que se prolongaria pelos anos. Em Novembro de 1874, S. Januário, em carta enviada ao Chao Phrya Phra Khlang (Ministro siamês dos Estrangeiros) informava que visitaria Banguecoque em finais desse mês para apresentar cartas credenciais. Tudo indica que S. Januário fora informado pelo Rei Rama V da crispação entre os dois palácios, pois o governador de Macau precipitou a viagem e seguiu a bordo de um veleiro de Hong Kong, dispensando o habitual vaso de guerra português que levava os embaixadores ao Sião. S. Januário chegou a Banguecoque e foi recebido informalmente pelo Rei. Dias depois, rebentava a crise e os dois palácios envolveram-se em escaramuças. O cônsul britânico Fox, amigo do Segundo Rei, permitiu que o Uparat fugisse do seu palácio para a legação britânica. Era como se a Grã-Bretanha tomasse partido do Sião Conservador e requeresse a intervenção militar armada inglesa contra Rama V. Nessa tarde de 5 de Janeiro de 1875, o Chao Phraya Phra Khlang convocava o Embaixador português e o cônsul-geral de Portugal para uma reunião de urgência no palácio real. Não sabemos o que se terá tratado nesse encontro, mas tudo indica que S. Januário tomou a decisão de entrar em contacto directo com o governador de Singapura, Sir Andrew Clark, homem que bem conhecia e que tinha pelo Rei Rama V grande afecto. O Rei Rama V enviou, datada de 5 de Janeiro, um cabograma a Clark após o encontro com S. Januário. Coincidência ? Não, evidência do conselho do embaixador português.

Sir Andrew Clark
O governador britânico de Singapura mandou um telegrama, informando que só chegaria a Banguecoque no dia 18 de Fevereiro. Entretanto, temia-se uma sublevação contra o Primeiro Rei. No dia 12 de Fevereiro, S. Januário foi recebido de novo por Rama V e terá assegurado o apoio português e fornecido importante informação sobre a iminente intervenção de Sir Andrew Clark, já consertado com os portugueses. A chegada de Andrew Clark coincide com a partida de S. Januário. Não sabemos se os dois governadores se terão encontrado, mas surge como evidência que Portugal mantivera em Banguecoque o seu embaixador até à chegada do diplomata britânco, que descompôs e desautorizou o cônsul Fox e tomou o partido oficial do Rei contra o Segundo rei.
Em 1897, Chulalongkorn visitou Portugal. No dia da chegada, com uniforme de general da Guarda Real, o velho Januário Correia de Almeida cavalgava ao lado da carruagem descoberta do rei siamês. Chulalongkorn jamais terá esquecido que devia àquele idoso o trono em que se sentava e a coroa que cingia.


Let Us cross the river

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Texto a enviar para o Palácio das Necessidades.

cristina ribeiro disse...

Boa Páscoa, Miguel.