07 fevereiro 2010

Palácio revolucionário


Passei hoje em frente do palácio de Chitralada (จิตรลดา), residência do Rei da Tailândia. Ao contrário dos palácios reais europeus, este não se evidencia pela monumentalidade arquitectónica, pela raridade das soluções decorativas nem pela imponência. Aliás, aquilo que o caracteriza é a invisibilidade. Da rua, não se deixa ver. Era, há cerca de 80 anos, um mero chalet onde residia o rei Vajiravudh (Rama VI, r. 1911-1925), longe do movimento da grande cidade. Cercado por um fosso inundado e grades, Chitralada situa-se no coração de uma vasta propriedada com a superfície de 4000m2 e lembra uma casa de campo. Contudo, este palácio evoca uma revolução radical, com efeitos profundos e duradouros sobre a vida dos tailandeses. Foi a partir desta propriedade rural que o actual Rei lançou, há quase sessenta anos, a restauração da monarquia. O Rei encontrava-se, então, em regime de exclusão, longe do povo, respeitado mas raramente visto. Os militares que subjugavam o país, controlavam o acesso ao Rei, afastavam-no deliberadamente e conferiam-lhe apenas funções ornamentais. Era o tempo em que todo o poder se concentrava em poucas mãos, habitualmente e por sinal bem sujas, dos antigos revolucionários de 1932 que haviam prometido a liberdade e a democracia, mas que haviam transformado o país em laboratório de tontas versões thai dos fascismos e comunismo europeus para, logo de seguida, se constituírem em donos da produção, consumo e exportação do ópio, da prostituição rompante e das empresas estatais.


O Rei não detinha as armas e era, amiúde, objecto de humilhações de toda a sorte, grosseiras ameaças e chantagem. Um dia, porém, os thais acordaram ouvindo a voz do seu Rei pela rádio. Rama IX havia erigido no parque de Chitralada uma grande antena de radiodifusão e anunciava a criação de um canal radiofónico. Diariamente, durante os anos 50, os tailandeses ouviram-no discorrer sobre temas até então apropriados por um parlamento sem vida, monopolizado por uma classe política e por "deputados" saídos de eleições fraudulentas. Não eram emissões sobre política, mas sobre políticas estimadas "subversivas": o trabalho e a dignidade dos trabalhadores, a empresa produtiva e a especulação, a escolarização e a formação de quadros, o desenvolvimento económico, a defesa do meio natural, a preservação das indústrias tradicionais, o património arquitectónico. As emissões de Chitralada incluiam também cursos livres destinados aos pequenos proprietários rurais, divulgando técnicas de cultivo, explicando-lhes como aplicar adubos, erradicar pragas, armazenar água para a rega.


Estimulado pela adesão e eco de tal iniciativa, o Rei transformou Chitralada numa propriedade agrícola. Ali se fizeram experiências sobre o cultivo de cereais, procedeu-se à geminação e aclimatação de produtos agrícolas importados de outras regiões do planeta, se melhorou a estirpe do gado bovino, se reforçou o arroz thai e se iniciou a produção de leite destinado ao mercado interno. Ali, em lagos artificiais mandados construir, se lançaram grandes viveiros de peixes, camarões e caranguejos e estudou-se a forma de os disseminar pelo país. O Rei cercou-se de engenheiros agrícolas, estudou o fenómeno das inundações que ciclicamente devastavam as regiões ribeirinhas do Golfo da Tailândia e dos vales fluviais, sugeriu a construção de diques, a abertura de canais, a limpeza das linhas de água e inventou maquinismos de baixo preço destinados a ajudar as explorações agrícolas: bombas de água, máquinas de oxigenação de águas paradas, bombas de fumigação.


Não contente, abriu uma escola, hoje considerada modelar, patenteou os produtos da sua propriedade e introduziu-os no mercado, utilizando as receitas para pagar dignamente aos trabalhadores*, contratar técnicos qualificados, importar tecnologia e abrir laboratórios onde as melhores cabeças do país pensaram e prepararam o futuro. Quando, em finais dos anos 50, o Rei se libertou do jugo dos ditadores, espalhou a receita Chitralada pelo país. Chitralada é símbolo dessa revolução silenciosa e o Rei a sua incarnação. E ainda há quem diga que os reis são coisa acessória e inútil !


เพลงมหาชัย

*: Os ordenados que Chitralada paga aos seus funcionários é superior em 50% aos vencidos pela generalidade dos trabalhadores agrícolas do país.

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Conheço bem um país, onde a última frase pode muito bem ser definidora dos presidentes da república.