19 março 2010

Alívio: derrota da frente plutocrática-comunista


Hoje havia sorrisos e a satisfação dos tailandeses era contagiante. Ruas cheias, restaurantes com grandes filas aguardando lugar, multidões esperando pacientemente na fila do cinema, mercados em azáfama festiva. Em frente de minha casa, deitados no chão, centenas de jovens e menos jovens davam largas à exultação pelo fim do pesadelo dos últimos dias. A palavra de ordem: o comunismo não passou, a violência não aconteceu, o totalitarismo foi travado na capital do reino.

Os tailandeses viram chegar aquela sinistra caravana brandindo ameaças, trazendo miasmas de intolerância agressiva, juras de morte ao governo, ataques velados ao Rei e à democracia; o ressuscitar dos anos 70, quando o Partido Comunista da Tailândia, apoiado pela China quis aqui fixar mais um regime concentracionário, no rescaldo da derrota do Vietname do Sul, do triunfo de Pol Pot no Camboja e do Pathet Lao no Laos. Aqui aguentou-se a maré vermelha e a Tailândia venceu. Aqui não houve campos de morte, limpeza étnica, colectivização, boat people, comissários vermelhos, planos quinquenais, destruição do Budismo, matança da família real, dos quadros, da burguesia e de tudo o que a Utopia reclamava para instalar a servidão, o fim da cidadania e da lei.

Os tailandeses podem ser desatentos, abominarem os jogos da política, a venalidade e a má reputação dos políticos e daqueles que nela se profissionalizaram, mas não são ingénuos e sabem onde está o inimigo, mesmo quando este se apresenta com as blandícias e atavios das mais sedutoras roupagens. Hoje pediram paz e reconciliação, mas a paz da vitória e a magnanimidade com que ontem o primeiro-ministro acenou à turbamulta vermelha que queria provocar um golpe militar, mas só conseguiu o odioso de quebrar os mais elementares princípios da urbanidade. Os vermelhos perderam duplamente: não houve golpe militar, nem cargas policiais, nem gás lacrimogéneo, nem prisões. Chegaram , provocaram, conspurcaram as ruas de sangue, vandalizaram a casa do primeiro-ministro, mas não houve reacção. Depois, incapazes e desnorteados, sem ponto de aplicação da violência que traziam, começaram o festim de antropofagia interna: dividiram-se, insultaram-se uns aos outros, desautorizaram Thaksin e chamaram traidores, divisionistas e demais impropérios que fizeram do comunismo uma seita de contornos religiosos, de uma sub-religião que prometia o paraíso para cá da morte e por todo o lado promoveu as mais terríveis chacinas.


Percorri demoradamente as centenas de desenhos que ali iam fazendo e li com atenção as palavras ศานติสุข (Paz), อิสรภาพ (Liberdade), ชาติภูมิ (Pátria), Fim ao Bombismo, Limpemos a Casa, Amemos a Tailândia, Viva o Rei, Salvar a Tâilândia. É um clamor que percorre o país, após dois anos de manifestações, ameaças de guerra civil e descalabro. Os vermelhos, na tradição local, receberam do governo um aceno de compreensão. Aqui, perder a face é mais ultrajante e irreparável forma de aviltamento, pelo que os líderes mais moderados do Movimento Vermelho, que haviam repelido o acicatamento à violência feito por Thaksin, pediram aos habitantes de Banguecoque que os deixassem partir em paz. Um dos líderes vermelhos disse que amanhã, sábado, uma manifestação, a derradeira, percorrerá as ruas da capital para agradecer e "pedir desculpas" aos bancoquianos por todos os incómodos causados.

É o fim do Movimento Vermelho. Agora, destruída a unidade, separar-se-ão e só espero, como aqui sempre o disse, que aqueles que querem realmente trabalhar numa agenda que permita beneficiar os pobres se entreguem à vida parlamentar, respeitem os valores e práticas da democracia e não acalentem quaisquer formas de vingança. A plutocracia não viu atingidos os objectivos: abolição do Conselho Privado, demissão do primeiro-ministro, indulto a Thaksin e convocação de eleições antecipadas.

Foi uma derrota sem derramamento de sangue, com entradas de leão e saída de sendeiro, o pior a que um movimento revolucionário pode aspirar. Vão sair derrotados, divididos, sem apoio moral nem qualquer desculpa pelos actos a que deram largas. Sobretudo, vão sair derrotados em paz, sem um tiro, cobertos de vergonha. Hoje, compreendi a força tremenda de paz que o budismo carrega. Hoje, o comunismo sofreu uma derrota inapelável e os títeres da plutocracia vão inventar as mais desbocadas desculpas antes de voltarem a recobrar ânimo.

4 comentários:

floribundus disse...

gostei muita da crónica
discordo quando diz que a esquerda tem vergonha

por cá a eterna pasmaceira, desânimo, miséria moral e material.

o zé sapatilhas foi ao Magreb. podia ficar lá

João Amorim disse...

Que país. Mas do descambamento vermelho, por aqui, os jornais não falam...

Pedro Leite Ribeiro disse...

Viva a Tailândia!

Nuno Castelo-Branco disse...

Viva a Tailândia que venceu um" 5 de Outubro"!!