04 abril 2010

Combustões na noite Vermelha


Nota prévia
Desmentindo o tom iracundo da campanha incitada por Thaksin a partir do estrangeiro - muito bem assessorada pelos media de referência - pretendendo enervar as forças armadas e levá-las a intervir com inevitável derramamento de sangue, a verdade é que a Tailândia é uma plena democracia. Em qualquer respeitável democracia ocidental, os tanques há muito rolariam pelo asfalto, o gás lacrimogénio fumigaria generosamente os ajuntamentos e os canhões de água limpariam o centro de Banguecoque. Ao contrário do que aqui se passou há cerca de ano e meio, quando o PAD (Amarelos) ocuparam a sede do governo (então pró-Thaksin) o actual executivo de Abhisit não lançou por ora cargas policiais, não houve rebentamento de granadas e bombas na zona do acampamento vermelho e até tem havido fornecimento gratuito de água à multidão, concedida por decisão do governador da capital, "afecto à aristocracia possidente". Este é o verdadeiro double standard.

Ontem fui à zona da manifestação Vermelha. Não obstante repetidas ordens governamentais, os partidários de Thaksin não evacuaram a zona. Os prejuízos, acabo de ouvir, estão estimados em 600 milhões de Bath e, a continuar a campanha de sabotagem económica, muitos hotéis e centros comerciais do centro de Banguecoque terão de despedir funcionários.

Façamos, pois, o relato da madrugada de ontem. Como é nosso timbre, aqui não há corta-cola dos jornais nem impressões recolhidas por telefone, não se reproduzem rumores nem se fazem elocubrações. Retrata-se o que se viu, sem exagero, lirismo, facciosismo e lentes correctoras.


Uma cidade entregue ao poder da rua

Thanon Rama I, principal artéria comercial de Banguecoque, fechada ao trânsito. Por aqui passam, em dias normais, milhões de veículos, aqui acorrem centenas de milhares de pessoas. É a zona das grandes superfícies comerciais (Siam Paragon, MBK, Siam Discovery, Central World), das boutiques e restaurantes procurados pelos turistas e famílias tailandesas. Aqui se localizam quatro dezenas de hotéis de referência, bares e discotecas, o maior campo de golfe da cidade, a Universidade de Chulalongkorn, o Thao Maha Phorom (santuário) e o grande complexo do Templo de Phatumvanaram, a sede da polícia metropolitana e o seu hospital. Ontem pela tarde, cerca de 20.000 manifestantes ocuparam a zona e tudo parou.

Quantos são os manifestantes

Concentrados na intercessão de quatro grandes artérias, os Vermelhos montaram um palco iluminado por projectores, possuem oito grandes viaturas de som e uma dúzia de camiões em torno dos quais se concentram os elementos da segurança, postados à volta do palco central. A zona de ocupam não é grande. A massa de manifestantes concentra-se numa faixa com cerca de 300 ou 400 metros de profundidade. Ali estarão cerca de 10.000 pessoas sentadas no chão, dormindo, conversando ou ouvindo os líderes vermelhos. No terreiro fronteiro ao Central World estarão mil pessoas dormindo, comendo ou cantando.

Quem são os manifestantes

A maioria dos presentes não é de Banguecoque. São famílias por atacado, com pais, avós e filhos trazidos das mais remotas aldeias das províncias do nordeste (Issan). Perguntei a mais de vinte destes manifestantes de onde vinham e as respostas colhidas foram expressivas: Loey, Surin, Khonkaen, Sakoonnakthon, Roiet, Nongkhai, Yasotron. Socialmente, poderia caracterizá-los como proletariado rural, gente que trabalha à jornada e se encontra momentaneamente desocupada neste fim de estação seca, quando toda actividade sofre interrupção e se aguardam as primeiras chuvas para o início do ano agrícola.



Os tipos étnicos são, para quem conhece o país e passou uma vista de olhos pela abundante bibliografia disponível - Karl Döhring, Schliesinger, Seri Phongpit - um retrato fiel da Tailândia rural. Tudo os distingue da população urbana: no falar quase ininteligível para aqueles que só conhecem a língua thai da capital, na profusão de amuletos, no dançar, na forma de sentar - agachados e sentados sobre os joelhos - na comida consumida e até nos hábitos de higiene.

Cada grupo tem um chefe, habitualmente trajando de negro e vestindo calças camufladas. Sobre o peito, pende um cartão com o nome da localidade de origem, cartão de membro do partido thaksinista e um número que não consegui compreender, mas que julgo indica o número de pessoas que dirige; reminiscência dos nay feudais que exibiam carta patente da sua força de trabalho.


Os tipos predominantes são o Lao-Issan e o thai-khmér, mas também lobriguei alguns lao-chineses, com traços chineses mas pele muito escura, populações que se concentram nas fronteiras com o Camboja e Laos e se cruzaram com as populações nativas.


Há, também, proletariado urbano originário do Issan. São diferentes dos restantes, pois já evidenciam comportamentos citadinos, falam uns farrapos de inglês e são menos inibidos. Trabalham em companhias de segurança, supermercados, são vendedores ambulantes, operários não especializados, taxistas e táxi-motoristas, empregados de restaurantes e pessoal de limpeza.

Um dos traços identificadores destes recém-chegados à grande cidade é o pó de talco que usam como protector contra o calor e contra o tão temido bronzeamento, pois na Tailândia a tez escura é repelida como marca de ruralidade e exposição ao sol. Depois, a música que os anima à dança é o folk do Issan, muito popular entre os núcleos de retirantes vivendo na cidade e já não a música tradicional executada com os velhos instrumentos de sopro.

O caldo ideológico


Vermelho rima com Coca Cola e Vietname, comunismo mais consumo, parece ser a grande aspiração destes militantes que se batem sob a bandeira do mais rico dos tailandeses (Thaksin). Um cartaz chamou-me à atenção e não deixa de constituir um flagrante da impreparação política do partido Vermelho. Pedem uma Tailândia não corrompida e têm como líder o mais corrupto dos tailandeses. Pedem a dissolução do parlamento e a demissão do governo, mas o parlamento foi eleito pelo povo tailandês e o governo actual saiu de uma solução maioritaria constitucionalmente contemplada pelas leis em vigor, pelo que a actual legislatura só deverá terminar em 2011, altura em que Abhisit, no cumprimento do calendário eleitoral, deverá convocar novas eleições.

O vermelho é a cor dominante. Camisas do Liverpool e até camisas da selecção nacional portuguesa, muito popular entre os fãs do futebol, encontram-se um pouco por todos os cantos da multidão. O fulano na foto ficou encantado quando lhe disse que era português e abandonou de imediato a repetição dos slogans "Abhisit Fora" e "Governo para a Rua" para gritar a plenos pulmões "Ró-Ná-Dú", "Ró-Ná-Dú".

As milícias


Gente armada de varapaus, lanças artesanais e barras de ferro circula entre os manifestantes. Os guardas trajando de negro, esses terão armas de fogo, mas não as exibem, pois parece importante manter para o exterior a imagem de um movimento pacífico. Ao aproximar-me de uns trinta indivíduos de capacete e casacões militares, foi-me dito que não os fotografasse, pois são os elementos da força de choque postada atrás do palco, responsáveis pela segurança dos líderes vermelhos. Afastei-me uns dez metros e tentei novamente. Desta vez fui bem sucedido. Os guardas até me ofereceram uma garrafa de água e disseram aguardar com impaciência o ataque do exército. Disse-lhes que não, que não haveria sangue. Ficaram surpreendidos quando afirmei que Abhsit não era um general-ditador e que não queria ver sangue derramado nas ruas de Banguecoque. O mais velho confessou-me que Khun Abhisit pen khon díí, tée ratamontrí hên pén khon may díí - o Abhisit é boa pessoa, mas os outros ministros são gente má.



O lixo e o fedor

Aquela que foi a mais cosmopolita artéria de Banguecoque está transformada num imenso vazadouro de lixo exalando emanações que desafiam as narinas mais insensíveis. Com a temperatura a rondar os 38 graus, a decomposição de alimentos, a urina e fezes emprestam à avenida o retrato da perda de autoridade que tomou de assalto o coração comercial e turístico da capital.


Há milhares de quilos de garrafas, sacos plásticos, recipientes de esferovite e restos de comida amontoados por todo o recinto. Não vi qualquer brigada de limpeza em actuação. Em frente dos melhores hotéis, empregados tentam minimizar o impacto do flagelo que se abateu sobre o distrito, mas só com o concurso dos serviços municipalizados se poderá retirar à capital o toque de Phnom Pehn que se instalou na Cidade dos Anjos (Banguecoque).



As necessidades fisiológicas de milhares de pessoas inundam a avenida e desautorizam qualquer lirismo revolucionário. Um estrangeiro saído de um hotel de máquina em riste e largo sorriso retrocedeu com vómitos e perdeu de imediato o impulso aventureiro de assistir a uma revolução.



Hamburguer Hill

10 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Que comecem a cair as primeiras bátegas da monção e esses revolucionários tudo largam para acorrer ao trabalho nos campos. As férias estão quase a terminar...

Pedro Soares Lourenço disse...

Fabulosa reportagem, Miguel; grande abraço.

Gi disse...

Obrigada, Miguel, por este relato (e outros) que nos permite ler a imprensa com olhos críticos.
Só desejo boa fortuna aos povos do Sião, e bom senso a quem os governa.

Kubrik64 disse...

Concordo plenamente com o Miguel, a Tailândia é uma plena democracia e, se fosse em qualquer respeitável democracia ocidental, já os vermelhos estavam em casa e muitos outros detidos!!! (fazendo alusão ao comentário da foto do Thai com a camisola de Portugal), em 2008 vivi o Songkran em Nakhom Ratchassima (Issan), estava vestido com a camisola da selecção Nacional, mais precisamente a do Ronaldo, e não quero exagerar, mas ao menos uma centena de pessoas interpelaram-me, Protuget, Protuget, Ró-Ná-Dú, Ró-Ná-Dú, e felizmente ou infelizmente pra muitos dos nossos compatriotas, o maior embaixador de Portugal no Reino do Sião é um jogador de futebol, pelo resto, a nossa importância e passado histórico neste reino é de pouca relevância no olhar do Thailandês, é pena, mas na Tailândia farei sempre alusão que fomos os primeiros....!!!!

Isidro Parreira

Marcia Faria disse...

A semana passada os professores em São Paulo,(funcionários do governo)se reuniram para marchar até à sede do governo paulista.
Era uma passeata dos professores estaduais reivindicando melhores salários.Soldados cercaram o Palácio dos Bandeirantes para impedir que os manifestantes se aproximassem.A polícia civil foi chamada para fazer bloqueio nas ruas próximas impedindo à passagem, policiais em motocicletas também ajudaram.
Para dispersar os manifestantes caso necessário traziam balas de borracha,gás,e jato de água.
Cada povo tem à DEMOCRACIA que merece...

gustavo disse...

Sr. Castelo Branco
Peço sua atenção para o comentário assinado por essa personagem de nome Marcia Faria, uma vez que ele complementa perfeitamente o assunto do seu texto.
Em primeiro lugar, a marcha referida não era de professores genericamente, mas de militantes da CUT (Central Única dos Trabalhadores), braço sindical do PT(Partido dos Trabalhadores), inimigo jurado do governador de São Paulo.
Em segundo lugar, os grevistas (cerca de mil professores, 0,45% do total no Estado, participaram do protesto, enquanto os demais 219.000 funcionários do setor ignoraram a "greve") pediam um aumento salarial de 34%, sabendo perfeitamente bem que o valor era impraticável. Aliás, eu listo abaixo as outras exigências dos piqueteiros que Dona Marcia esqueceu de mencionar:
1º. Fim do exame para averiguar a capacidade dos professores temporários.
2º. Fim da valorização por mérito, como se faz nas escolas públicas de Nova Iorque.
3º Fim da regra que estabelecia como critério para reajuste salarial, a assiduidade, o tempo de permanência na escola e o exame anual mencionado acima.
4º. Revogação das leis Nº 1093(Lei dos Temporários), Nº1094(Lei do concurso público para o magistério), Nº1097(Lei da valorização pelo mérito).
5º. Abolição do decreto que limita o número de faltas "por motivos de saúde", uma verdadeira pandemia no Brasil todo.
6º. Fim do currículo mínimo para as escolas, o que dificultaria, para eles, a doutrinação marxista que hoje passa por educação aqui no meu país.
Em terceiro lugar, os policiais cercaram o palácio devido a notória violência dessa gente, conhecidos pela alcunha de bate-paus. Um apelido, diga-se de passagem justíssimo, o que ficou demonstrado pela agressão sofrida por uma mulher policial, agredida a pauladas no rosto.
Aquilo que Dona Marta se refere ao dizer "democracia" é o mesmo que o inesquecível Lenin chamava "centralismo democrático" e Antonio Gramci "o novo Maquiavel". Nem mais, nem menos.
Desculpe lá essa massa de prosa, Sr. Castelo Branco, mas a novilíngua, desprezível o quanto seja, não pode passar sem resposta.

David Levy disse...

Parabéns! Gostei muito de ler o que escreveu.
Só não percebo uma coisa: a quantos euros corresponde 1 Bath?

Combustões disse...

David
Isto não é terra de gente rica. Um Bath são 4$00, pois faço sempre as contas com o bom e velho Escudo (dos cafés a 20 cêntimos, do pão de forma a 30 cêntimos e do bilhete para o cinema a 200$00). Só depois de entrarmos nesse flagelo nos damos ao luxo de pensar em escala milionária.

gustavo disse...

Perdão, no lugar de " o novo Maquiavel" deveria estar "o moderno Príncipe", naturalmente.

Marcia Faria disse...

Cresce à minha adimiração e respeito pelo Sr.Primeiro Ministro da Tailândia, que sem agir com truculência e respeitando o direito de expressão de cada cidadão,não importando se é vermelho ou amarelo segue lutando pela democracia.
Repetindo suas palavras (acredito que tenha entendido,pois falamos a mesma lingua)você dizia que os que estão no governo hoje:
¨são pessoas inacessíveis ao medo,são responsáveis e seguros, valorizam a cultura da tolerância, paciência e do diálogo perante adversários¨.
Obrigada Miguel pelo seu blog, esta humilde personagem nascida no estado da Guanabara com muito orgulho, vem sempre beber nessa fonte informações tão preciosas sobre o povo da Tailândia.Essas visitas também servem para aliviar as saudades do meu querido Portugal pois esta personagem é com muito orgulho descendente de pai,mãe e avós paternos e maternos do povo PORTUGUÊS.

Marcia Faria