19 abril 2010

Banguecoque, linha da frente: les uns et les autres

A linha vermelha estende-se por uma vasta área da capital. De um lado os vermelhos, do outro o exército. A informalidade thai vai-se instalando com o passar das horas. De um lado e outro consome-se o tempo em conversas, comidas e sestas. Os vermelhos aproveitam para aguçar lanças de bambú, preparar pedras de arremesso, reforçar obstáculos anti-carro, semear as vias de acesso ao acampamento vermelho de pneus que serão usados como máscaras de fumo.

O governo diz que não pode avançar para restaurar a ordem, pois a liderança vermelha socorre-se de escudos humanos - crianças e idosos - para dominar os impetos da tropa. Esta mulher, idosa de setenta e sete anos, está na linha da frente, a uns escassos trinta metros das formações de choque de um batalhão de infantaria que bloqueou o acesso a Silom, uma das mais movimentadas avenidas da baixa da capital. Disse-me que veio de Suphanburi e está em Banguecoque desde Março. Cansada, quase exangue, esta camponesa exibe o nobre silêncio que caracteriza os thais da aldeia. Não seria digno interrogar-me com cinismo sobre o motivo da sua presença nas barricadas, mas só espero que os futuros velhos deste país não mais sejam obrigados a tamanha indignidade. Que olhem por eles, que lhes facultem os cuidados e atenções que merecem as pessoas que trabalharam desde crianças e não haverá candidato algum a ditador que os possa usar como peonagem em lutas fratricidas.

Ao seu lado, um homem simpático e aparentemente rústico, também de Suphanburi. Com ele falei uns minutos e fiquei com a clara impressão que é pessoa inteligente e com um nível de esclarecimento que contrasta com a figura rude. Disse-me que é artesão - trabalha como carpinteiro - e aqui está à espera da mudança. Ao despedir-me, desejou-me boa sorte, contradição absoluta, pois cumpria-se-me deixar a cortesia. No fundo, é tão trabalhador como eu, que tive o primeiro salário aos quinze anos e trabalho há trinta anos. Nós também temos o "double standard", que premeia os filhos, amigos, primos - todos metidos uns com os outros nas cestas e cabazes das curibecas, dos clubes, das seitas e lóbis para todos os gostos e feitios - e deixa de fora os "outros" (eu e tantas centenas de milhares) e ainda por cima nos cortam as pernas, nos enganam nos concursos e ainda se atrevem lá de cima a invocar valores, leis e sonhos. Que se danem !

A primeira linha vermelha está apinhada de garotagem e idosos. Quem lá os colocou ? Com que direito ? Como pode o exército travar uma batalha com rapazes e idosos que poderiam ser seus filhos ou irmãos, pais ou avós ? Aqui não pode ser usada a violência desbragada, mas chegará o momento em que um dos lados terá de tomar a decisão de suspender o fio da consciência e acabar com uma crise que ameaça afundar o país.



Vou ao supermercado mais próximo procurar refúgio no ar condicionado. Uma criança "vermelha", ainda de colo, vem colocar-se ao lado das minhas pernas. Dei-lhe um chocolate e deixou-se agarrar, para grande contentamento da mãe, uma camponesa de cesta de vime às costas. Tive de pedir a um turista europeu que me tirasse a fotografia, pois a mãe do miúdo nunca tinha visto uma câmara fotográfica. Este povo é intrínsecamente dócil e seria doloroso vê-lo entregue às engenharias ideológicas que tão funestos resultados tiveram no Vietname, no Laos e Camboja. Como pode uma criança de colo ser transportada para uma batalha ? Quem responderá pela sua vida ? É, sem dúvida, um pequeno, indefeso e inocente escudo humano. Que vergonha.

Passagem para o campo do exército. Os robot-cop's estão sentados - diria quase refastelados - pelos passeios. Os cidadãos cumulam-nos de todas as atenções: colocam-lhes flores na lapela das fardas, oferecem-lhes gelados, sopas, bebidas e peças de fruta. O exército é uma instituição venerada. Todos os heróis cultuados nos manuais escolares são príncipes guerreiros, soldados-mártires, espadas destemidas. A população civil, cansada e traumatizada por quatro anos de lutas civis, parece ganhar confiança quando por perto vê os militares.

Há flores - rosas vermelhas e jasmins - por todo o lado. A enfermeira sentada no camião vai recebendo simpatias da população, com muitos v's e acenos, à mistura com guloseimas, refrigerantes e estojos de plástico contendo lenços de papel embebidos em água de Colónia.

O exército ocupou o coração da cidade ontem à noite. As horas passam e esperam pacientemente que chegue o momento de avançar. Receberam instruções para não fumar em frente do público - pois que de público se trata - pelo que se refugiam nas traseiras dos prédios para fumarem ou, simplesmente, se reclinarem sobre o bornal e dormirem umas horas.

Um sargento mantém o aprumo. Olha-me quase indiferente enquanto o fotografo. Não sei o que lhe irá na alma, mas pressinto que deve ser um momento dramático na vida de qualquer soldado profissional ter de se preparar para se bater com um inimigo que não é inimigo, mas sangue do seu sangue. Mas o inimigo é outro: são os agentes da intoxicação, os que carregam bilhetes e recados, a impensa internacional prostituída ao dinheiro, os assalariados de Thaksin que dizem uma coisa e pensam outra.

Aqui passam diariamente centenas de milhares de pessoas. Hoje, o arame farpado impera.

O exército é verde-verde. A teoria das melancias não faz sentido num país que jamais conheceu guerra civil alguma. Depois, há a obediência, a hierarquia, traços vincados na sociedade thai, feita de estamentos de serviço e dever decalcados da estrutura militar. O exército é todo thai-thai, isto é, não há vestígios de thai-chin (tailandeses de origem chinesa), posto que os chineses não sentem a vocação de Marte, preferindo os negócios às fileiras. Ainda hoje, nasceu uma outra metáfora. Agora diz-se, contrariando a "teoria da melancia", que o exército é como o durão: verde por fora e amarelo por dentro, imagem bem mais convincente.

A máquina militar thai é poderosa e temida pelos vizinhos, mas tratando-se de um conflito interno, o palácio, o governo e as chefias militares parece que têm repetidamente hesitado na dilemática opção: restaurar a lei, salvar a democracia e proteger o trono esmagando uma rebelião que na Europa já teria sido resolvida com todos os meios (lembram-se da "ponte" sobre o Tejo ?)ou deixar passar o tempo até que outros - civis cansados e exasperados - tomem nas mãos a responsabilidade de sanar a crise.


2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Pois é, o eterno dilema. Deixámo-los passar no 5 de Outubro e a tropa não disparou. O resultado foi o nosso miserável século XX. O Xá deixou-os passar e agora é o que se vê. Luís Filipe deixou-os passar, para não metralhar o "seu bom povo". Deu no que deu. O Kaiser retirou-se e o exército regressou a Berlim e em nome do novo "regime de liberdades", esmagou os vernmelhos e abriu o caminho a Hitler.

A Monarquia tailandesa é respeitabilíssima e encarana a independência do país. Esta situação já teria sido resolvida de outra forma em Havana, Pyong-Yang, Pequim ou Hanói. Com tanques que não se deteriam perante ninguém e fuzilaria como chuva. Em nome do "progresso e contra a reacção", claro. Será que os patetas brancos não conseguem vislumbrar o verdadeiro problema? Estarão ainda presos a um passado que não pode voltar, ou a coisa será ainda pior? Há ouro em perspectiva?
Degradante, no mínimo!

Combustões disse...

O regime não vai cair por nada deste mundo. Os vermelhos estão em queda, sente-se que só lhes falta ir de rastos ao trono e pedir perdão. Como sempre, o trono dará o indulto. Só espero que tenham aprendido a saber com quem se metem (Thaksin+China+outros)e quem, de facto, é o sua maior amiga: a monarquia.