05 abril 2010

Agitprop, bombas e China, Abhisit fica e fortalece

Salta à evidência que a tentativa vermelha de conquista violenta do poder falhou. Os últimos acontecimentos, quiçá os últimos relevantes de uma série ininterrupta de incidentes minuciosamente preparados e apoiados do exterior demonstraram, ao contrário do que muitos pensavam, que a democracia tailandesa entrou na idade adulta, que o regime é sólido e tem a servi-lo a cidadania consciente, o funcionalismo de Estado, as forças armadas e uma plêiade de governantes inacessíveis ao medo, responsáveis e seguros.


O ataque ao coração do país falhou. Hoje, o sentimento prevalecente é que Abhisit, por quem poucos davam há um ano o simples benefício da dúvida, emerge e se agiganta como o defensor da liberdade e da monarquia, dos valores e da cultura de tolerância, da paciência e do diálogo perante adversários que vão revelando pelos actos, pelos modos e palavras, quão longe se encontram da Tailândia urbana, educada, alinhada com o Ocidente e aberta ao mundo. O movimento vermelho exibe tremenda fragilidade e só observadores obnubilados e privados de qualquer razoabilidade poderão insistir em apresentar os sucessivos actos de violência arruaceira como produto de uma quimérica luta pela libertação ou de um conflito entre ricos e pobres.


Sondagem acabada de sair, anuncia que Abhisit garante 40% de apoio do eleitorado, o que corresponde a um aumento de 10% em relação às eleições gerais de 2007. A crise que continue, pois se assim continuar Abhisit poderá atingir a maioria e prescindir de alguns associados menores. Onde está a minoria reaccionária, imobilista, aristocrática e anti-democrática ? Gostaria de lembrar que o partido thaksinista Phuea Thai conseguiu 36% nas eleições gerais de 2007 e que o governo em funções possui confortável maioria parlamentar.


Para quem continua habitado pelo demónio do totalitarismo - e há muito democrata reciclado do comunismo que jamais se libertou do esquematismo comunista dos anos 60 e 70 - a análise do processo tailandês parece violar toda a previsibilidade. Continuam a ver a Tailândia como um país subdesenvolvido, incapaz de se defender das desordens e crises que acometem as sociedades em transição, mas não compreendem que na actual crise quem representa o passado são os vermelhos e quem protagoniza a via da estabilidade e do governo representativo é o governo.


Por mais arruaças, terrorismo económico, bombas e ameaças que os vermelhos semeiem, forçando uma saída violenta que serviria para angariar o universal clamor condenatório, Abhisit não responde. A violência perde sempre perante uma não-violência segura e o poder da rua fica onde está, na rua. Ao longo dos últimos quinze dias foi-me possível detectar uma mudança generalizada de atitude por parte dos principais agentes envolvidos na intriga regional.


Os EUA tomaram, finalmente, a decisão de apoiar o regime, pois como aqui dissemos, a luta pela Tailândia joga-se no xadrez da crescente rivalidade sino-americana pelo controlo do Sudeste-Asiático e os vermelhos, tudo o indica, contam com a ajuda de Pequim. Foi Pequim quem fechou os olhos à fuga de Thaksin para o exílio, convidando-o primeiro para participar nas cerimónias de abertura dos Jogos Olímpicos de 2009 e, depois, terá feito os necessários arranjos para que outros países o acolherem e emitissem passaportes que o imunizaram face a pedidos de extradição. Thaksin, graças aos chineses, conseguiu no Camboja um protector regional. Ontem, Hun Sen, primeiro-ministro do Camboja, veio à Tailândia negociar com Abhisit, pois as perdas económicas do país vizinho, muito dependente da Tailândia, atingem números astronómicos. Quanto às grandes centrais de informação e desinformação planetárias, as BBC's, CNN's e France Presse's tornaram-se bem mais contidas. Acabou o noticiário forjado, a repetição de inverdades e a invenção de uma revolução libertadora. Hoje, prevalece a cautela disfarçada de imparcialidade. Abhisit ganhou na frente externa.


No plano interno, à liderança vermelha parece não mais restar que a fuga para a frente, que terminará, estou quase certo, na proibição do partido thaksinista (Phue Thai) por crimes contra a constituição, o Estado e as leis. A acontecer, o movimento, já muito minado por desinteligências, entrará em colapso e perderá capacidade de coordenação. Aguardemos os desenvolvimentos para saber se, uma vez mais, temos ou não razão no dom da antecipação.

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Bom, o que me parece é que os "vermelhos milionários" pretendem exactamente a dissolução por decreto. Aí virá a conversa que tão bem conhecemos e em Portugal se chamou a "ditadura" de João Franco. Daí à violência completa, é apenas uma etapa.
Creio que o governo poderia deixar a coisa morrer por si e actuar como tem feito. Sem violência, minimizando os estragos, limpando as ruas e prosseguindo as reformas que entender necessárias. No que respeita à mão chinesa que já controla as alturas dos Himalaias - onde nascem grandes mananciais de água -, disso jamais duvidei. Começou a grande marcha em direcção aos mares do sul. Não se trata de uma conquista militar, mas da criação de regimes do tipo protectorado, com o quase total controlo da economia por parte da minoria chinesa. A Birmânia é deles e pelo que dizes, o Camboja continua na mesma. Quanto ao Laos, é uma patética sombra da China dos anos 50. Pobre gente.