30 abril 2010

Banguecoque é sempre Banguecoque


Sair em Banguecoque tornou-se uma aventura. Já não horários. O Metro fecha inopinadamente, hoje às 8 da noite, ontem às 11, anteontem esteve encerrado. Os supermercados abrem ou fecham segundo as instruções do governo. Os restaurantes idem. Já não entro numa livraria há duas semanas, como aos cinemas também já não vou. Se se vai a Silom, a certeza de encontrar manifestantes Amarelos é tão grande como a de assistir ao rebentamento de uma bomba. As pessoas mantiveram o optimismo. Estão armadas com a certeza da vitória final, entrincheiradas no seu amor pelo Rei e sonham com o regresso à normalidade.

Depois, há tropa, barreiras e auto-stop por todo o lado. As ruas estão mais seguras. O exército passou a fazer parte da vida da cidade. Nunca exército algum foi mais mimado que o da Tailândia. Os soldados vão engordando com o passar das horas. Bolos, gelados, sacos de fruta, sopas trazidas de casa; tudo oferecido pela população que até lhes dá sabonetes, lhes oferece flores e roupa interior lavada em troca de uns dedos de conversa e muitas fotografias.

O aspecto destes defensores da democracia e do trono mudou radicalmente. Uns arranjaram namoradas - a minha cabeleireira já tem um namorado camuflado - outros mudaram ligeiramente a farda, colocaram toalhas humedecidas na cabeça, outros cobriram-se de fitas tricolores da bandeira nacional ou apuseram autocolantes com um vibrante "Ráo Rák Nay Luang" (Nós Amamos o Rei) nas granadas de gás lacrimogénio que pendem dos suspensórios do equipamento de combate.

Os thais são criativos. A indumentária civil mudou. As cores neutras desapareceram. Só se vêem camisas que indiciam a fidelidade do portador. A capital está vigilante, mas os dias da amargura e da incerteza passaram. Só se aguarda o dia decisivo em se anunciar que a conspiração que visava destruir o modo de vida deste povo passou à história e que, de novo livres de ameaças e de bandos armados, os cidadãos da Cidade dos Anjos regressem à sua vida de sempre, alegres e pacíficos. Afinal, a crise foi benéfica. Os tailandeses reaprenderam a solidariedade, falam uns com os outros sem olharem a barreiras de classe. Voltaram a ser um só povo e um só coração.

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Mas agora, há que remeter os energúmenos para o local de Direito.