06 março 2010

Patriotismo pode matar


Não calculam os leitores as centenas de horas, as noites em branco, os milhares de mail's, telefonemas e o caudal de papel necessários para conceber, programar e preparar eventos culturais portugueses e por Portugal neste extremo do mundo. Estou na Tailândia para investigar e redigir tese de doutoramento sobre as relações entre Portugal e o Sião e recebi da Fundação Calouste Gulbenkian - esse eterno segundo Ministério da Cultura - oportunidade única para o fazer. Aqui aprendi esta língua, aqui li, fichei e anotei milhares e milhares de páginas de livros e documentos de arquivo, aqui tenho residido nos últimos vinte e oito meses e não vou a Lisboa desde Julho de 2008. Há quem diga que a vida de bolseiro é fácil, despreocupada e ociosa. Pois, nunca trabalhei tanto na minha vida como agora, com o tinir do despertador às 7 da manhã, dez horas sentado a ler em bibliotecas e arquivos e, depois, mais duas ou três horas de trabalho caseiro. Tenho-o feito com plena dedicação e militantismo patriótico e abdiquei de metade do meu vencimento para aqui fazer aquilo que em Lisboa era de todo impossível realizar. Nestes longos meses, nunca ninguém me viu em hotéis ou praias, spa's e digressões a locais que não tivessem a ver com o objectivo que me propus alcançar. Tenho vivido na Tailândia como um tailandês: com moderação quase espartana, horários rigorosos e sempre reportando aos meus superiores e àqueles que em mim investiram.


Na passada quinta-feira, como aqui noticiei, estive na Embaixada de Portugal por ocasião da visita de trabalho a Banguecoque do Professor António Vasconcelos de Saldanha. O Professor Saldanha vinha de uma maratona de trabalho em Macau, vinha cansado mas sempre alentado. Não veio para brincar. Chegou à meia noite de quarta-feira, levantou-se às 8 da manhã e das 10 da manhã de quinta às 3 da manhã de sexta-feira participou em sessões contínuas de trabalho. Na sexta-feira, levantou-se com os pássaros e foi mais uma jornada ininterrupta de reuniões e encontros com autoridades tailandesas e empresários interessados no nosso programa para 2011. Hoje, sábado, pelas 4 da manhã levantou voo e chegará a Lisboa no domingo para, segunda e terça-feira se submeter a mais umas quantas reuniões sobre as celebrações do próximo ano. Tudo isto tem sido feito sem um Euro do erário público, perante a impassividade, o silêncio, a permanente cascata de palavras sem efeito e as habituais delongas e evasivas inerentes à maquinaria burocrática.


Os tempos são difíceis. Sei que nas Necessidades embaixadores há que trabalham em mesinhas em vãos-de-escada, sem secretariado e sem os mais elementares meios para executar o que quer que seja para cumprir a palavra dada por Portugal no que às celebrações de 2011 concerne. Há quem insulte despudoradamente o funcionalismo público, há quem o tenha querido humilhar e rebaixar, mas a verdade é que o país só continua a funcionar porque há homens e mulheres que dedicam ao serviço do Estado a totalidade do seu tempo, que prescidem de almoçar e jantar, de sair ou de ver uns minutos de televisão para se consagrarem às suas tarefas. Este é o verdadeiro patriotismo, não aquele que se profere à mesa do café da Mexicana ou do Luanda nas tertúlias de maledicência.


Aqui em Banguecoque, o embaixador está só, quase sem funcionários, fazendo praticamente tudo aquilo que cabe a secretários, escriturários, números três e dois de um serviço consular. Só lhe falta conduzir o carro, passar para o lugar de trás e novamente passar para o lugar do condutor para abrir a porta de trás. Na quinta-feira abandonei a embaixada às duas da manhã e o Embaixador despediu-se, informando-nos que ia para a chancelaria trabalhar. Ali esteve até às 10 da manhã de sexta-feira. O patriotismo, o sentido do dever e a entrega também matam. E há quem diga que a vida do funcionário público é uma brincadeira.A pátria não se abandona, não se deixa cair por terra, não se vende nem se esquece a um canto como um farrapo velho. Perdõe-se-me o patriotismo, mas é a única coisa por que vale a pena aceitar o maior sacrifício.


Lied an den Abendstern

6 comentários:

adsensum disse...

Este texto - lido de uma assentada, em crescendo de ânsia, na aceleração da curiosidade sobre o conteúdo da frase imediatamente seguinte - deixou-me sem palavras!

Nuno Castelo-Branco disse...

É por isso mesmo que Portugal ainda tem algumas hipóteses. Aqueles que hoje olham para o mapa político e pensam não existir alternativa, estão redondamente enganados. Isso é o que os bem instalados querem fazer crer. se desaparecessem, dentro de um mês ninguém deles se lembraria.

Manuel Brás disse...

Longe da maledicência e da petulância...

Há muitas vidas esforçadas
de trabalho e abnegação,
por ambições esperançadas
em amanhãs de erudição.

O patriotismo salutar
merece ser enaltecido
para um futuro bem-estar
que deve andar esquecido…

Um texto, como é hábito, marcadamente intelectivo e assertivo. Numa palavra: sublime!

NanBanJin disse...

Caro Miguel:

Não lhe perdoamos coisa nenhuma!
O espírito de entrega que o Miguel, e outros que invoca, dedicam abnegadamente aos seus deveres e à defesa do Nome de Portugal, saudamo-lo, isso sim, de coração aberto.

Um Sentido Abraço do Japão,
NBJ

mag disse...

Pois!
O problema é que os bons e os melhores não estão cá.

Idealizar é próprio do ser humano, mas o desencantamento actual é total.

Marcia disse...

PARABÉNS, se observarmos com atenção, conseguimos separar
o joio do trigo...
(lembrando Fernando Namora)