20 março 2010

Combustões na retirada vermelha de Banguecoque

Está o leitor a imaginar a retirada alemã da Rússia ? Aqui, os "alemães", que comeram o pó da mais humilhante derrota, cobertos de ridículo, repelidos pela população citadina, sem terem atingido um só dos objectivos que o seu Führer estabelecera, minados pela divisão interna, passearam-se em longa caravana blasonando vitória. O circo ambulante vermelho, que contaria com umas 10.000 motocicletas e umas três mil viaturas carregando no dorso as 30.000 ou 40.000 pessoas trazidas, vestidas, alimentadas e pagas pelos cofres de Thaksin demorou-se por sete horas percorrendo as grandes avenidas da capital, antes de desaparecer num turbilhão de decibéis e fumo em direcção às mais remotas províncias do nordeste.


Por todo o lado, a reacção do povo - sim, do povo trabalhador, das pessoas que se levantam às cinco da manhã e trabalham doze horas, não essa mirífica "aristocracia parasitária" de que falava a "rádio Moscovo" - foi de impassividade perante o corso. Rostos reservados, olhar desaprovador, posição hirta e sem um vestígio do sorriso thai. Não sei o que terão sentido os foliões, mas estou certo que se viram entre uma parede de desprezo e outra de ridículo.

Suspeito que sou pela simpatia e pelo amor que sinto por este povo, achei estes Vermelhos encantadores e quase infantis, excedendo-se em sorrisos, apertos de mão, vénias e olhando olhos nos olhos o farangue que entre eles se passeava para os fotografar. É o grande povo siamês, sem agressividade, afável e com uma quase ingénita capacidade para conquistar o coração mais empedernido. Dos elementos perigosos, os homens dos varapaus, das catanas, óculos escuros e fardamento negro, só vi a segurança dos líderes que gritavam no topo de um camião as estafadas palavras de ordem "Abhisit ók pay" (Abhsit vai-te embora) ou "Chanat, Chanat, Chanat" (Vitória, Vitória, Vitória). Mas ali não se estava a celebrar vitória alguma. Estava-se a participar num funeral festivo.


Ao longo dos passeaios, guardando distância, as pessoas iam fazendo comentários. O Máy, um amigo meu, só fazia cálculos: "olha, este camião vem como 10 pessoas. Dez pessoas vezes 2000 Bath, cinco dias, faz 100.000 Bath". "Olha esta moto-táxi, custa 500 Bath por dia para a gasolina, mais 2000 para o motociclista. Cinco dias de trabalho; logo, ganhou 10.000 Bath". Uma empregada do restaurante japonês disse-me a gargalhar: "a estes saiu um mês de trabalho só por andarem aos gritos".

O Máy, meu contabilista de serviço para a ocasião, "amarelo até aos ossos" como gosta de dizer, proporcionou-me uma hora de gargalhada. A costela familiar chinesa trabalhou infatigavelmente e sem o báculo na avaliação dos custos da retirada vermelha de Banguecoque.

A polícia militar estava em todo o lado, mas sem o habitual facies carregado que por aqui afivelam os membros das forças de segurança do Estado. Riam-se de gozo profundo e alguns sentavam-se displicentemente nos passeios bebendo garrafas de água fria, outros fumavam e faziam simpáticas apreciações à passagem da coluna: "este autocarro vem de Buriram (cidade do extremo leste da Tailândia) e só lá chegará amanhã se entretanto não avariar pelo caminho".

Só, no meio da avenida, um estrangeiro vestindo uma camisa vermelha excedia-se em V's de vitória, apertos de mão e gritos de entusiasmo. Os espectadores thais olharam-no com quase comiseração e com aquele semi-sorriso com que presenteiam os farangues que se intrometem nos seus assuntos caseiros. Este devia ser o branco de serviço. Aposto que vive uma dourada reforma ou é quadro de uma das mil multinacionais que aqui estão para drenar o suor e o sangue dos trabalhadores deste país que os acolheu e suporta todos os caprichos neo-coloniais.

Ouvi um persistente "Khun Mikél", "Khun Mikél" e voltei-me para ver quem me chamava. Era o Dam, tenente da polícia de choque do Exército Real, meu vizinho. Afinal, Banguecoque, com os seus treze ou catorze milhões de habitantes é uma aldeia. Tirou o capacete e insistiu que tirássemos uma foto, eu a brincar aos polícias, ele fumando um cigarro. Assim terminou este episódio de pé de página de uma revolução que não chegou a ser, nas derradeiras linhas de um capítulo que a história cunhará como o fim político de Thaksin, o homem que quis ser ditador da Tailândia.

Calculo os relatórios que algumas embaixadas estarão hoje a cozinhar para explicar o fim desta comédia.

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