16 março 2010

O vermelhismo: força regressiva e totalitária

Camisas Vermelhas (2009)

Eu sabia com exactidão ao que me referia quando, há dias, aludi ao lumpen vermelho que acabara de invadir Banguecoque. Hoje, com esta impenitente falta de jeito para dourar mitos, senti-me reconfortado com as provas recolhidas perante um dos mais degradantes espectáculos de destruição intencional da imagem da Tailândia enquanto país civilizado, difundido urbi et orbi.


A cerimónia do sangue - um atentado contra a higiene pública, um ultraje à religião budista e à sacralidade da vida, um instantâneo de selvajaria - que deu por terminada a "revolução" que o não foi, é, também, um sério aviso a todos quantos, com ingenuidade de escuteiro ou dominados por impulsos e ódios secretos contra a Tailândia moderna, urbana, educada, "aristocrática", monárquica e aliada do Ocidente, tudo têm feito para fazer crer que os Vermelhos representam alternativa de governo ao regime hoje prevalecente. Videntes, feiticeiros e "homens santos", mais farrapos do derrotado comunismo dos anos 60 e 70, enquadrados pela cacicagem rural e generosamente supeditados pelos dinheiros de Thaksin ofereceram, afinal, o retrato acabado deste movimento.


Só quem desconhecer a história dos movimentos milenaristas budistas, factor recorrente da reacção ao mundo moderno, as seitas e crenças que os alimentaram, os phumi 's (homens com poderes mágicos) que lhes deram rosto, poderá cometer o atrevimento de converter essa visão do mundo naquilo a que habitualmente recobrimos com a designação de "esquerda". Eu diria, aliás, que este movimento é o inverso de tudo quanto os seus apoiantes ocidentais julgam ser: é uma força saída do bâan (aldeia), uma revivescência do Sakdina (o feudalismo siamês, com a suas estruturas de condicionamento e subordinação a nây [senhores, i.e. caciques] locais, redes de favorecimento) e o medo perante o mundo exterior. Há aqui, é forçoso fazer a analogia, dado serem fenómenos que germinaram em sociedades marcadas pelo mesmo Weltanschauung (o Camboja e a Tailândia), uma indiscutível associação entre os khméres vermelhos dos finais da década de 60 e os Vermelhos: a selva que pretende ver na cidade o antro de dissolução, a divisão da sociedade entre "puros camponeses" e "parasitas citadinos", a ideia que o trabalho braçal é o único trabalho, a incompreensão face ao Estado distante, a esperança na vinda de um homem poderoso, vingador e justiceiro que permitirá o renascimento da pureza primeva, entretando ofendida pelo processo de integração no mundo contemporâneo.


Ao contrário dos Amarelos, que são tradicionalistas nostálgicos de um Sião forte, autónomo, não colonizado pelas ideias ocidentais - mas um Sião com cultura de Estado - estes Vermelhos são, na generalidade, camponeses sem a informação mínima sobre o mundo moderno. Por outro lado, os vermelhos que vivem nas cidades são-no desde há dez ou vinte anos. Continuam camponeses, com a agravante de terem deixado de ser proletariado rural para se transformarem em trabalhadores não qualificados, sem ofício certo, expostos às mais delicadas flutuações do mercado de trabalho, vulneráveis à demagogia e, logo, massa por excelência de agitadores sem escrúpulos. Esse é, com propriedade semântica [marxista], o lumpen.


Depois do ciclo do sangue, a Thaksin só poderá ocorrer o ciclo das fezes e da urina, as coisas mais imundas e jamais tocadas na conversação entre thais, a que se seguirá um ciclo de manias. Repito - importa que a repetição tenha efeito ditáctico - que se essa Tailândia vermelha conseguisse atingir o poder, todo o charme, elegância, boas maneiras e demais coisas que fazem deste país um caso à parte, desapareceria. A selva invadiria a cidade, as instituições culturais mais relevantes - produto da cultura cortesã, "aristocrática" e "feudal", usando os chavões dos inimigos da Monarquia - entrariam em colapso. Uma sociedade terraplanada, vulgarizada, tendo no topo um ditador com a sua visão chinesa do Homem da Providência, apoiado pelo círculo de homens de negócios chineses, porta aberta para o comércio exterior, e na base, indiferenciados, uma massa proletária rural ou o lumpen citadino com uma cultura de ódio contra a classe média que é a espinha da Tailândia moderna. A análise dos problemas políticos não se faz nos jornais, faz-se na leitura cuidada e interpretação das correntes profundas de uma sociedade. Quem o não fizer, jamais compreenderá o que quer que seja.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Há uns anos, não quiseste acreditar, quando te disse que a China tudo iria fazer para derrubar o regime tailandês. Viu-se, quando da morte de Deng Xiaoping. A reverência das elites do dinheiro chinês, de rastos perante o poster do defunto de Pequim. Já derrubaram o Nepal, tentaram na Indonésia e agora, aproveitando a idade do Rei, vão atacar em Bangkok. Já vimos o mesmo nos anos 30, mas naquele tempo eram os japoneses. O pior de tudo é que as bestas da "CEE" ajudam à festa.

Paulo Selão disse...

Com esta acção só se queimaram foi a eles! A ideia de transportar sangue em garrafões de água e espalhá-lo nas ruas é, para muitissima gente dentro e fora da Tailândia algo abjecto, chocante e até repelente (para mim foi... essas fotos... e não tenho qualquer pavor e posso perfeitamente ver, impavidamente até, sangue) para além de não ser nada higiénico. Bem que ficariam na fotografia se como protesto fizessem uma recolha de sangue controlada e supervisionada por médicos e demais pessoal especializado e o doassem a hospitais. Tanto sangue desperdiçado e tanta gente a precisar de transfusões e refiro-me só ao país deles.
Depois há a aqui um facto curioso, para mim. Tinha referido anteriormente que a Tailândia estava a ponderar mudar o nome para Sião como era antes e depois rebenta mais um protesto onde se tenta desesperadamente derrubar o Governo a todo o custo. Eu acho tudo isso estranho e muita, muita coincidência!
Finalmente, penso, infelizmente, que se os vermelhos não conseguirem o que querem que vão desestabilizar e passar à guerrilha como aconteceu no Nepal e desgastar até acontecer algo espectacular que os catapulte. Oxalá esteja enganado! Quanto à mão da China... é óbvio! Fizeram-no ao Tibete, depois ao Nepal indirectamente e agora é o Sião que está na mira.

Pedro Leite Ribeiro disse...

Com tanto arroz, podem fazer uma cabidela. Desculpe! Na verdade, espero que seja uma tempestade num copo de água. Estava a lembrar o nosso Portugal da transição do séc.XIX para o XX e a forma como os vermelhos republicanos aproveitaram a liberdade de que usufruíam. Parece que a democracia tem que excluir aqueles que se lhe opõem sob pena de vir a ser, por estes, destruída. Dar total liberdade, mesmo aos totalitaristas como forma de afirmação de uma democracia adulta, parece ser pura demagogia ou utopia, como se queira. Não vejo com maus olhos a pena do Ostracismo, caso fosse possível a sua aplicação.

Gi disse...

Esta cena do sangue derramado pela democracia é execrável. Quem terá tido a ideia? Certamente não os desgraçados camponeses. E quem terá juntado ao dito sangue os aditivos que o impediram de coagular, como seria natural?