23 fevereiro 2010

Orgulho português nos confins do país dos Karen

O pequeno Chai, três anos de idade, benjamim da aldeia com a suas irmãs, que aprenderão a ler na escola portuguesa

Entre as minorias que vivem sob protecção do Estado tailandês, os Karen são os meus preferidos: um povo manso, belo, humilde e simpático que carrega indizíveis provações e luta desde há quase dois séculos pela sobrevivência da sua cultura. Vivem na cordilheira de montanhas que separa a Tailândia da Birmânia, são oito milhões e travam desde há décadas uma guerra de guerrilhas contra a opressão do regime militar de Rangún. Na Tailândia são cerca de meio milhão e aqui podem viver sem o perigo dos bombardeamentos e dos massacres. A minha estima por esta tribo reforçou-se há tempos, quando um amigo karen, residente em Banguecoque, me revelou um dos segredos da sua cultura: "nunca aceitamos dinheiro de ninguém; uma sopa sim, dinheiro, nunca".

São pobres - diria, são muito pobres - mas não exibem no rosto, como acontece com os cambojanos, as marcas das tragédias que os assolaram. Há qualquer coisa de infantil na confiante docilidade com que se entregam à conversação com os forasteiros. Os pais trabalham nas hortas e nos arrozais em socalcos, recolhem frutos silvestres e madeira das florestas; as crianças percorrem quatro ou cinco quilómetros a pé, sapatos cambados e rotos, para conquistar o direito à instrução. Hoje levantei-me às seis da manhã e dirigi-me, na companhia da nossa embaixatriz em Banguecoque a uma remota aldeia Karen situada nos confins de Suphanburi, no extremo ocidental do país. Foram horas de caminho para cumprir uma promessa de anos. A Embaixada de Portugal ofereceu a esta comunidade cerca de 800.000 bath - que na Europa não é nada, mas para os Karen uma fortuna - para a edificação de uma escola dotada de biblioteca com ligação à internet, luz eléctrica, ventoínhas e até um pequeno laboratório de físico-química para aulas de introdução ao meio natural.

Ao chegarmos à aldeia, fomos recebidos com júbilo por professores, autoridades locais e miudagem. Sem que ninguém o pedisse, retiraram da parede a bandeira portuguesa, aglomeraram-se no centro da sala e deixaram-se fotografar com a bandeira do longínquo país dos "farangues" para lá dos montes e oceanos que lhes quis oferecer uma migalha de dignidade que tantos outros, ricos e poderosos, lhes recusam. Confesso que me senti orgulhoso, pois desta gente nada temos a ganhar: aqui não temos interesses geopolíticos a defender, não somos candidatos à mercearia das barganhas comerciais nem seguimos o calculismo da intriga diplomática. Portugal veio a esta aldeia no fim do mundo só e apenas para fazer o bem. Isto lembrou-me a velha história que aqui venho contando sobre o sentido profundo e transcendente da missão portuguesa no mundo, uma ideia de fraternidade que outrora aqui trouxe missionários, capitães e soldados em busca de um novo lar português.

Pediram os professores às crianças que, com as canetas, os lápis de cores e o papel que Portugal lhes ofereceu, exprimissem o que lhes ia na alma. Sem excepção e absolutamente livres - falo tailandês e prestei a máxima atenção aos professores - os miúdos traduziram esse sentimento desenhando com espantosa criatividade a sua versão da bandeira portuguesa. O Kái ("galinha"), um rapaz de 11 anos, perguntou-me o que significava aquela cruz no centro do pavilhão. Quando lhe disse que era a cruz dos cristãos, disse-me que o avô também era cristão; logo, nós eramos amigos do avô !

Receberam escola nova, centenas de livros e até bolas de futebol e raquetes de badminton que decerto constituirão por muito tempo os seus únicos brinquedos. Depois, foram bolos, chocolates, bolachas e sumos, coisas que não conhecem, pois aqui não há supermercados e o dinheiro, quando o há, serve para comprar um machete, uma alfaia agrícola ou um par de meias.

A Embaixatriz Maria da Piedade Faria e Maya lembrou a todos que Portugal está nesta parte do mundo desde 1511, que aqui viveram gerações de portugueses e que a velha aliança entre a Tailândia e Portugal é coisa sagrada, indiscutível e perpétua. Grandes sorrisos, palmas prolongadas e reconhecimento por este gesto abriram passo à inauguração do complexo.

A árvore da vida, plantar o futuro e a esperança de melhores dias, parece ter sido este o significado do momento mais marcante do dia, tudo isto feito sem fotógrafos contratados, jornalistas em rodopio e falsa solenidade. A árvore escolhida - o Pleuk - é um dos símbolos da realeza thai.


A placa evocativa, descerrada pela Embaixatriz de Portugal, foi mandada esculpir pelo YWCA de Banguecoque. O YWCA organizou a cerimónia, que contou com a presença de diplomatas de outras representações.

O edifício é simples mas confortável, protege da chuva, do vento e do sol e dará a esta comunidade novo alento. Paredes caiadas, quadros e marcadores novos, cortinas garridas, chão em azulejo branco fazem desta casa um palácio aos olhos desta pobre gente que vive em cabanas de palha e colmo.

Na sala de aula, a trilogia que a nação tailandesa escolheu como divisa do Estado: Budismo, Rei e Pátria, lembrando aos cidadãos Karen que a origem étnica ou religiosa de cada um será sempre protegida. Foi um dia feliz para nós portugueses, mas principalmente para os Karen, que contarão a partir de hoje a história daqueles farangues de um distante país que aqui um dia vieram, sem interesse e sem agenda, dar-lhes um pouco do seu futuro. Há que mudar de rumo, abandonar o remoer de ódios e lançar de novo pelo mundo o bom nome de Portugal. Esse é o único caminho, o mais lavado e orgulhoso dos patriotismos. Ainda vamos a tempo !

Uma pergunta adicional:
- Quando se lembrará a Igreja Portuguesa de enviar, de novo, missionários portugueses para a Tailândia ?
NB: Não vão as más línguas e os entusiastas da difamação encapelar-se com a utilização "indevida dos dinheiros públicos em tempos de crise", aqui fica o esclarecimento que o dinheiro aplicado nesta obra foi total e exclusivamente angariado num jantar promovido pela Embaixada de Portugal em 2007. Outros se seguirão. A caridade - não se tema a palavra - faz-se com o coração, mas também com dinheiro.

10 comentários:

José Domingos disse...

É esta memória de Portugal, que nos honra, que querem esquecer.
A memória de um povo, é a sua herança.

editor69 disse...

Hoje...por uma vez e apesar da bandeira errada...senti orgulho no meu país!
Obrigado pela estória!

Kubrik64 disse...

felecito os por esta bonita iniciativa, embora conheçendo a Tailândia nunca estive na provincia de Kanchanaburi mas conhecia a existência desta minoria étnica. Como é normal o seu artigo é mais uma alusão ao feito(da escola), do que a história e os rituais deste povo, que foi um povo que passou de uma posição privilegiada a uma situação precária, e seus rituais cerimoniais são algo deveras curioso e interessante!!!

Nuno Castelo-Branco disse...

Esta deve ser hoje a nossa MELHOR EMBAIXADA. Que diferença em relação há duas décadas. Bem hajam, embaixador e embaixatriz!

adsensum disse...

Invejáveis as experiências do Miguel...

Osório disse...

Muito bem.

NanBanJin disse...

Belíssimo relato. Extraordinário.

Feitos destes, hoje, sim: erguem a Alma, tomam-nos o coração e inspiram-nos a dizer ao Mundo, com orgulho e emoção, "VIVA PORTUGAL!"

NBJ, Japão

ATRIBUTOS disse...

Hoje, depois de ler esta história, verídica, sinto um enorme orgulho no meu Portugal.
Bem hajam.

José Fernando Magalhães

Deolinda disse...

Fiquei emocionada.
Belo exemplo de patriotismo e de fraternidade!

Gi disse...

Uma obra louvável, parabéns aos embaixadores.