02 março 2010

O poder popular

Não, o filme não é anti-cristão, foi tudo o que consegui dizer a um amigo anglicano que comigo assistiu às duas horas do Ágora, só agora acessível em Banguecoque. A queda do Mundo Antigo às mãos da canalha iletrada e violenta atiçada por fundamentalistas tomados pelo "fogo divino" é uma brilhante metáfora ao poder caído na rua, ao triunfo da irracionalidade e da vitória sem apelo da massa selvagem contra tudo o que desconhece: a sede de conhecimento, a cultura como segunda natureza humana e a liberdade de buscar e interrogar.
A matemática e filósofa neo-platónica Hipátia foi vítima de uma revolução que convulsionou e destruíu violentamente os fundamentos da civilização greco-latina. Estranho, pois tudo aquilo fez-me lembrar Bin Laden´: o mais grosseiro semitismo desses "antropófagos do deserto" (Voltaire) que foi característica marcante das seitas milenaristas e terroristas judaicas, dos nazarenos exaltados que queimaram, vandalizaram e destruiram os grandes santuários e bibliotecas, passaram pela espada ou lapidaram vestais e sacerdotes, mas também o islão da "guerra santa" e do "destruam todos os livros, pois todo o conhecimento que interessa está todo contido neste livro do Corão" (Omar).
A religião é coisa perigosa, sem dúvida, porque a alegria que distribuiu àqueles que da felicidade, do amor, da paciência e da heroicidade nada sabem, só encontra expressão na interdição, no castigo, na crueldade e na alienação de quem levanta o braço homicida impelido pelo deus iracundo vetero-testamentário. Conheci muitos católicos que, se o não fossem, inibidos pelo medo e pela punição, seriam notórios facínoras e delinquentes comuns. No fundo, o sagrado, em todas as suas expressões e cambiantes, é coisa acessível a muito poucos. A generalidade das pessoas, não possuindo vida interior, esgota-se psicosocialmente. Sente-se forte na multidão, vinga-se da pequenez e da insignificância escondendo-se atrás de Deus, matando em nome de Deus, odiando em nome de Deus e até falando pela boca de Deus.
Compreendo agora por que razão livros do Antigo Testamento foram proibidos durante a Idade Média. A Igreja - hierarquia, funcionalismo, elite - acabou por domar a fera do "povo chão", obrigá-lo a respeitar Aristóteles e Platão, respeitar a arte de Roma, as instituições de Roma, os códigos e até a polícia. Foi a Igreja, por fim, quem preservou in extremis a civilização.
No mundo protestante, a tal "reforma" foi um retrocesso às fontes cavernícolas do paleo-cristianismo. Nunca tantas mulheres foram queimadas por bruxaria, nunca tanto livro reduzido a cinzas e nunca tantos homens açoitados e mortos como durante os séculos XVI e XVII nessa Holanda da liberdade ou na Genebra de Calvino. Hoje, nos EUA do puritanismo, o "partido cristão" é uma tremenda força. Dizem-me pessoas que vivem essa realidade que nos EUA se está permanentemente sujeito à turbamulta que de Bíblia na mão invade universidades, pede o encerramento dos laboratórios, impede a distribuição de filmes e livros "sacrílegos". Como podemos condenar o Islão radical se, entre nós, gente há que pede o mesmo receituário ?
O poder popular é coisa que deve meter medo ao mais temerário. Quando o "bom povo" extravasa e dá largas à alegria da destruição, não há nada que o possa conter. Foi isso que vi no Ágora.


7 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Bem te avisei. O filme é magnífico, em todos os sentidos. Perfeito.

Xico disse...

Excelente artigo e excelente análise.

António Bettencourt disse...

Bravo!

Cláudia [ACV] disse...

Não vi o filme, mas depois de ler esta reflexão procurá-lo-ei em DVD.

Tendo em conta o que aqui é lembrado, apresenta-se-me como um paradoxo o facto de a experiência religiosa (bem como a reacção a ela) ter este tratamento em instituições académicas (o caso de Harvard não é único) tidas por referência na construção do conhecimento contemporâneo: http://www.newsweek.com/id/233413

Trabalhos disse...

Só uma perguntinha: e a Inquisição não queimou livros e pessoas tal como os protestantes? Ai que memória tão selectiva.

Nuno Castelo-Branco disse...

Ao Trabalhos:

Queimou, mas os protestantes tentam sempre passar a mensagem contrária, apontando o dedo aos "atrasados do sul". Foi isso que o Miguel quis dizer. Aliás, em termos de ética, eles têm muito que se lhes diga e para isso, bastará verificar a acção comercial que há mais de 40 anos desenvolvem em África. Desde os transportes, madeiras e leite de Chernobyl (em pó), vendido pelos dinamarqueses no Quénia, Uganda e Tanzânia, etc, etc.

mag disse...

Brilhante! Parabéns pelo excelente texto e pela clareza e visão desassombrada que demonstrou.

Este filme correu (e corre) o risco poder ficar rotulado como um manifesto anti–Cristianismo. Na minha opinião considero-o sim, um manifesto contra o extremismo.