27 fevereiro 2010

Os portugueses que fizeram Banguecoque

Levantei-me às sete da manhã para organizar a documentação necessária para mais um encontro com os amigos luso-tailandeses do bairro da Conceição, em Sam Sén, que dista cerca de três quilómetros do palácio real. Cheguei cedo e pedi ao guarda do cemitério que me deixasse entrar e fotografar alguns jazigos e campas no livro em pedra desta comunidade radicada nas margens do rio desde 1674. Aqui construíu o Padroado uma igreja, em torno da qual foi crescendo uma aldeia católica que hoje alberga uma população de três mil pessoas de ascendência variada - portugueses, siameses, cambojanos, malaios, vietnamitas e chineses - chegados em sucessivas vagas ao longo dos últimos trezentos anos. Aqui quase se pode ouvir o eco das memórias gloriosas das gerações que fizeram a guerra pelo Sião, desde os tempos de Ayutthaya às campanhas na península de Malaca, batalhas contra os vietnamitas pela posse do Camboja ou contra os irrequietos birmaneses. Aqui repousa Phraya Wisset Songkram, ou antes, Pascoal Ribeiro de Albergaria, que atingiu a mais alta posição no Tahan Klang - exército de primeira linha - entre 1824 e finais da década de 1850.


Aqui estão militares, mas também diplomatas, administradores e funcionários da coroa em cujas mãos residiu, durante quase um século, a sorte do Sião nos tempos difíceis em que o país, cercado por agressivas potências colonialistas, corria de sobressalto em sobressalto para impedir a absorção no Raj britânico ou na Indochina Francesa.

Como disse noutra ocasião, aqui a regra não é fazer dinheiro nem business. São todos, sem excepção, funcionários do Estado e ainda revelam qualidades que fizeram dos seus antepassados objecto do interesse dos reis: são médicos, oficiais da armada, professores universitários, funcionários superiores do Ministério dos Negócios Estrangeiros, directores de serviço, chefes de divisão, directores de empresas e serviços do Estado. Fui encontrá-los reunidos na sala de trabalho do edifício anexo à escola primária da paróquia. Hoje prepararam-me uma surpresa. Para além da dezena de membros da comunidade, do bom café da boa fatia de bolo, convidaram um canal de televisão, uma jornalista e o historiador Krairoek Nana, que conheci na nossa embaixada há um ano e com quem tenho mantido contacto regular. Informou-me Krairoek que está a preparar para o MNE tailandês uma obra sobre as relações entre Portugal e a Tailândia, com publicação prevista para 2011; ou seja, para entroncar no conjunto de iniciativas várias que as duas partes estão a calendarizar para o próximo ano.

O tema de conversa para hoje era difícil, pois exigia-me cruzar dados de proveniência vária e proceder a cálculos sobre a expressão demográfica da população católica no Sião entre finais do século XVIII e finais do século XIX. Para respaldar a minha argumentação, servi-me de uma dezena de memórias de viajantes ingleses, franceses e norte-americanos, de censos populacionais mandados fazer pelos primeiros quatro reis da dinastia Chakry, pela correspondência dos padres franceses das Missions Étrangères, por documentos dos arquivos portugueses e outra inserta em monografias sobre a história de Banguecoque. Disse-lhes que a sua paróquia fora o berço de Bangkok - o Azeitão do Sudeste-Asiático - e que funcionou como cadinho de reunião e distribuição da população católica após a queda de Ayutthaya, que o seu terreno fora do Padroado Português até 1825, quando os franceses dele se apossaram - tal como o fizeram nas outras paróquias de Santa Cruz de Thonburi e do Bandel de Nossa Senhora do Rosário dos Portugueses - e que as igrejas primitivas, em estilo luso-siamês, com excepção de uma, haviam sido demolidas com a invocação da sua decrepitude. Falei-lhes na luta do povo cristão contra a intolerância dos bons padres franceses, que desde Ayutthaya não deixaram de recorrer aos mais variados recursos para abafar a memória da ancestralidade portuguesa da população católica, como, aliás, o fizeram na Birmânia, no Camboja e no Vietname.
Ali estivemos em interessante charla por quatro horas. Depois, saí e passei pela Igreja, onde se faziam os preparativos para a missa das cinco e meia da tarde. Disse-me a Irmã Maria que a missa das 17.30 horas é concorrida, que ali acorrem cerca de 200 pessoas para o ofício e que até há um organista que tem vindo a estudar o reportório sacro em latim que havia caído no esquecimento. Na Conceição, a população continua a recitar a novena em latim, coisa rara num país onde o latim só terá sido estudado por meia dúzia de académicos, bem como pelo Rei Mongkut (r. 1851-1868).

Nas traseiras do templo, os vestígios muito alterados daquela que deve ser o último exemplar de igreja luso-siamesa, poupado à sanha demolidora da vaga de "igrejas à Normandia" que a França semeou por toda a região. Num andor, à esquerda na nave, uma Nossa Senhora que é, nem menos, a imagem de Nossa Senhora de Vila Viçosa ostentando a coroa de soberania de Portugal. Nas mãos em prece, um arranjo de flores que me lembrou as cores da nossa bandeira de outrora.

As pessoas começavam a chegar e não quis, com a minha presença, criar-lhes incómodo, pelo que saí para o adro da igreja em conversa com a Irmã Maria. Cabe aos jovens da paróquia preparar os vasos de flores que se colocam numa ampla mesa e são vendidos por uma ninharia aos familiares de doentes e idosos que não podem comparecer aos ofícios. As flores são aspergidas pelo padre e levadas como oferta para fazer lembrar aos ausentes os mistério da vida, da beleza e da morte, ou seja, da transitoriedade e da eternidade.
Senti que 2011 é aguardado como a restauração da memória e da identidade de uma comunidade que jamais se rendeu, que calou fundo todas as humilhações, cerrou punhos de indignação e sobreviveu às maiores provações. Os Franceses partiram. Terá chegado a hora do regresso de padres e missionários portugueses ao velho Sião ?

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Bem podemos esperar.... Teria de ser uma acção coordenada entre a igreja e o Estado. No entanto, será impossível, dados os pruridos de certa seita, cheia de manias e preconceitos.

António Bettencourt disse...

Uma pergunta. A sua palestra foi feita em que língua?