03 fevereiro 2010

O sino-português, versão siamesa

Khun Jakkrit Wang Ngam é daquelas pessoas que aliam uma espantosa cultura enciclopédica - o homem fala de Filosofia, de arte e literatura ocidentais, de história siamesa e de cultura popular, de espiritualidade budista e de arquitectura com a desenvoltura de académico - à luta pela preservação da cultura thai, tão emeaçada pelo avanço da parvalhização globalizadora. Tenho passado horas discutindo um dos temas que mais o apaixonam e que se cruza com o trabalho que vou realizando em Banguecoque sobre o encontro de duas culturas que em 2011 se celebrará por ocasião dos 500 anos de relações diplomáticas entre Portugal e o Sião. Jakkrit trabalha no magno projecto de inventariação, estudo, restauro e preservação da arquitectura vernacular siamesa e tem-se debruçado ultimamente sobre o "sino-português" na região. Os seus estudos, croquis e desenhos, de um pormenor que excede as possibilidades da mera fotografia, são tecnicamente admiráveis, mas transportam igualmente uma consciência identitária que vai somando argumentos para destronar os mitos do "desenvolvimento", do "progresso" e da "modernidade" que tantos males causaram à paisagem urbana tailandesa.

O trabalho que vai realizando nos núcleos urbanos ameaçados pelo camartelo da especulação imobiliária, o entendimento do ethos siamês que possibilitou, durante séculos, soluções adequadas às condições climatéricas, às necessidades e ritmos inerentes a uma visão do mundo, do trabalho e até do ócio, é um manifesto em defesa de um modelo de homem e de sociedade que a tecnocracia de vistas-curtas quis substituir a marchas forçadas pelo horrendo do vidro, do aço, do betão, do ar-condicionado e dos colarinhos brancos. Quando lhe mostrei o trabalho que estou a fazer, disponibilizou-se para me facultar preciosa ajuda na definição e enumeração das marcas da arquitectura de inspiração portuguesa nos bairros católicos de Banguecoque.


Pedi-lhe que pensasse num curta monografia sobre o "sino-português-siamês", pois colaboradores desta qualidade são raros e importa não os perder. Há que encontrar novas vocações lusófilas, integrá-las em equipas multidisciplinares e promover jovens artistas, tradutores, arquitectos, historiadores e investigadores para fazer de 2011, não a evocação nostálgica de glórias imperiais, mas o ponto de partida para um novo relacionamento luso-tailandês. Estes são os "últimos samurais" de uma ideia de cultura que nos cumpre defender contra o nada de uma certa planetarização plutocrática feita sem ideias, desrespeitadora de tudo que não se reduza ao dinheiro.



The Last Samurai

2 comentários:

adsensum disse...

Notável.

Nuno Castelo-Branco disse...

A devastação dos exemplares arquitectónicos em Bangkok já era notória em 1990. As zonas envolventes da Silom, da nossa embaixada, da Chinatown, Sathorn e das paralelas à Ratchadamri, foram demolidas e estavam cheias de casarões desses. Uma pena. Construíram mamarrachos de betão e sem qualquer interesse.