25 fevereiro 2010

A via da salsicharia e a via da cultura. Aqui, Portugal quer dizer qualidade !

O noticiário português na Tailândia não arreda pé deste blogue. A verdade é que as coisas acontecem em sucessão e sinto o elementar dever patriótico de dar a conhecer aos leitores desta tribuna eventos raramente noticiados na comunicação social de Lisboa, que parece apenas vocacionada para deprimir os portugueses. Longe dos escândalos e escandaletes, aqui faz-se o que se deve fazer, sem políticas e sem lóbismo, sem intuitos mercenários e dando o melhor para dignificar a nossa pátria, distante e desatenta. Parece que a notícia aqui divulgada anteontem deixou mossa entre as termiteiras do despeito, os adeptos do quanto pior melhor e os habituais "arrenegados" - como se chamava no século XVII aos soldados práticos que abandonavam o serviço da Coroa para emprestar a espada aos inimigos do seu Rei - mas isso assim sempre foi. Quando um português faz bem, há sempre meia dúzia de biliosos impacientes e frementes tentando impedir a todo o custo o curso ascendente das coisas.


Estava sentado na minha secretária preparando uma comunicação sobre a comunidade luso-siamesa em Banguecoque, que apresentarei no próximo sábado. Tinha a televisão ligada e, de repente, ouvi falar de Portugal. Na pantalha, outra vez a nossa embaixatriz Maria da Piedade Faria e Maya, agora convidada especial num programa sobre o Bazar da Cruz Vermelha - um dos maiores eventos Banguecoque - para falar sobre o programa deste ano. Defendeu a imagem de Portugal e disse que Portugal se associa a esta iniciativa com o propósito de ajudar os desfavorecidos e divulgar os seus melhores produtos industriais e artesanais. Pois, cultura, para nós quer dizer cristais, porcelanas, vinhos das melhores adegas, colchas de linho puro bordadas e até doçaria. O mesmo não pensarão outros, derrancados no mais vil mercantilismo de comes-e-bebes e convertidos, difinivamente, ao espírito do souk ou do Xipamanine. Numa demorada sucessão de imagens sobre as mais de quarenta representações que estarão presentes no Paragon de Banguecoque, foi clara a separação entre esses dois mundos irreconciliáveis: de um lado, os países bufarinheiros, transformados em chocolatarias, charcutarias, salsicharias, peixarias e Lojas de 300; do outro, os países preocupados em preservar e divulgar uma imagem civilizada. Felizmente, Portugal apresenta-se como uma das excepções civilizadas.

A Alemanha, que se vai extinguindo ano a ano, de si já só repercute a imagem de comedora de enchidos, bebedora de malte fermentado e promotora da diabetes, doenças coronárias e AVC's. Senti pena, pois ali não vi joalharia Guthmann de Pforzheim, a boa relojoaria, as porcelanas de Meissen e da Königliche Porzellan Manufaktur, nem mesmo os engraçados objectos da cultura völkisch da Floresta Negra. Só salsichas, mais salsichas, pirâmides de salsichas.
Terminado o programa, liguei à nossa embaixada e pedi a uma das secretárias se me podia enviar imagens da sessão de apresentação do Bazar da CV, que teve lugar há uma semana. Recebi-a de imediato, com o esclarecimento adicional que na mesa só está patente uma pequena amostra, pois que a restante mercadoria só chegou anteontem a Bangkok e está a ser desempacotada e preparada para a exposição. Assim se vai fazendo o melhor, sem alarde e sem que Lisboa disso dê conta, com quase inexistentes meios humanos, logísticos e materiais. Assim fossem todas as embaixadas !

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Mas no fundo, é disso mesmo que se trata a "cultura" dos nossos dias: encher a barriga até estourar. imagino a representação USA: McDonalds, autocolantes Pizza Hut, etc (estou a brincar). Seria bom mostrar as nossas filigranas, porque os asiáticos apreciam-nas muito. É ouro, é delicadeza, muito trabalho e esplendor. É o Portugal que se conhece e que interessa.