22 abril 2010

Apanhado no meio do fogo vermelho: uma noite de terror na baixa de Banguecoque


Pelas 19 horas apanhei o metro de superfície para ir ao ginásio para uma sessão de boxe. Ao abandonar a estação de Sala Deng (Silom) fui confrontado com um mar de gente que gritava palavras de ordem anti-vermelhas, vivas ao Rei e às forças armadas. Já não eram as centenas que diariamente ali vão para as imediações do campo vermelho gritar a sua raiva pela inaceitável situação em que os Camisas Vermelhas precipitaram a capital. Hoje eram milhares e não propriamente a "aristocracia" e as "classes possidentes": era o povo miúdo de Banguecoque, vendedoras, mulheres de bata saídas das cozinhas, caixeiras, taxistas, estudantes, idosos e até carregadores. O povo levantou-se em massa contra a prepotência dos grupos vermelhos e está pronta a fazer justiça pelas próprias mãos se o exército não debelar o terrorismo.

Não, não é uma guerra de classes: é uma guerra do povo contra um movimento armado, apoiado do estrangeiro e extremamente violento que não olha a meios para atingir os seus objectivos. O senhor de lenço amarelo cingindo a testa diz que conhece o inimigo há quarenta anos. Foi soldado do corpo expedicionário tailandês no Vietname e diz que os vermelhos são iguais ao Vietcongue e aos Khméres Vermelhos, pelo que está pronto para travar nas ruas de Banguecoque o mesmo combate que travou nas selvas do Vietname do Sul. Desabridamente e sem que lhe pedisse a filiação, disse-me que é membro do partido amarelo.

Uma mulher com ar de Amazona, capacete na cabeça e bandeira tailandesa diz-me que só sairá da rua quando o exército esmagar os vermelhos e que se este o não fizer, fá-lo-á com os milhares de amarelos que ali e noutros distritos da capital aguardam a ordem de ataque.

O medo eclipsou-se. Há uma euforia castrense que contagia. Gritos de guerra, cânticos patrióticos ecoam em uníssono num mar de bandeiras amarelas e tricolores que prenunciam uma luta sem quartel. Nunca pensei que por detrás de um povo tão manso e sorridente se escondesse tanta energia e vibração. As pessoas não arredam pé, querem avançar. Há pedradas de um lado e do outro. O mar humano, ao invés de retroceder, avança e está a quase trinta metros da paliçada vermelha.

De súbito, um grande estrondo. Uma granada cai sobre a multidão. Depois, uma segunda, uma terceira e uma quarta. Há gritos e berros de dor, fuga em tropel. Ouço disparos de uma arma de repetição, fazendo fogo algures de um dos prédios da avenida. Os mais temerários juntam-se ao exército para localizar e dar caça aos terroristas emboscados nos terraços. A polícia retira apressadamente e é substituída por forças de infantaria do regimento da rainha.


Um novo rebentamento de lança-granadas. Dois ou três disparos cuja origem não consigo localizar. A tropa assume posição de combate, procura protecção e aponta as armas para as varandas e telhados. Grossas colunas camufladas ocupam a avenida e avançam para o local dos rebentamentos. Devem estar a disparar de cima ou de longe, pois os lança-granadas fazem tiro curvo. Julgo que a origem dos disparos poderá ser o acampamento vermelho, dado os foguetes poderem bater alvos a 300 ou 400 metros.



As ambulâncias recorrem os feridos. Há sangue, sapatos abandonados, gente que jaz pelo chão e grita por socorro. Um homem carrega um rapaz que se esvai e vai pintalgando o caminho com sangue quase negro que lhe corre da garganta. As sirenes de socorro enchem a avenida mas os carros de som que emitem cânticos patrióticos continuam a dominar o ambiente. Umas duzentas pessoas permanecem no local, indiferentes ao perigo, e agitam as bandeiras amarelas. Vou ao hospital cristão de Silom e deparo com um verdadeiro espectáculo de dor. As ambulâncias chegam, descarregam gente crivada de estilhaços e voltam para a safra de feridos e estropiados que aguardam nas ruas que alguém as venha recolher.

Um socorrista do exército diz-me, quase indiferente, que há sessenta ou setenta feridos, pelo que o hospital não pode receber tal enchente, enviando-os para outros hospitais da capital. Faz parte de uma unidade de combate vinda do sul, onde se trava intensa luta contra terroristas islamistas, pelo que parece estar absolutamente habituado a coisas destas.


Neste instante, sai da sala de urgências um rapaz coberto de sangue. Empunha uma bandeira do Rei, vira-se para a multidão que aguarda notícias dos seus e grita a plenos pulmões: "viva o Rei", "morte aos vermelhos". As pessoas aplaudem e repetem Song Phra Charoen, Song Phra Charoen. Julguei que coisas destas só se viam nos filmes patrióticos. Mas não, estão-se a passar em Banguecoque, em frente dos meus olhos. Chego a casa e a televisão anuncia o balanço provisório: 75 feridos, um morto. Afinal, o povo tailandês está mesmo decidido a morrer pelo seu Rei.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Agora, o último recurso é porem alguns comedores de croquetes a visitar a "redalhagem", dando-lhes o apoio necessário para não serem varridos pela população da cidade. Que truque tão velho!

Pedro Leite Ribeiro disse...

Imagens da Euronews:
http://www.youtube.com/watch?v=DEFWSaXmnvc&feature=digest