21 março 2010

A árvore e a floresta: democracia tailandesa

Abhisit Vejajiva, rosto da Tailândia democrática

A crise política que se reacendeu na Tailândia e aqui cobrimos ao longo da última semana não deve ser encarada como uma tragédia, mas como confirmação do sucesso de um país que chega ao fim da primeira década do século XXI como caso único de plena adesão à economia de mercado, mudança democrática, emergência da sociedade civil e fruição de liberdades que são ainda coisa rara ou praticamente desconhecida nos restantes países da região.

Sucesso económico e ambiental

A Tailândia, aliada do Ocidente, cresceu economicamente ao longo das décadas de 60 e 70 como nenhum outro país do Sudeste-Asiático. Entre 1960 e 1970, a economia cresceu em média 8% ao ano e nas décadas de 80 e 90 manteve igual desempenho, não obstante as sucessivas crises que atingiram o sistema. A Tailândia, ao contrário do que muito se escreve, é hoje um país industrializado, sendo que quase metade da riqueza produzida provém do sector secundário. Desde 1970, a produção industrial cresceu 38 vezes e o volume de exportações 192 vezes. Enquanto alguns vizinhos se precipitaram na guerra (Camboja, Laos e Vietname) e daí transitaram para regimes económicos de tipo intervencionista, outro fechou-se em absoluto ao exterior (Birmânia), sendo que os restantes (Malásia e Indonésia), tão gabados pelos sucessos recentemente exibidos, assentam a sua doutrina de desenvolvimento no total desrespeito pelos recursos naturais e na devastação do meio ambiente. A Malásia e a Indonésia são hoje apontados como casos de emergência, encontrando-se à cabeça na lista das agências conservacionistas como os países onde a extinção de espécies animais atinge proporções de catástrofe biológica. Se atentarmos na mancha verde de florestas que outrora cobria a "Ásia das Monções", verificamos que a Tailândia foi o único país da região onde o recuo das florestas foi estancado. Este sucesso deve-se, sem dúvida, à emergência de um cultura empresarial marcada por crescente preocupação ambientalista. Os número de iniciativas governamentais, de fundações reais e da sociedade civil são expressivos da maturidade atingida no que à protecção do meio ambiente respeita. Só quem se atém aos números e deles se socorre sem necessária interpretação poderá exaltar as recentes façanhas do Vietname, da Malásia e da Indonésia, pois por detrás desses desempenhos há, importa lembrá-lo, um modelo de todo insustentável, habilmente induzido por grandes grupos internacionais.

Mudança democrática

Um elemento a que os estudiosos da "mudança democrática" dão pouca atenção, mas estimo relevante, senão o mais importante, prende-se com a maturidade da ideia democrática. Singapura e a Malásia, tão gabadas, são governados por partidos de cariz político ultraconservador - PAP em Singapura (1965-2010), Barisan Nasional (1970-2010) - o Camboja continua uma semi-democracia, o Laos e o Vietname são ditaduras comunistas e a Birmânia um caso extremo onde as forças armadas se constituiram em ocupante do seu próprio país.

Na Tailândia, porém, há luta eleitoral, eleições, debate político, alternativa e rotação. Pesem todas as deficiências e reparos, o sistema é tendencialmente benigno e exprime, pelo menos nas grandes cidades, a vontade do corpo eleitoral. Dos governos militares, que terminaram no início dos anos 90, já ninguém quer ouvir falar e a sociedade civil tem demonstrado capacidade para resolver problemas e impasses com inegável respeito pelas diferenças. O factor perturbador foi Thaksin, que trouxe para a democracia tailandesa o elemento cesarista e populista. A geografia eleitoral do thaksinismo mostra-o à saciedade: onde prevalece o isolamento, onde são deficientes as redes do sistema educativo e de saúde, o thaksinismo vence; onde os índices de escolaridade, sucesso empresarial e abertura ao mercado externo triunfam, o thaksinismo perde. Força regressiva e reaccionária, o thaksinismo precisa das bolsas de subdesenvolvimento ainda existentes para sobreviver. Thaksinismo e atraso económico e subdesenvolvimento são coincidentes. Por último, o eleitorado thaksinista nas regiões mais ricas é igualmente composto maioritariamente por gente ultrapassada no processo geral de crescimento: recruta-se entre aqueles que não conseguiram acompanhar, que não reuniram competências profissionais e educativas, que ficaram à margem. Não é com vendedores abulantes, operários não especializados, taxistas e carregadores que se faz uma democracia urbana.

A reforma necessária

A Tailândia correu celere e paga a factura do seu sucesso. A elite política - a presente crise demonstrou à saciedade as diferenças de qualificação que separam os agitadores das "causas justas" e a classe política que anima e mantém o sistema - precisa de tempo para reformas, pelo que a simples reclamação de eleições justas não parece constituir o nó do problema. Ninguém, senão os sectores mais avessos à soberania popular, defende um sistema não democrático. É de aceitar, contudo, que um sistema a duas velocidades possa permitir impedir a manutenção de forças que se vestem com as farpelas da democracia para a destruir e garanta, por que não, que o corpo eleitoral venha a ser organizado de acordo com a preparação para a plena integração num universo plenamente livre de decisão e escolha. A Europa passou por isso nesse longo processo de transformação do liberalismo político em democracias modernas. A universalização do direito do voto só se transformou em realidade nos anos 60 do século XX. Para os desatentos, importa lembrar que a Holanda só consagrou o sufrágio universal masculino em 1919, que a França só o reconheceu para as mulheres em 1944, que os EUA só o aplicaram, de facto, em 1965 e que a Suiça só outorgou plenas faculdades políticas às mulheres nos anos 90 !

Creio que os analistas bem intencionados já terão compreendido que aquilo que dá pelo nome de Camisas Vermelhas é reflexo da conjunção acidental de factores de natureza distinta, um caldo de exasperação que poderia conduzir ao colapso da ideia democrática na Tailândia e a substituição do actual sistema numa espécie de cesarismo e crescendo autoritário que mataria por atacado o processo de desenvolvimento democrático. Em eleições justas, sem manipulação ou indução, Abhisit venceria folgado. Isto, aliás, acontece em todos os centros populacionais relevantes. O tempo agora requerido para a adaptação e crescimento da democracia requer investimento público, atenção prioritária para as bolsas de pobreza e exclusão, universalização de direitos sociais elementares. A Tailândia tem 95% da população escolarizada, tendo menos analfabetos que Portugal. Precisa agora de tempo.

Sei que estes comentários sem pretenções incomodam as mentes anti-democráticas. A democracia não é a força bruta do número e, mais que um método, é uma cultura que só pode ser vivida e compreendida com cidadãos dotados de liberdade para escolher livremente. O novo totalitarismo tenta todo o custo confundir-se com o populismo e encontra expressão acabada no chavismo venezuelano. Na Venezuela, a democracia morreu pelo voto dos descamisados, das favelas e da demagogia. Na Tailândia, estou certo que tal não acontecerá.

2 comentários:

Marcia Faria disse...

Também faço votos.
Estou encantada com esse povo alegre,sorridente e bonito.
O primeiro ministro foi firme e objetivo nas respostas, parece ser
pessoa digna,o que é difícil nesta minha terra.
Faço votos que continuem libertos
da cultura do ocidente.
Aqui só se fala sobre O Iran, Israel e EUA.

Aprendo sempre com o seu blog...
Obrigada!!!

Nuno Castelo-Branco disse...

Um artigo de fundo, digno de qualquer grande jornal nacional. Infelizmente, por aqui estamos reduzidos às "notícias aventadas" por gente que conhece o país através da CNN, ou pior ainda, por intermédio daqueles que à noite colhem "informações" diante de um espectáculo de dança do varão. Com uísque pela goela abaixo, claro... É o Ocidente no seu melhor.