14 março 2010

A "revolução" de 0,03%, 500 Bath por cabeça

Andou-se a espalhar aos quatro ventos que Banguecoque seria hoje o altar revolucionário do mundo, que uma massa de milhões iria afluir à capital, desalojar o "poder feudal" (leia-se, a Monarquia), despejar a "camarilha aristocrática" (leia-se, a elite dirigente) e dar ordem de demissão ao governo "ilegítimo" (leia-se, o governo com maioria parlamentar). Tudo não passou de um flop criado pelos ansiosos das manhãs ridentes das jornadas históricas, nomeadamente os círculos da intriga diplomática e dos media ocidentais, sempre excitados com revoluções exóticas nos trópicos, mas bem conservadores do stato quo nessas brilhantes democracias europeias de sucesso que são a Itália de Berlusconi, a Grécia de Papandreou ou a Espanha de Sapateiro.

Andei por Banguecoque, cruzei-me com umas centenas de patuscos trazidos da província em autocarros e carripanas de caixa aberta, alimentados, bebidos, engalanados de vermelho e pagos pelos "líderes da revolução". Afinal, o tal milhão não terá chegado a 60.000 ou 70.000 pessoas, ou seja, 0,03% do total da população deste reino. Extrapolando, isso daria em Portugal umas 12.000 pessoas, coisa que o PC reune em meia dúzia de horas. As pessoas que vi, humildes e simpáticas como são os camponeses desta terra, não fariam mal a uma mosca. A plutocracia tem usado e abusado da crendice desta gente boníssima e sacrificada, pelo que não será de estranhar se a boa liderança vermelha - porque a há - tenha aprendido a lição. O meu sincero desejo é o de ver essa parte inteligente e bem intencionada do "partido vermelho" convertida num partido que defenda a classe trabalhadora, que lute por legislação justa e se separe das fantasias carnavalescas de um homem riquíssimo que quer a todo custo ser o ditador de uma Tailândia desmembrada. Os inimigos dos trabalhadores tailandeses não são nem a "aristocracia" nem o "exército", tão detestado porque impõe respeito, mas o dinheiro novo das senhoritas e senhoritos que querem o ppoder total, arrasar os modos e a cultura política deste povo, converter a Monarquia num pechisbeque antes de lhe assestar o golpe republicano, mas também os farangues das negociatas aos quais interessaria ver a Tailândia transformada numas Filipinas de impunidade neo-colonial. Sobre a multidão, a figura tutelar a patriarcal do Rei mostrava, afinal, que a maior amiga das causas justas foi, é e será a Monarquia.

Ao líder proscrito (Thaksin) talvez só reste, perante tão clamoroso fracasso, recorrer à violência para compensar o ridículo que se abateu hoje sobre a sua causa. As próximas horas mostrarão se tenho ou não razão. Os elementos perigosos da cacicagem thaksinista refrearam os seus instintos, as forças de segurança e o governo portaram-se de forma irrepreensível e ganhou, decididamente, o bom senso. Thaksin vai morrendo a conta-gotas. Os tailandeses viraram-lhe as costas. Hoje, a vaga vermelha teve laivos de carmelinda-pereirismo !

4 comentários:

floribundus disse...

"porreiro, pá!"

"nóis pur cá" todos mal.

É urgente desrratizar o rectângulo

Nuno Castelo-Branco disse...

Seria bom tentar-se entender o porquê da ânsia em certos círculos "bem informados" ocidentais. Estarão à espera ou terão perdido negócios com a fuga de Thaksin? Por cá temos o mesmo e alguns até vivem em palácios à beira Tejo!

Combustões disse...

É, decerto, apetite para negociatas e ver a Tailândia transformada num lupanar e os thais todos de avental branco e uma bandeja na mão. A "criadização" vem acompanhada de blandícias de "aconselhamento", "cooperação" e essa isuportável tendência dos ocidentais em dar lições aos outros. NO fundo, coitados, os thais são como crianças e conseguiram a proeza de jamais terem sido colonizados.

txticulos disse...

http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1519161&seccao=%C1sia

Segundo o DN, foi uma enorme manifestação. Faz-me recordar quando vivi no Egipto, na altura das manifestações contra as caricaturas, cerca 2000 pessoas - no Cairo com 16 milhões - enchiam o ecrã, eram logo apelidadas, por cá, como grandes manifestações. Vistas da minha janela, nem a Praça da Figueira encheria.