29 março 2010

Na biblioteca de um fascista que se converteu à monarquia


Vive entre os EUA - onde foi professor catedrático de oncologia pediátrica - e Banguecoque, onde possui um pequeno apartamento uns andares abaixo do meu. É um senhor com cerca de oitenta anos, toque aristocrático e aspecto jovial. Todas as manhãs faz uma hora de pesos no ginásio e dá umas quantas braçadas na piscina. Depois, reclina-se na cadeira de lona, lê os jornais e abre um livro. Há tempos, apresentei-me e ali estivemos uma manhã inteira falando de história da Tailândia. Nessa tarde, o porteiro veio dar-me um envelope contendo um livro intitulado Rattanakosin de Outrora, ou seja, Banguecoque de outros tempos. A assinatura autográfica era a do meu vizinho: Vibul Vichit-Vadakan. O apelido despertou-me atenção. Vichit-Vadakan ? O teórico do nacionalismo radical thai, que foi o maior panfletário da sua geração, director do Instituto de Belas Artes, ministro dos negócios estrangeiros da Tailândia durante a guerra (1942-1944), autor de novelas, peças de teatro, ensaios políticos e filosóficos ? Retribuí a amável aferta com o catálogo de uma exposição realizada na Biblioteca Nacional de Portugal em 2005, intitulada Os Portugueses e o Oriente (1840-1940), da qual eu fora comissário. Dias depois, ao encontrá-lo de novo, confirmei o parentesco de Luang Vichit-Vadakan e falámos nesse período em que o Sião abandonou o absolutismo régio, redigiu a primeira constituição e outorgou a soberania ao povo.


Foi uma revolução que começou sob os melhores auspícios e terminou numa brutal ditadura que mudou para sempre o destino e feição desta sociedade, trouxe os militares e a burocracia para o poder e ensaiou, no quadro tailandês, a via siamesa para o totalitarismo. O pai Vadakan estudara em Paris, onde se apaixonou por uma francesa - com quem viria a casar - mas também pela cultura política europeia de então, marcada pelo nacionalismo extremista e pela tentação de um mundo novo que o comunismo anunciava. Vadakan fez amizade em Paris um outro estudante siamês chamado Plaek Khittasangkha, que o mundo viria a conhecer como Phibun Songkram, o homem que chegou a ditador fascista da Tailândia e, depois, reciclado pelo Ocidente nos anos da Guerra Fria, voltaria ao poder com o beneplácito de Washington.

Secretária de trabalho de Vichit-Vadakan
Chegados ao poder através de um golpe militar, os jovens revolucionários de 1932 impuseram ao Rei Prajadiphok (Rama VII) uma constituição - jamais referendada - e conseguiram durante quatro anos manter a aparência de uma frente política incluindo os elementos mais reformistas e "avançados" do Sião urbano. Contudo, esse grupo heteróclito que se deixara seduzir pelo Ocidente, incluia monárquicos liberais, socialistas, comunistas e fascistas. As tensões iniciais foram resolvidas, pois os laços pessoais de amizade que os uniam pareciam poder conter as divergências profundas que os separavam. No fim, Phibun sobrepôs-se e assumiu a figura de ditador, declarando o banimento das oposições, a constituição de um partido único e produção legislativa muito próxima daquela que então se ia ensaiando na Alemanha nacional-socialista. Exaltava-se o militarismo, o expansionismo territorial, a cultura thai sobre o "elemento externo" (muçulmanos, católicos e minorias étnicas) e pela primeira vez em 700 anos de história, os thais viram desaparecer de cena a figura do Rei. Prajadiphok, homem gentil e adepto de uma solução à inglesa, não quis mais aceitar o crescendo totalitário e, pretextando uma viagem à Europa por motivos de saúde, ali contestou os atropelos e ameaças de que fora objecto enquanto monarca constitucional. Phibun mandou que todos os retratos do Rei fossem retirados e destruídos, baniu a família real, lançou milhares de monárquicos nas prisões e campos de concentração e emitiu decretos contra qualquer pessoa que ousasse defender publicamente a pessoa do monarca exilado. Para salvar a instituição, Rama VII abdicou e a chefia da Casa Real passou para um seu sobrinho, uma criança de nove anos chamada Ananda Mahidol, que vivia na Suíça. Ouro sobre azul para Phibun. Foi nomeada uma regência e o país assim ficaria ao longo dos 15 anos seguintes entregue à ficção de uma monarquia com um Rei ausente.

Propaganda de Vadakan: tirar das paredes tudo o que lembrasse o Ocidente

Onde antes havia a figura paternal do Rei, passou a dominar a de um Phibun "Pai da Pátria", homem da providência, "Consciência da Nação", "Primeiro Cidadão". Coube a Vadakan o papel de promotor do novo regime. Homem de letras, bom organizador e conhecedor das técnicas de condicionamento massivo, foi pró-ministro da propaganda. Através da rádio e dos jornais, nas salas de cinema, nas escolas e nas empresas passou a vigorar o culto do novo herói thai. Os thais foram mobilizados para descobrirem e denunciarem os inimigos "internos", os "parasitas do povo" (aristocratas), os "judeus do Oriente" (chineses), os "cúmplices do colonialismo" (católicos) e os "elementos anti-nacionais" (contestatários). De 1938 a 1942, foram emitidos 12 Mandatos Culturais que cobriam legislação sobre o trajar, o decoro, a atenção devida aos idosos e aos doentes, os horários do sono e de vigília, o uso obrigatório de uniforme, o que se devia comer e o que não se devia, a natalidade e a fertilidade, expressões de cortesia, a nova caligrafia, o uso obrigatório de cinzeiros, o teatro legal, a música que se devia ouvir, a obrigatoriedade da exposição em cada casa de uma fotografia do líder. Assim prosseguiu o regime no seu Chartniyom - nacionalismo - até ao início da guerra. Aliada do Japão, a Tailândia fez guerra à França na Indochina e, depois, abriu as portas aos exércitos nipónicos quando o Japão invadiu a Malaya e a Birmânia britânicas em 1942. Vadakan fora o artífice da aliança com o Japão e como Ministro dos Estrangeiros tudo fez para que a Tailândia se sentasse à mesa da vitória ao lado da Itália e da Alemanha e pudesse reclamar a inclusão do Laos, do Camboja e da Malaya numa Grande Tailândia. Quando a sorte da guerra se virou contra o Eixo, Phibun foi afastado e a Tailândia a custo tentou sobreviver ao castigo ocidental.


Ordem alemã conferida a Vadakan
Entretanto, Vadakan tornara-se mais cauteloso e passou a ser tido como elemento moderado no seio do governo fascista thai. Sempre fora monárquico e descobria, finalmente, a potência e importância da monarquia enquanto agente de compromissos. No pós-guerra, com Phibun de regresso ao poder, foi ardente defensor do regresso do Rei ao país. Quando em finais dos anos 50, o actual Rei Rama IX iniciou um largo movimento popular contra a tirania de Phibun, Vadakan apoiou o monarca. Phibun foi deposto, Vadakan transformou-se num dos mais destacados defensores da solução monárquica e um dos teóricos do regime que desde então vigora.
Hoje, na Biblioteca Nacional da Tailândia, passei uma hora percorrendo o gabinete do homem que sonhou com um grande império thai.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Andas cheio de sorte, encontrares um homem desses! Ainda vivo e com tanto para contar. Devia ser muito novo durante a guerra.

PEDRO QUARTIN GRAÇA disse...

Fantástico Miguel. Uma história de se lhe tirar o chapéu!