05 fevereiro 2010

Os dois homens que destruíram a Europa


Católico, conservador e "sulista", Pat Buchanan é das poucas figuras cimeiras da política norte-americana que possui biblioteca [e a lê], possui carreira autónoma e chegou à ribalta por mérito próprio, tendo sido iminência parda de Nixon e Reagan e adversário do clã Bush. Muito polémico, quase insuportável em algumas das suas posições, não deixa, contudo, de ser ouvido. Li em tempos passagens do seu The Great Betrayal: How American Sovereignty and Social Justice Are Being Sacrificed to the Gods of the Global Economy (1998) e fiquei encantado com o seu radical pessimismo a respeito da então muito exaltada globalização. Depois, no The Death of the West: How Dying Populations and Immigrant Invasions Imperil Our Country and Civilization (2002), tocou num tema tabú e desenvolveu interessante reflexão sobre a decadência ocidental e o colapso à vista do império americano.


A sua obra mais recente, Churchill, Hitler and the Unnecessary War: How Britain Lost Its Empire and the West Lost the World, é, no mínimo, um escândalo. Não se trata de um qualquer trabalhinho de corta-cola, não reverencia, não diaboliza e oferece um poderoso feixe de razões que defendem o chamado "perturbador continental" (a Alemanha), espicaçado até extremos para uma guerra absolutamente estúpida (a Primeira Guerra Mundial) que levou à exaustão da Europa, à revolução comunista de 1917-19 e à ascensão de Hitler ao poder, em 1933. Buchanan desmonta o mito do militarismo e expansionismo alemães, executa um retrato do Kaiser que é a antítese da grotesta caricatura da propaganda da Grande Guerra, afirma que a Alemanha, coração, cérebro e músculo da Europa era, não o perturbador, mas o estabilizador continental e que não havia razão alguma para qualquer guerra entre o Império Britânico e o II Reich. Depois, vencida e humilhada a extremos pelo Tratado de Versalhes, a Alemanha viu negada a revisão das cláusulas mais irracionais desse tratado, foi impedida de realizar a união aduaneira com a Áustria nos anos 20 e abandonada a Hitler. Buchanan analisa sem partis pris e afirma, com absoluta imperturbabilidade, que entre Hitler e Estaline não havia que escolher, pois ao Ocidente interessava que comunistas e nazis se exterminassem reciprocamente e que à Grã- Bretanha não cabia envolver-se no conflito pelo domínio da Europa de Leste.


A neutralidade poderia, afinal, reforçar o Ocidente e permitir um conflito posterior com Hitler, caso este saísse vencedor da luta pelo Leste, facto que Buchanan duvida. Depois, Buchanan aprofunda o tom provocatório e insinua que os interesses da Itália eram divergentes dos alemães e que a Itália, com ou sem Mussolini, era aliada natural do Ocidente se britânicos e franceses a não tivessem atirado para os braços de Hitler.


Aprofundando-se na comparação entre o percurso ideológico de Hitler e Churchill, Buchanan não vê afastamento, mas convergência de pontos de vista: militarismo, racismo, eugenismo, colonialismo e imperialismo e, pasme-se, afinidades flagrantes no delicado tema da teoria da conspiração "judaico-bolchevista". Aliás, já referido por outros historiadores, permanece a grande anglofilia de Hitler, que pretendia mimetizar o modelo do raj britânico na Índia e aplicá-lo ao Leste europeu após a vitória sobre Estaline. Para Buchanan, Hitler atacou a URSS para privar a Grã-Bretanha do último argumento para continuar a guerra. Churchill, que odiava Estaline tanto como odiava Hitler e via no comunismo um perigo tão grande ou mesmo maior que o nazismo, deu provas de miopia ao incentivar a expansão soviética após a evidência da derrota militar alemã. Em 1943, quando tudo previa a derrota a prazo dos alemães, Churchill aceitou como inelutável o domínio soviético sobre os Balcãs e em vez de refrear a ajuda norte-americana à URSS - Churchill possuía grande ascendente sobre Roosevelt - nada fez. Depois, ao invés de estimular a resistência alemã contra Hitler, minimizou-a. Finalmente, o alerta que Churchill fez em 1945, já terminadas as hostilidades, sobre a Cortina de Ferro do Adriático ao Báltico e a necessidade de revitalizar a Alemanha e transformá-la na barreira contra a expansão do comunismo, surgia como uma contradição, ou, se quisermos, a assunção de bom senso que já não podia reparar a ruína do Império Britânico e a destruição do Euro-Mundo.


Battle of Britain

4 comentários:

Daniela Major disse...

Caro Miguel, li atentamente o seu texto por duas vezes. Já tinha ouvido falar de Buchanan, e na altura, apareceu-me como uma figura com posições "pouco convencionais".
Contudo, depois de ler o seu texto não cheguei a perceber a sua posição relativa ao pontos que explana no texto.

Kubrik64 disse...

Por acaso não li o livro nem tenho intenções de o ler, só o titulo diz tudo. Sou um cidadão simples, não sou sou jornalista nem historiador nem investigador, mas penso que tenho uma cultura mais que razoável no que diz respeito à ascensão de Hitler ao poder e à Europa 1919-1939. Náo quero entrar em polémicas só me rendo aos factos, porquê o titulo Churchill, Hitler e não "Chamberlain, Hitler a Guerra Desnecessária", Churchill foi dos primeiros a reconhecer a ameaça Hitler e grande critico de Chamberlain(e com razão), dias depois dos acordos de Munique Chamberlain ávido de paz, fez saber a Hitler que havia planos para intentar contra sua vida(de Hitler), um desses planos ele tinha conhecimento porque era Inglês e não estava de acordo, breve, Churchill pode ter cometido erros, foi acusado de belicista e, como transcrito no seu artigo (Churchill aceitou como inelutável o domínio soviético sobre os Balcãs),é verdade! (ao invés de estimular a resistência alemã contra Hitler, minimizou-a)mas não antes de a guerra começar, depois na minha opinião tarde demais para um armisticio em 1943, mas não merecia o titulo (trompeur) deste livro, a guerra começou bem antes do 1 de Setembro de 1939 e o Churchill não fazia parte dos cumplices da mascarada pós guerra, aliás, ele só toma as rédeas do destino do seu povo com a guerra em curso, só para terminar gostava de fazer alusão à personalidade do Sr. Buchanan que na minha opinião deixa muito a desejar e se conheçe o percurso dele desde Nixon à Bush, oh my god!!!! foi anti Bush, mas depois "se não podes com eles junta-te a eles", c'est la vie, laa gón

Isidro Parreira

Combustões disse...

Bem, limitei-me a ler os quatro capítulos mais interessantes do livro e, como tese e exercicio de raciocónio geopolítico puro - sem interferência de inclinações pessoais - parece-me um trabalho interessante. Hitler ou Estaline é o que pretende perguntar o Daniela Major ? Bem, geopoliticamente responderia da seguinte forma: os alemães no Leste, os ingleses no Ocidente e os Aliados no Pacífico. Alemães ? Sim , porque mais tarde ou mais cedo iriam desembaraçar-se de Hitler.

NanBanJin disse...

Meu Caro:
Tudo isto soa demasiado a "Imperium" e a Francis Parker Yockey...

(Se não conhece, sugiro-lhe verifique o título da obra e o autor que agora lhe indico...)

Calorosos cumprimentos do Japão,
NBJ