07 abril 2010

Estado de emergência: profanada a casa da democracia

É esta a gente que quer governar a Tailândia, o mais estável, seguro e livre aliado do Ocidente no Sudeste-Asiático. Não há como os momentos de exaltação para melhor se revelar a natureza das pessoas. Para uns, basta uma garrafa de vinho; para outros, o cheiro do saque em perspectiva. As massas vermelhas andam em polvorosa, já não respeitam pessoas, ministérios e serviços públicos, estações de televisão, sedes de partidos, universidades, tribunais e até as forças da ordem. Hoje, tentaram profanar o parlamento eleito por sufrágio universal e mostraram a que ponto chegou a sublevação.

O primeiro-ministro anunciou o estado de sítio. A escalada parece deixar de fora a moderação, o comedimento e a inibição em recorrer à ultima ratio. Como tenho tentado dizer, sobre a espuma dos acontecimentos, das figuras e dos acidentes há movimentos profundos que só ganham legibilidade no conhecimento da história das ideias políticas e das instituições que regem este país. Aqui, o Estado ainda não foi devassado nem reduzido a refém da rua, como aconteceu num certo país onde a turbamulta acicatada pela Lubianka, pelos Kalinines (embaixador da URSS em Lisboa desde 1974) e pelos agentes da desordem - como ganharam com isso ! - reduziram a Universidade a um espantalho, as forças armadas em caricatura e a vida política em tragicomédia. Aqui, a liberdade e a democracia tentam sobreviver, ancoradas no exemplo do Rei e do trabalho de elevação que realizou ao longo dos últimos seis decénios.

Cada dia que passa pressinto a madrugada em que, excedido o limite da paciência, as forças armadas terão de intervir. Ainda pensei que no movimento vermelho as vozes do bom-senso e o elementar sentido das conveniências se sobrepusessem às desvairadas atoardas arruaceiras. Quem aspira ao poder não pode exibir armas de fogo, vandalizar edifícios, lançar bombas - são às dezenas as bombas deflagradas ou encontradas por deflagrar nos últimos dias - nem tão pouco apelar ao incumprimento da lei, agredir e espezinhar polícias, conspurcar as ruas com sangue contaminado com HIV e hepatite C. Só lhes falta matar gente em plena rua ou atacar o palácio real.


Foi um crescendo. De movimento que se dizia algures na área da democracia reformista, já só vejo efígies do Che, boinas estreladas, catanas, barras de ferro e gente fardada. Não tenhamos ilusões: o movimento vermelho é hoje, de facto, um movimento que visa derrubar o sistema e o regime e impor algo que por ora ainda está fora da nossa capacidade de previsão. Depois, é a mudança dos facies dos protagonistas e actores. Hoje, impera o patibular, o tipo de população presidiária e aquele tipo de gente que só se deixa retratar nas esquadras de polícia.

12 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Já não digo nada. Os generais estão calados e por aquilo que se pode ler no The Nation e no Bangkok Post, a coisa parece mais séria do que se julgava. Por outro lado, a abstenção da população urbana não indicia nada de bom. Começou o medo?
Sinceramente, se isso resvalar para umas Filipinas ou Vietname, jamais voltarei a colocar os pés nesse país.

David Levy disse...

Aqui por Lisboa, o Jornal Público fez uma curta referência ao assunto. Uma das informações que avançava era a de que os manifs estão a pedir eleições antecipadas, sem invocar o motivo.

Pedro Leite Ribeiro disse...

Percebe-se muito bem o que querem impor. Os tailandeses que abram os olhos...

Nuno Castelo-Branco disse...

Os recentes acontecimentos na Tailândia e no Quirguistão parecem obedecer a um esquema passado a papel químico e que visa o assalto ao poder. Os argumentos são sempre os mesmos - nepotismo, garantias constitucionais, "liberdade", "democracia", etc -, mas o que se torna cada vez mais perceptível, é uma subterrânea luta entre grandes potências que se lançam agora ao assalto de posições na Ásia. Os alvos estão á vista e os processos - que verificámos há uns tempos no Nepal - seguem uma cartilha idêntica. O recrudescer do terrorismo nas provincias tailandesas do sul, a clara influência chinesa nas lutas da casta plutocrática expulsa de Bangkok - Thaksin -, a Junta birmanesa fortemente apoiada por Pequim, a assistência ao Irão nuclear, o laos e o camboja. O quadro parece compor-se.

Enrijece a luta pela hegemonia e controlo dos recursos: os mananciais de água, os hidrocarbonetos e as posições estratégicas na cordilheira dos Himalaias que abrem o caminho às vastidões da Ásia Central ex-russa e aos mares quentes do Andamão e do Golfo do Sião.

A Europa parece querer participar mas desengane-se, porque quase nada conta para o resultado final.

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Que estranho o facto das fotografias de "gajos" armados mostrarem uma Browning .45 e um Colt M-4 ao invés de uma Tokarev e um AK-47.
O senhor possui explicação para esta "anomalia"?

Lura do Grilo disse...

Esses camisas vermelhas são absolutamente asquerosos. Aquela história de darem sangue para despejar na rua é verdadeiramente surrealista. Eles são dos que gostam do sabor e do cheiro a sangue e sofrimento.

Nuno Castelo-Branco disse...

Quando me lembro que o tal Cavaco Silva mandou carregar sobre a gente na Ponte e sobre os policias no Terreiro do Paço... e somos nós uma democracia. O que se passa nas ruas de Bangkok, seria varrido a tiro em qualquer capital europeia. Ora vejam os telejornais acerca da Grécia e concluam por vós mesmos.

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Agora reparei que as tais armas, tal e qual o boné também exibido como troféu(por detrás do M-4), pertenciam ao soldado caído no chão.
Isso é ainda pior do que imaginei. Os comandantes tailandeses devem estar cheios de medo de agir.
Compreendo. Se o fizerem não faltarão depois Baltazares Garzons prontos a condená-los. É mais fácil se prepararem para o exílio...
Espero que esteja enganado, mas parece que os comunas terão uma vitória.

Daniela Major disse...

De facto caro Nuno, as televisões e os jornais falam quase como se o país estive à beira do colapso. Ontem até ouvi uma curiosa, à falta de melhor adjectivo: O governo instaurou a censura (e eu, como?!), acrescentando a jornalista: censura relativa, impedindo os jornais de escrever notícias que provoquem o pânico (ah ok)

Daniela Major disse...

*Caro Miguel

Nuno Castelo-Branco disse...

Carlos Velasco, não se preocupe muito. Os militares agiram bem e pode crer que se se tratasse de uma situação muito grave, teriam actuado. Ali não existem Cavacos ou Sampaios acorrentados. Se o Rei ainda não falou, isso quer dizer que a situação aparentemente está controlada. Numa cidade de 10 milhões de habitantes, acha que 30 ou 40 mil fazem alguma diferença fundamental? Então espere pela próxima manif da maioria silenciosa.
O que se viu em bangkok, em Atenas e Salónica foi logo resolvido à cacetada. As tv europeias que se preocupem com aquilo que têm em casa.

Carlos Velasco disse...

Caro Nuno,

Espero mesmo que o senhor esteja correcto.
Só queria dizer que a minha preocupação transcende o facto de possuir simpatias, graças ao seu irmão, por este nobre povo.
É que, depois de 20 anos de "queda do comunismo", quase todo o mundo é vermelho.
Cada vez mais penso na precisão da obra do ex-major do KGB Anatoliy Golitsyn e sou obrigado a concordar com ele. Vale a pena consultar.