09 março 2010

Se o tal "progresso" vencer, a Tailândia não mais me interessará

Uma Tailândia a macaquear Singapura ou Hong Kong, nas mãos de plutocratas prestando culto ao deus dinheiro, ao economês e ao Homem Novo do business first é uma Tailândia morta. O interesse e sedução deste país jamais colonizado pelo homem branco reside precisamente no facto de ser, teimosamente, contra as ideologias da unidimensionalidade e um dique à expansão do mundialismo que em duas ou três gerações transformou nobres e antigos povos em gentinha ávida, estupidificada e lobotomizada. Lembro com saudade o Portugal que conheci na década de 70 e desse Portugal de camponeses que terá sucumbido ao longo da década de 80, quando a tentação da Europa, do "bem-estar", do cartão de crédito, do carrinho a prestações e da caixa de alvenaria das "novas urbanizações" trouxe à ribalta tudo aquilo que hoje é motivo de repulsa para aqueles portugueses que de Portugal têm uma ideia - quiçá "reaccionária" e "passadista" - de um país portador de uma ficção dirigente, imperial, pluricontinental e de fraternidade universal.

Nós temos vindo a perder ao longo dos últimos duzentos anos. Perdemos o vector missionário, quando Pombal assestou um golpe de morte na Companhia de Jesus; perdemos na abolição das ordens religiosas, que eram um segundo agente de projecção de Portugal no mundo; perdemos com a criação da cidadania, ao retirarmos àqueles que portugueses se consideravam na Índia, na Birmânia, no Tonquim, na Insulíndia; perdemos quando trocámos a velha colonização portuguesa, agente de miscigenação, pelo colonialismo racista e pelos "actos coloniais"; perdemos ao não querermos discutir o portuguesismo de tantos que em nós confiavam, amavam esta pátria e a sua bandeira, entregando-os sem consulta à mais acabada expressão da barbárie moderna que deu pelo nome de comunismo; perdemos com a república, que destruiu o vínculo ao passado; perdemos com o Estado Novo, que fingiu permanência, mas criou todas as condições para a despolitização que abriu portas ao messianismo revolucionário anti-português de uma revolução que substituiu a pátria pela guerra civil, pela luta de classes e por um ódio cego à autoridade, à hierarquia, ao trabalho e à responsabilidade; perdemos ao destruir os grupos e instituições que eram elemento fundamental de arrimo da nossa sociedade, substituindo-os por esta turbamulta de homens práticos, incompetentes, medíocres e semi-analfabetos que vão lentamente apossando-se de tudo, ferindo de morte os mais elevados propóstos, ridicularizando-nos e emparedando-nos no caixão de 500x200 quilómetros no canto extremo ocidental da Europa. Isto é coisa que não tem cor política nem bandeira partidária, que não é PS nem PSD, CDS ou BE. É um nível superior, metapolítico, sem o qual a comunidade política, o sistema político e a Constituição não funcionam. É uma questão que toca a raíz da especificidade portuguesa.


Não sei a Tailândia se encontra ou não nos umbrais de uma grande convulsão. Aqui, as forças do passado são fortes e as grandes instituições continuam pujantes - a Monarquia, o Sangha (religião budista), o Estado, a sua burocracia e as Forças Armadas - mas há quem queira precipitar uma mudança que, a acontecer, terminaria com um banho de sangue seguido da demolição de tudo o que fez desta terra e deste povo um caso único de identidade, orgulho e resistência ao "progresso". Há agentes de descaracterização que, por trazerem dinheiro, criaram as maiores e acabadas mutilações na alma deste povo: o turismo de massas, que tudo invadiu, que estimulou a "indústria do sexo", que libertou braços do trabalho honesto e lançou-os na hotelaria, no criadismo, no go-go e na "indústria das massagens"; o industrialismo a marchas forçadas que aqui permitiu às multinacionais suecas, italianas, americanas e francesas sugar as "mais-valias" do campesinato atraído à grande cidade e logo proletarizado, explorado e usado como agente pelos demagogos e alvissareiros da abundância; a criação dessa chamada "classe-média", com muitos diplomas, muitas bolsas de estudo nos EUA, na Austrália e na Europa, mas que aqui regressou carregada com os vírus da trilogia negócios-direitos-ambições.


Está em cima da mesa a proposta de mudança do nome do país. O seu proponente, um dos mais prestigiados académicos tailandeses, sugere que a Tailândia volte de novo a ser chamada Sião. Nada de novo, pois Tailândia não é usada pelos thais senão nos negócios externos. Para os thais, Prathet Thai ou Muang Thai é o nome da sua comunidade política organizada em Estado. Contudo, a mudança da designação é um desafio à história contemporânea. Foi cunhada em 1939 pelo ditador fascista Phibun Songkhram e alimentava-a a ideia da homogenização dos povos que integravam o Sião (Mon, Karen, Thais, Khméres, Malaios, Chineses, Peguanos, Luso-descendentes, Indianos, etc), citando de cor a introdução das proclamações reais até 1885, ano em que o Estado Moderno entrou em vigor em pleno absolutismo de Rama V (r. 1868-1910). O fascismo "tailandês" proibiu as línguas, os jornais, as escolas, os instrumentos musicais, reportório teatral, os nomes próprios e de clã, quase extinguiu a literatura oral, as crenças e práticas culturais das minorias, integrando-as à força numa sociedade artificial decantada a partir de uma idealização da "antiguidade thai", guerreira, expansionista, sevidora do Estado e budista. Se o Sião voltar à ribalta, a harmonização, o convívio entre povos diversos mas unidos em comunidade de destino será, eventualmente, a resposta às tensões que se sentem. Contudo, esse novo pacto de unidade só será possível com monarquia. Há quem a queira minimizar, reduzindo-a a mero papelão colorido. Há quem a gostasse de ver substituída por uma república dominada pela praça-financeira, pelo jetset, pela patetice alvar das passerelles, da ostentação do novo-riquismo desmiolado, do exibicionismo do chinesismo do cordão de ouro ao pescoço, do jaguar flamejante e do "novo fino" sem referências. Se essa Tailândia vencesse, seria eu o primeiro a rasgar tudo o que me prende a este país que aprendi a a amar. Espero, apenas, que os thais (os Mon, os Peguanos, os Chineses, os Malaios, os Khméres, os Indianos e os Karen), chegado o momento em que se colocar o sim e o não, optem pelo Sião de sempre.




เพลงสดุดีมหาราชา

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Que voltem ao nome Sião, já!

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Se os tailandeses forem iludidos pelas promessas liberais, abrirão as portas para o totalitarismo.
Marx estava certo em relação ao facto do liberalismo livre-cambista ser revolucionário, cabendo a ele a destruição das economias nacionais, das culturas tradicionais e da velha ordem em geral, preparando assim o terreno ao comunismo, coisa que poucos na direita entenderam.
Veja agora ao que chegamos em Portugal:

http://diario.iol.pt/sociedade/chip-electronico-chip-gratuito-automoveis-governo-carros/1040365-4071.html

É o internacional-socialismo no seu melhor.