07 março 2010

Esses alemães que amam Portugal


Morreu o Maestro Gunther Arglebe e o Porto, que tanto lhe devia, disso não deu conta ou fingiu amnésia. Tenho para mim que as relações entre Portugal e a Alemanha terão sido, ao longo dos séculos, as mais sinceras e menos calculadas; logo, que entre alemães e portugueses, que jamais colidiram nos interesses, há uma relação de afecto, respeito mútuo e consideração. Lembro que os alemães que em Portugal viveram desde o século XV foram sempre agentes de elevação e aprimoramento. Há muitos anos, tendo o Professor Artur Anselmo como professor num curso sobre a história da edição em Portugal, fui confrontado com a evidência da prioridade alemã na instalação da arte negra ou da imprimição em Portugal, com esses míticos Johann Gherlinc - talvez o impressor do incunábulo Tratado de Confisson - mas também Valentim Fernandes (ou antes, Valentin Ferdinand), escudeiro de D. João II e expoente da prototipografia portuguesa, mais Hermann von Kempen, coroas de glória da edição em Portugal. Valentim Fernandes foi português por adopção, tabelião dos mercadores de Lisboa e dono da Formiguinha que acompanhou as primeiras jornadas ao Oriente, tradutor das viagens de Marco Polo, responsável pelas Ordenações.

Depois, o que teria sido o Portugal militar dos séculos XVII e XVIII sem o conde-duque de Schomberg e sem Friedrich Wilhelm Ernst zu Schaumburg-Lippe ? O que teria sido do património monumental português sem esse príncipe e protector das artes e das letras que foi o Rei D. Fernando de Saxe Coburgo-Gota, edificador da Pena, salvador da Batalha, entusiasta e divulgador da ópera, comissário das participações portuguesas nas primeiras grandes feiras mundiais ?

Os alemães que em Portugal viveram lutaram sempre contra o preconceito xenófobo, tiveram de provar superioridade e exibir público amor por nós para, finalmente, serem aceites como iguais. Não há campo onde não se tenham evidenciado. A arquelogia portuguesa, que era coisa pouco menor que campanhas de destruição (com excepção honrosa para Estácio da Veiga), ganhou respeitabilidade científica com o casal Leissner (Georg e Vera) e com o Instituto Arquelógico Alemão. Os alemães rendidos a Portugal estiveram em todos os campos das letras, das artes, da música, da investigação científica e da promoção da educação. Nunca nos tentaram colonizar ideologicamente. Amaram este país e, que eu saiba, nunca lhes tributámos agradecimento.

Morreu o maestro Arglebe, um nome mais na velha relação de amor que tem trazido ao extremo-ocidental da Europa os alemães. O Porto esqueceu-se do quanto esse homem lhe deu: o Círculo Portuense da Ópera, Orquestra de Câmara Pró-Música e a Orquestra Sinfónica. É triste, mas é assim ! Se Portugal fosse um pouco mais alemão - sem o pedantismo palavroso do francês, sem a avidez quase chinesa do inglês, sem a mania das grandezas do espanhol - talvez fosse um país mais respeitador do sacrifício, do trabalho, da honestidade e da criatividade. Fui, sou e serei sempre um admirador incondicional da Alemanha e dos alemães.


Richard Tauber - Ich küsse ihre Hand, Madame

10 comentários:

AMCD disse...

E na Geografia, Hermann Lautensach, um alemão que amou indubitavelmente Portugal. Conjuntamente com Orlando Ribeiro escreveu a Geografia de Portugal e contribuiu para o desenvolvimento dessa ciência no nosso país.

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Também sou um germanófilo, sem deixar de ser um grande admirador da França, da Inglaterra, da Espanha e da Itália (confesso que tenho problemas espinhosos com a Escandinávia eugenista, os países baixos calvinistas e a Rússia pós-1917).
Meu respeito pelos grandes vultos deste povo é tanto que não tenho problemas em afirmar a minha admiração por homens como von Lettow-Vorbeck; o patriotismo não me cega.
Minha amada é prussiana e o meu filho, prestes a nascer, também será prussiano(depois farei dele português).
Ainda que seja um amante de Portugal, reconheço, diante dos factos, que temos muito para aprender com aquele povo tão dotado para "as artes"(no sentido antigo do termo).
Agora, mais do que nunca, voltamos a estar no mesmo barco pois também a industriosa e sofrida Alemanha foi transformada em terra de pilhagem pelos gigolôs de Bruxelas, como toda a Europa.
É triste visitar a Alemanha e ver no que estão a transformar aquela grande nação.

Cumprimentos de Carlos Velasco

floribundus disse...

qualquer ignorante ou ilustre desconhecido tem direito a rua com o seu nome.

D. Fernando II deu título alemão à 2ª mulher. ele foi censurado, ela foi espoliada do património.

que eu saiba não tem qualquer beco em Lisboa.

gostava que visitasse o meu blogue

http://WWW.viticodevagamundo.blogspot.com/

sei o que é estagiar no estrangeiro mas com bolsas doutros governos.

o governo português tolera-me como contribuinte

Pedro Leite Ribeiro disse...

Ocorre-me, imediatamente, João Frederico Ludovice.

NanBanJin disse...

...e não esqueçamos Carolina Michaëlis.

NBJ

José M. Barbosa disse...

Se me é permitido dizer alguma coisa em nome da cidade do Porto e dos amigos de Gunther Arglebe, dos músicos que com ele privaram e o amaram, muito obrigado ao Combustões.

joserui disse...

Na botânica Adolfo Frederico Möller, destacou-se em expedições botânicas em Portugal e S. Tomé onde descobriu inúmeras espécies que ostentam o seu nome como a Erythrococca molleri de S. Tomé, hoje perto da extinção. Mas não só plantas, o pássaro Prinia molleri — também de S. Tomé e também na lista vermelha —, é aparentemente uma homenagem do grande naturalista madeirense José Vicente Barbosa du Bocage (primo do poeta). -- JRF

silva disse...

Já agora, registo aqui um grande nome da Faculdade de Letras de LISBOA, um homem que a Filosofia em Porugal deve muito, e poucos se lembram dele, o seu nome Oswald Market.

silva disse...

Já agora, registo aqui um grande nome da Faculdade de Letras de LISBOA, um homem que a Filosofia em Porugal deve muito, e poucos se lembram dele, o seu nome Oswald Market

silva disse...

Já agora, registo aqui um grande nome da Faculdade de Letras de LISBOA, um homem que a Filosofia em Porugal deve muito, e poucos se lembram dele, o seu nome Oswald Market