13 fevereiro 2010

Joseph Goebbels: o homem do inimaginável


De Toby Thacker, Joseph Goebbels : life and death, acabado de sair, excede o género biográfico e é um estudo surpreendente sobre as relações entre o sagrado e o político, o poder de sedução da mentira, a necessidade psicológica do logro voluntário e o triunfo da ficção. Goebbels foi o génio do inimaginável, jogou sempre na mais atrevida iniciativa, criou evidências, explorou o inesperado, transformou pequenos nadas em grandes revelações, polarizou afectos e ódios como jamais alguém o fizera, tornou o complexo acessível ao vendedor de cautelas, convertendo a Filosofia, a Arte, o Direito, a Antropologia e a Biologia em temas de conversa de donas de casa na fila para o pão e para o leite. Goebbels é o verdadeiro intelectual; logo, o anti-pensador, o homem que não problematiza, o homem que não sente inibição em decompor as mais complexas questões numa frase para mural, numa palavra de ordem ou num incendiário editorial. Goebbels não foi apenas um nazi: poderia ter sido liberal, conservador, socialista ou comunista, pois o que avulta no seu singularíssimo estilo é a criação de uma técnica que se pode aplicar indiferentemente do conteúdo. Goebbels é o homem moderno: tecnologia, condicionamento, repetição seguida de mudança súbita, vibração da palavra e encantamento. Nele, tudo é velocidade, ritmo e mudança que impedem paragem e reflexão. Aquilo que hoje faz da política um espectáculo, Goebbels legislou-o, pelo que pouco ou nada do que os governos e os grandes agentes de comunicação fazem acrescenta uma vírgula àquilo que fez durante os seis anos em que preparou a Alemanha para uma guerra e durante os seis anos de guerra em que fez crer que a Alemanha sairia vencedora de uma contenda antecipadamente perdida. No fundo, é o Maquiavel do nosso tempo. Em política, tudo vale, pois não havendo fim teleológico algum na conquista e preservação do poder, o que ontem se disse constituir o mais inegociável valor acabou ontem e hoje há uma nova verdade.

Depois, a alegria artificial, o afago, o assédio das pessoas, estejam em casa a ouvir o rádio, no cinema ou na sala de espectáculos, na rua passeando o cão, no escritório ou na loja. A propaganda está em todo o lado e se a campanha for "os marcianos estão vigiar-nos", pela tardinha haverá centenas de denúncias de bons e leais cidadãos afirmando terem visto o vizinho do lado em estranhas movimentações. Amanhã, uma nova campanha poderá ser "aliemo-nos aos marcianos, pois os venusianos estão a preparar um ataque". Goebbels não morreu em 1945. Abram a televisão, folheiem os jornais e lá o encontrarão.A generalidade das pessoas prefere a mentira à verdade, o mal ao bem, o poemeco ao prosaico, as lágrimas ao sorriso, a difamação ao elogio de outrém. Quanto pior, melhor; só assim se sentem seguras e reconfortadas na mediocridade.


Leb wohl Irene

6 comentários:

MFerrer disse...

Convido-te a reproduzir e a assinar este Manifesto em defesa da Democracia e do PS :
http://www.peticaopublica.com/?pi=P2010N1319
Quem está preocupado com estas desgraçadas cumplicidades da direita trauliteira com a esquerda irreesponsável, tem o dever de tomar partido e de se manifestar!

José Ricardo Costa disse...

Excelente post.
Daí o totalitarismo ser muito mais do que um mero regime identificável no espaço e no tempo, seja de esquerda, seja de direita. O totalitarismo é uma pulsão inerente à natureza humana. Daí que a luta contra tal pulsão deva ser constante e veemente, ainda que vivamos formalmente em democracia.
JR

Carlos Pires disse...

A maior parte das pessoas parece ter - metaforicamente falando - saudades do ano de 1984...p

Marcia disse...

Parece que não passamos mesmo de um acidente(mutante)no que diz respeito à evolução.

Pedro Leite Ribeiro disse...

Também simpatizo com as petições para salvar espécies e habitats em risco de extinção. Por exemplo, esta para salvar o Rio Marateca é uma das minhas favoritas. Penso que, verificada a quantidade de pessoas que gostam de assinar petições, seria talvez boa ideia fundar o Partido Peticionista Português (PPP). Afinal, três P's é bem capaz de ser melhor que dois.

JNAS disse...

Poderoso como sempre