31 março 2010

Eles estão entre nós

No passado sábado, na mais portuguesa das casas de Banguecoque, o anfitrião desenvolveu com sagacidade e erudição uma oportuna reflexão em voz alta sobre o Triunfo dos Porcos, lembrando a actualidade de Orwell. O autor de 1984 e de Burmese Days, ao contrário do que muitos pensam, não é datável nem se deve circunscrever à crítica desse tremendo desastre que foi o socialismo real. A escrita de Orwell mantém o raro condão da plena legibilidade, pelo que as suas metáforas cumprem os requisitos da universalidade da obra. Ao passar hoje por uma sala de exposições, deparei com dois eloquentes testemunhos pictóricos orwellianos. Os porcos de hoje já não vestem as farpelas de comissários de boina verde acachapada, mas as frioleiras da Armani. Os porcos de hoje não declamam sobre a posse colectiva da propriedade, os planos quinquenais, o stakanovismo, a conspiração internacional contra o paraíso cercado de arame farpado, mas prometem a abastança colectiva, o direito universal ao colesterol, o direito às guerras de libertação daqueles que eles pensam penar sob o jugo de arcaicas instituições. Os porcos de ontem exigiam a pobreza colectiva; os porcos de hoje acenam com a universalização da riqueza. Os porcos de ontem queriam destruir tudo o que lembrasse o passado: queimaram livros, destruiram as obras de arte, erradicaram as "superstruturas" e acenaram com o Homem Novo. Os porcos de hoje transformaram a cultura numa indústria e a indústria em cultura, partindo do pressuposto que aquilo a que as pessoas dão importância e compram constitui marca de qualidade; logo, Emily Brontë vale menos que Margarida Rebelo Pinto.


Os porcos de ontem tinham uma obsessão: destruir os tronos, todos os tronos. Os porcos de hoje têm uma obsessão: alcandorarem-se a tronos de ouro maciço e pedras rutilantes. Para isso, para que ninguém tenha a veleidade da comparação, querem ver desaparecidos os tronos de outrora, não querem ser confrontados com verdadeiros reis, verdadeiros príncipes e velhos ecos sociais da ordem antiga. Tudo tem de desaparecer para, sós e sem acareação, constituirem a nova realeza dos pneus, a nova aristocracia dos cartões de crédito, os príncipes da banca, dos supermercados, dos centros comerciais, tudo recoberto com ONG's, humanitarismo, bolsas e prémios, galardões e publicidade. Antes, os velhos tronos falavam de literatura, de história, de espiritualidades: hoje, os novos tronos falam de "ilhas de sonho", marcas de charutos, "vinhos de reserva", do novo Maserati, do golf, de Las Vegas, de Macau e de jactos para Executive Flyers.


Os porcos de ontem odiavam o dinheiro, mas usurpavam os bens produzidos pelos outros animais, reduzidos de novo à servidão. Os porcos de hoje não trabalham. Se falam em capitalismo, vivem da riqueza dos contribuintes, da tirania fiscal, do terrorismo da lei que só se aplica aos reticentes. Vivem acomodados na faladura sobre as pobrezas do mundo, mas todo o dinheiro que lhes enche as contas bancárias provém do Estado e dos contribuintes. É o socialismo de financiação. Nunca correm riscos: nunca abriram uma loja, uma empresa, não deram emprego a quem quer que fosse. O dinheiro vem todo dos outros. Assim vale a pena.



Selección de Polkas



O discurso da amálgama. Confundir tudo para instalar o "mercado"

5 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Devia ser publicado na 1ª página de todos os jornais nacionais e lido na íntegra, nos telejornais dos 4 canais de tv.

mag disse...

Tenho pena dos porcos (dos verdadeiros suínos) pelo estigma a que sempre os devotaram. Os "porcos" de hoje são de facto imundos e esvaziados de qualquer valor que não seja o mercantil. Porém, cumpre-me referir que os de ontem, não se circunscreviam somente numa categoria (farpelas de comissários de boina verde acachapada,) eram também os que estendiam o braço direito, em sinal de devoção rácica e omnipotente por um estado novo e, eles também perseguidores da literatura e a arte (des)engajada que pudesse subverter a ideologia "reinante". Ambos eram funestos, hediondos e desprezíveis.

O meu avô paterno (aqui no norte) dizia: que no tempo do botas de Santa Comba quem não era do regime ou era Miguelista ou Comunista.

Eu costumo dizer que mudámos da naftalina(50 anos) para o pot pourri(36 anos). Não sei qual será a fragância que o futuro nos reserva.

Manuel Brás disse...

Simplesmente, soberbo.

E sobre esta gentalha...

Da abastança colectiva
em frioleiras refinadas
brota gentalha defectiva
de atitudes inquinadas.

Tantas pedras rutilantes,
quais cartões plastificados,
deixam alguns ululantes
por galardões emporcados.

Com as mentes descontroladas
e com poucos anéis por vender
as políticas propaladas
são difíceis de compreender.

Os pobres são atacados,
sem dó e sem piedade,
escondendo dos mercados
o valor da equidade.

Epílogo

Tantas madrugadas por nascer
após noites escurecidas
com o mundo a desvanecer
nestas décadas homicidas.

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Belo post! A propósito dele, lembro que as revoluções custam caro. Sem a ajuda de meninos de famílias enriquecidas com ambições políticas não existiriam porcos vermelhos.
Assim, tenho muito mais ódio de "Robber Barons" que dos vermelhos: traidores nascidos em berço de ouro merecem destinos muito piores que radicais que pelo menos arriscam a vida e não se escondem.
Em Portugal há uns quantos; bilionários graças às conexões com o regime e cujo descaramento ainda os leva a querer dar lições de gestão. Há um boçal entre eles, nascido literalmente na pocilga, que até emprega comunas no seu pasquim, e um corticeiro que agora é bilionário do petróleo graças a um negócio sem risco com o estado socialista. Mas eles não passam de porquinhos na comparação com os suínos do mundo anglo-saxão e germânico.
Deixo aqui uma sugestão de leitura para quem quiser compreender o modo de agir desta classe de super-porcos a que o grande Olavo de Carvalho chamou de meta-capitalistas:

Antony Cyril Sutton: Wall Street and the Bolshevik Revolution

Vale a pena ler tudo o que ele escreveu.
Cumprimentos,

Carlos Velasco

Marcia Faria disse...

Nossos superporcos alimentados à caviar,nunca satisfeitos,fuçam e fuçam nos impingindo um nariz de palhaço e nos alimentando de pão e circo.
Devidamente adaptados ao nariz
e sem opções neste ano de eleições,tentamos em vão achar algum porquinho, quem sabe,tenha escapado ao lobo e se contente com um bom prato de feijão com arroz e tenha vergonha na cara...