06 fevereiro 2010

Monumentos à arrogância

Uma noite sem nada para fazer, com visita a blogues amigos. Vinte minutos de entrevista de Mário Crespo a Lobo Antunes, à qual cheguei através do Corta-Fitas. Não simpatizo com o homem, nunca me entusiasmou a obra. Depois, aquele tom de profundidade ferida pela obrigação da comunicação - não aceitasse dar entrevistas ! - o desdém por outros que não fica bem a ninguém, prova de imodéstia e, sobretudo o ar, a pose, o tom de voz de quem julga estar um cinzelador a marcar na pedra da eternidade as enfastiadas palavras que o microfone suporta. Ouvi-lo é como ver um filme português: uma lassidão paralizante invade-me a cabeça, um torpor soporífero chama-me à almofada. É a tristeza, a falta de fibra e elã, um desfiar de estudados tiques intimistas que são o espelho do viver sem nada para viver em que a generalidade dos chamados intelectuais mergulha. Depois, o ar reverente, de quase adoração do interlocutor. Já vi essa pose envergonha noutros jornalistas perante os santarrões das letras, chamem-se Agustina ou Saramago. Não tenho paciência para tristezas fingidas, para cinzentos e suspiros de estúdio. Tão longe de Portugal, só encontro razões para ver nessa aristocracia das letras caseiras a narcotização dos meus compatriotas e compreender o manto de pessimismo que os mina, atirandos para os futebóis e para as telenovelas. Os intelectuais portugueses são, de facto, inimigos da cultura, do entusiasmo e da elementar curiosidade humana. Ali estão, distantes e fingidos, fazendo-se adorar e semeando o deserto.

4 comentários:

NanBanJin disse...

Como dele (Lobo Antunes) dizia há uns tempos Baptista-Bastos, numa entrevista no PÚBLICO: "É um armário de adjectivos."

Pedro Coimbra disse...

Este, e o Saramago ainda mais, fazem-me sempre ter vontade de assumir a expressão do William Hurt em The Big Chill quando dizia a Jeff Goldbblum - "You're so deep!"

Nuno Castelo-Branco disse...

É que por sinal, eles "pensam" que não são portugueses. O problema é que são-no ao cubo!

dorean paxorales disse...

sugiro-lhe assistir à prestação do escritor na new york public library. julgo poder encontrar-se algures no youtube.

sem mais comentários.

cumps,
dp