18 março 2010

Os rostos da ameaça totalitária que pesa sobre a Tailândia

No pronto-a-vestir do opiniarismo que se vai produzindo sobre a situação na Tailândia, a luta em curso trava-se entre a "elite aristocrática, burocrática e reaccionária" (v. contestação aqui) e a Frente Unida pela Democracia Contra a Ditadura, vulgo Camisas Vermelhas, tomada como movimento democrático e emancipador das "classes laboriosas". Ora, tal movimento, que clama pela democracia, é produto da convergência de grupos e personalidades com longo historial anti-democrático ou colaboradores muito próximos da governação de Thaksin, que cometeu, para além de uma selvagem política de roubo organizado, o mais completo catálogo de tremendos crimes de sangue e violações dos direitos humanos. Durante os governos de Thaksin, foram mortos sem julgamento cerca de 4000 supostos toxidependentes, retirados das suas casas e abatidos em plena via pública. Durante os governos de Thaksin, com conhecimento do ex-PM, foi desencadeada uma verdadeira política de extermínio contra os muçulmanos no sul do país, a qual terá causado milhares de mortos. Durante os governos de Thaksin, pela primeira vez na história deste país desde a ditadura fascista de Phibun Songkram, o governo iniciou "campanhas de moralização", pretendendo extirpar bacilos de "imoralidade" numa sociedade proverbialmente tolerante e acolhedora. Este conjunto de práticas e atitudes, que contrariam o ethos tailandês, indiciavam uma escalada ditatorial que, a não ser travada pelo golpe militar de 2006, teria levado inexoravelmente a Tailândia para um regime de feições análogas aos que vigoram na Birmânia, no Laos ou no Vietname. Thaksin, que é chinês, mantém laços de grande intimidade com as autoridades de Pequim e alimenta uma concepção de poder solitário muito próximo da tradição política chinesa do Herói Histórico, um líder sem contestação, omnipotente e providencial.

Olhando para a galeria dos destacados mentores e animadores do movimento vermelho, sobressai Jatuporn Promphan, que foi secretário de Estado de Thaksin e esteve envolvido na brutal repressão dos camponeses da região de Nakhon Si Thammarat, que clamavam pela posse das terras e queriam impedir a destruição ambiental ante o projecto de Jatuporn de aplicação da devastadora receita javanesa da monocultura de palmeiras produtoras de óleo de palma. Jatuporn, muito ligado à especulação fundiária, terá acumulado grande fortuna com tais operações. É, tipicamente, um apparatchik e homem de mão dos grupos plutocráticos e escapou à prisão em 2009, no decurso da tentativa de tomada violenta do poder por invocação da imunidade parlamentar que detém. É um excelente orador, mas não se consegue adaptar à vida parlamentar, pois não consegue discutir e aceitar contestação. Hoje, é tido como um "moderado" no seio do movimento extremista.


Veera Musikapong, que em 1980 foi inculpado pelo crime de lesa-majestade, é um claro militante anti-monárquico. Liderou em 2009 o ataque às instalações onde decorria a cimeira da ASEAN e foi, então, destacado acicatador dos distúrbios que levaram à invasão e vandalização desse recinto. Hoje, mantém-se na liderança dos Camisa Vermelhas e é, juntamente com Jatuporn, um elemento tido por "moderado". É homem assomadiço e tem os adamanes característicos dos caciques rurais de Thaksin: panama branco, óculos escuros e faixa de pano multicolor à cintura.


Depois, há a ala radical, defensora da luta de classes, do derrube violento da Monarquia e do sistema parlamentar, da recusa de qualquer negociação e compromisso. Este sector, com grande apoio entre as bases vermelhas é a face menos hipócrita e a que reproduz com maior clareza os objectivos do movimento, pois que os "políticos" (supra) tentam fazer crer que a Frente Unida não mais pretende que ampliar e renovar a democracia tailandesa. A figura de destaque deste sector ultra é, sem dúvida, Khattiya Sawasdipol, major-general com larga experiência em acções de espionagem e sabotagem no decurso da guerra do Vietname, tendo recebido formação da CIA e hoje o animador das milícias armadas que Thaksin possui prontas para intervir. Homem perigoso, implicado em múltiplos actos de terrorismo urbano no decurso do levantamento Amarelo no passado ano: ataques à granada, bombas e disparos contra os inimigos de Thaksin. Hoje, apareceu nas pantalhas trajando camuflado e apoiado no cajado à Pol Pot, pelo que foi muito aplaudido pelos vermelhos concentrados em frente da Sala do Trono. É um homem exaltado, dominado por fúrias, sorriso fixo e falar desbragado.

Finalmente, Surachai Danwattananusorn, ex-guerrilheiro perdoado pelo Rei, acusado pelo crime de lesa-majestade em 2009. Inseparável do pijama maoísta e da boina estrelada, é o clássico comunista do período aúreo das guerras do Sudeste-Asiático nos anos 60 e 70. Ali não há dissimulação, requebros ideológicos, fraseologia importada dos manuais do politicamente correcto que agrada aos compagnos de route ocidentais que querem a todo o transe fazer passar a ideia que Thaksin é um democrata perseguido por um regime opressor. Repelido pelos "políticos", é, sem dúvida, uma fortaleza de coerência e pugna pela instação do Terror Vermelho.

Depois, há sempre uns idiotas ocidentais, em férias ou residindo na Tailândia no hotel de cinco estrelas ou nas mansões de Sathorn, que se deliciam nos locais de diversão nocturna e pelas praias paradisíacas e se atrevem pensar que a Tailândia no dia seguinte à tomada do poder pelos vermelhos os manteria por cá. Esta "revolução" plutocrática, com tiques comunistas, traria a ditadura, a completa destruição dos vínculos ao Ocidente, campanhas sistemáticas de "descontaminação" e o fim das liberdades a que os estrangeiros se dão. O "sanuk" (diversão) acabaria e, com Thaksin no poder, apoiado pela China, até as empresas ocidentais teriam de pagar o imposto revolucionário, tivessem ou não feito intriga, espalhado boatos, denegrido a imagem da Monarquia.

6 comentários:

PEDRO QUARTIN GRAÇA disse...

Excelente texto meu caro. Parabéns!
Deixo-lhe um link:
http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/3537058.html#comentarios

Nuno Castelo-Branco disse...

Só o facto dessa lista que apresentaste poder andar à vontade na rua, diz tudo. Se houvesse "ditadura", já estavam a bater com os ossos no xadrês. Não malária que se lhes pegue?

contra-baixo disse...

Miguel,

Sou seu leitor e admiro a sua qualidade de escrita, honestidade e rigor intelectual. Quanto ao tema sobre o qual escreve, e do qual me sinto distante, diria que o faz com veemência idêntica à de comunistas a defender o regime cubano.

Saudações,

José Domingos disse...

Lido com gosto. A politica, orientada para meia dúzia de zés ninguém, com a ilusão do poder, acaba com tudo, as pessoas sofrem, e a Mãe Terra, sofre ainda mais.É tudo tão simples, se houver equilibrio

Nuno Castelo-Branco disse...

Ao Contra-Baixo

Como se a Tailândia pudesse ser comparada ao tipo de regime que vigora em Cuba?! Ainda ontem uma pacífica manifestação de mães de presos políticos foi atacada pelas milícias dos irmãos Castro. Coitados dos cubanos, bem gostariam eles de viver num tipo de regime como aquele que vigora na Tailândia. Os thais podem votar onde bem lhes apetece, andam à solta na rua, têm uma imprensa que é independente do poder, não existem presos políticos nem polícia secreta de defesa do regime. grande diferença. Quanto ao nível de vida, nem valerá a pena falarmos.

Kubrik64 disse...

ao Nuno Castelo Branco (resposta ao comentário do contra-baixo).

Penso que o Nuno não compreendeu bem o comentário, eu também sou um leitor e admiro a qualidade de escrita, honestidade e rigor intelectual do Miguel, só que, os temas relacionados com a Tailândia contemporânea, estou ao corrente, e compreendo que o Nuno devido aos laços familiares com o Miguel, interprete um comentário ou uma critica desfavorável ao artigo, tomando defesa do autor, conheço, tenho interesses na Tailândia, e pra lá irei viver, voltando ao motivo do meu comentário, todas as pessoas cultas e de bom senso, sabem que a Tailândia não se pode comparar com regimes totalitários, e alguns democratas, aonde reina a criminalidade a grande escala, e não li no comentário do contra-baixo qualquer comparação da Tailândia com Cuba, só compara, a veemência do Miguel, na defesa de uma causa, (a bom entendedor), por isso não percebi o seu comentário, e se pensa que eu sou vermelho, devo gostar menos deles que o Nuno, cordialement,

Isidro Parreira