19 março 2010

Combustões acertou em 100%: o espaço para o narcisismo

Em Dezembro de 2008 visitei um comício vermelho no Estádio Nacional de Banguecoque. Tudo o que então escrevi foi liminarmente considerado como fantasia por alguns entendidos em política tailandesa. Lembro que na altura, inebriados por Thaksin, nem queriam ouvir falar em ideologia na Tailândia; não, que tudo não passava de uma luta entre pessoas, grupos de interesses e pouco mais, pois que os tailandeses "não estavam preparados para a vida partidária como nós, no Ocidente". Releio o texto de 2008 e uma pontinha de orgulho obriga-me fazer esta confissão. Afinal, acertei em quatro previsões capitais:

- O PAD iria transformar-se em partido político. Acertei. O PAD (Amarelos) já se constituiu em Partido das Novas Políticas;
- O Movimento Vermelho iria autonomizar-se de Thaksin;
- O Movimento Vermelho tenderia a reconstruir o Partido Comunista da Tailândia, desaparecido nos anos 70.
- O elemento étnico chinês, com ou sem Thaksin, seria um elo de ligação dos comunistas tailandeses à China.

Eu nada sei, nem tão pouco me interessa, a política tailandesa contemporânea, mas o hábito de lidar com as estruturas e linhas permanentes de força da cultura política siamesa faculta-me uma visão de conjunto e a percepção da continuidade dos fenómenos políticos neste país. Hoje sinto que estes dois anos e meio de estadia na Tailândia me facultaram um entendimento desapaixonado de tudo o que aqui acontece. Não é todos os dias que um português se liberta da cartilha dos "fazedores de opinião" eurocêntricos e da conversa redonda. Infelizmente, ninguém em Portugal ou nas Europas quer saber disto.
As pessoas têm de se habituar a trabalhar com conceitos, usando-os com propriedade matalinguística e não como pedras de arremesso. Quando aqui usei os termos fascismo, plutocracia, lumpen, comunismo e aristocracia fi-lo com rigor, sem os carregar com demonização, desprezo, medo ou admiração. A paixão não deve interferir com o processo do pensamento. É tudo.

5 comentários:

PEDRO QUARTIN GRAÇA disse...

Parabéns meu caro! Deu uma lição a muitos pseudo - especialistas «encartados" em assuntos asiáticos por esse mundo fora. A "preparação" política anterior, de muitos anos, que os outros não têm, nem nunca terão, também conta...

Abraço,

PQG

Nuno Castelo-Branco disse...

Também me parece, mas quando se usam os conceitos, há logo quem aponte o dedo em acusação.

Há uns 20 anos, um amigo de Bangkok, dizia que era necessário o regime ter atenção à política de chinesa. O coronel Rongsan tinha servido no Vietname e o seu relacionamento com a classe alta chinesa, dava-lhe a impressão de uma dupla fidelidade. Assim sendo, não podemos admirar-nos muito se o PC Tailandês for reconstruído em torno de um milionário ou de um grupo plutocrático. Trata-se apenas de mais uma cópia do modelo adoptado pelo PC China. Há que jugular a ameaça enquanto estão a tempo, até porque será a única forma de serem respeitados por Pequim.

floribundus disse...

a violência intelectual acaba onde começa a física.
são ambas filhas da intolerância.
neste país de nefelibatas confunde-se a realidade com o que gostariam que fosse.
por isso passamos da estaca zero à -1

Nuno Castelo-Branco disse...

Caro floribundus, onde está a violência intelectual destes posts? Por chamar a atenção acerca de um processo subversivo que se tornou clássico? Quem não vê, é porque não quer fazê-lo. Qual o tipo de intolerância que menciona? Parece-lhe merecer qualquer tolerância este bando de sabotadores da ordem constitucional? Portugal já passou pelo mesmo e o regime foi liquidado em 1908-10. Não pode ser, há que manter o pulso firme, embora surjam logo os trombetas da imprensa internacional ao serviço de quem lhes paga. Também temos uns Thaksins na Europa. Alguns foram e outros são ainda chefes de governo.
Mas tem razão quando diz que no nosso país "confunde-se a realidade com o que gostariam que fosse". É verdade. Basta assistir ao telejornal das 8 da noite.

Gi disse...

Eu, pelo contrário, acho que o Miguel escreve com paixão: paixão pelos seus valores. E, se mo permite, acho que só lhe fica bem.