21 abril 2010

Calma e firmeza


O tempo psicológico e o tempo político
As pessoas perguntam-me por que razão não "acontece nada". É compreensível que se queira ver resolvida a dramática crise em que a Tailândia se precipitou, mas esquece-se que o tempo psicológico e tempo dos noticiários não é o tempo da decisão política e da manobra militar. Lembro aos inquietos que as acções militares requerem planeamento cuidadoso, que exigem método e o estudo de factores que escapam à generalidade dos ansiosos. Para mais, no caso vertente, o governo é democrático e o regime não quer ver manchada de sangue a reposição da plenitude das leis. Isto não é uma ditadura nem um Estado policial como a China, pelo que não é desejável a aplicação do modelo à Tiananmen. Aqui vigora, digam o que disserem, a liberdade de imprensa, cada um pode fotografar, auscultar o ânimo de protagonistas e figurantes, reunir-se livremente e dar expressão à sua adesão a um ou outro campos. Para alguns, o governo tailandês exibe uma imagem dúctil, é pouco firme e parece colocar-se em posição defensiva. Discordo, pois o governo deve manter serenidade, informar o país e a comunidade internacional de todos os desenvolvimentos, não se deixar tomar pelo pânico nem infundí-lo na população. Abhisit tem falado diariamente ao país e mantém a actividade corrente do governo numa situação em que muitos, pura e simplesmente, abandonariam ou, pior, investiriam com cega violência.


A unidade do exército
As notícias são boas. A população civil tem dado às força armadas um grande apoio moral e material. Ainda hoje assisti a cenas que jamais poderia presenciar na Europa. As pessoas - não dezenas, mas centenas - percorrem a linha da frente e oferecem tudo o que têm aos soldados. Os soldados, por seu turno, muito longe da ideia de um exército obrigado mas não convencido, convivem com a população, exprimem lealdade ao regime e, mais importante, demonstram uma fortaleza que deixa cair por terra a velha teoria da melancia: verdes por fora, vermelhos por dentro. Só quem nunca passou pelas fileiras - eu fui militar durante cinco anos - poderá cometer o atrevimento de julgar a ordem militar nos termos em que os paisanos a pensam. A tropa não é um ajuntamento de "cidadãos" fardados. É um mundo diferente, unido por relações de lealdade e obediência, por um código ético e até por uma psicologia absolutamente distinta daquela que prevalece fora dos aquartelamentos. As chefias militares intermédias são decisivas para conflitos de natureza política. Aqui, não há milicianos nem o "cansaço em relação ao regime". O exército é estimado e muito acarinhado pelo Estado, pelo que nunca perderia tudo o que detém enquanto instituição, deixando-se ultrapassar pelos acontecimentos. A firmeza da instituição é clara. Quando se reunirem todas as condições para avançar, cumprirá.



A resistência civil
Nunca como hoje, tantos e tão variados estratos da população civil se ofereceram para defender a democracia, a ordem constitucional, o governo e a monarquia. Hoje pela tarde, caia a noite, assisti a um comício de apoio ao governo. Eram centenas de pessoas as que avançaram praticamente sobre a barreira erguida pelos vermelhos e gritaram palavras de ordem em apoio a Abhisit, às forças armadas e ao Rei. O número de manifestantes era tão grande que ultrapassava largamente os vermelhos barricados. A população perdeu o medo, como aqui o disse, e vai fazendo por todo o lado aquilo que há dias se julgava imprudente.
Esta manhã, Silom encheu-se de pessoas agitando bandeiras. Era um mar de gente a que saiu dos escritórios das grandes companhias sediadas nas redondezas e ali expressava solidariedade com o exército.

Pela tarde, na margem oposta da capital, os simpatizantes do governo encheram por completo a grande rotunda de Thonburi, num comício que ultrapassou todas as expectativas. O efeito das manifestações do Monumento da Vitória deu ânimo aos anti-vermelhos. A capacidade de convocação para actos multitudinários está assegurada, peça fundamental para o domínio da rua.
Para sexta-feira está convocado o maior comício monárquico. Da rotunda do Monumento à Vitória, os organizadores optaram por uma das maiores praças da capital - em frente da estátua equestre de Rama V - e diz-se que a massa de manifestantes ultrapassará as 100.000 pessoas, ou seja, vinte vezes aquela que os vermelhos têm no seu acampamento.

O governo não caiu e já não cai
A sublevação vermelha e seus simpatizantes nunca pensaram que Abhisit resistisse com tanta coragem a repetidas situações de grande perigo. O primeiro-ministro inspira segurança, é firme, não abdica da sua autoridade, não quer negociar com a rua e vai criando a atmosfera que obrigará os mais vacilantes a submeterem-se-lhe. Hoje, o governo teve uma grande vitória no parlamento, ao ver recusada uma proposta do partido vermelho. Na votação, os pequenos partidos da coligação governamental deram o voto ao governo, descartando a tão propalada ideia de divisões insanáveis no seio da frente anti-vermelha. Os rumores, a boataria e a intriga fazem parte obrigatória dos cenários de crise, mas os factos é que interessam e Abhisit tem vencido todos os desafios.

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Oxalá. No entanto, está na hora exacta para dispersar a gandulagem. O espectáculo que certa gente tenta fazer passar, leva-nos para o campo do delírio. Basta!
Lembras-te dos tempos de 1975, em que quase todos os dias a nossa mãe nos mandava para a rua, acontecesse o que tivesse de acontecer? Aí que façam o mesmo e aproveitem para varrer o lixo todo. Todo!

Durante dois telejornais vão ouvir-se as carpideiras do costume, mas uns dias depois, la estarão nas agências de viagens para reservar umas férias em Pukhet. Bah...

Ataquem e livrem-se disso de uma vez por todas!