18 fevereiro 2010

Exaustos, já sem a azeitona e a cortiça


Aquilo que caracteriza os portugueses neste fim de década é a exaustão. Depois de quarenta anos de caprinas exaltações, nervos à flor da pele, objectivos jamais alcançados, rios de teoria - ah, como somos bons nas abstrações, no poetar e na filosofice sem dabedoria - descobrimos que não demos um só passo consequente, que tudo foram palavras mascarando fantasias e fantasias mascarando inconfessáveis interesses, bem comezinhos, de conforto, promoção de mediocridades, apossamento e potlatch. Ao longo desses trinta e três anos que por aí vivi, assisti ao desfile interminável de homens do destino, de grandes estadistas, grandes ideias e programas, cada um acenando com a promessa da próxima vinda do "país novo", do "tempo novo", do "agora é que é". O país mudou, sim senhor: tornou-se mais provinciano, mais pequeno, mais medroso, mais alienado, mais dependente. O comportamento dos portugueses sofreu, também, uma metamorfose: irritabilidade, desconfiança, maledicência, inveja, impotência. Depois, o poder das baratas - baratas para todos os gostos - trepando, impondo a sua visão do mundo e de um Portugal reduzido à dimensão das baratas. Vi tudo isso. Assisti à morte daquela brilhante geração nascida nos anos 20, à sua substituição pela geração nascida nos anos 40 - aquela que dizia poder fazer do país uma Suécia e nos deixou atrás do Chipre - e, depois, ao triunfo da "Geração Rasca" que, helás, aí está para mandar. Foi como se tudo sofresse encolhimento, uma redução de escala: pessoas pequenas tiranizando pessoas pequeníssimas, ideias pequenas manipulando aspirações miniaturais embaladas no celofane das europas, das cidadanias, do Estado de Direito, dos rendimentos mínimos garantidos, mais a crendice das "novas tecnologias", das inovações e das novas oportunidades. A tecnocracia só podia trazer disto a um país que se regera sempre pelo princípio da hierarquia, da cadeia do comando e da necessidade de uma elite que nascera com a cultura de mandar. Isso perdeu-se. Brincávamos, em 1975, com a perspectiva de ver um grande território como Moçambique submetido a um auxiliar de enfermagem. No fundo, nós estávamos condenados ao mesmo. Quem em nós passou a mandar foram os auxiliares de tudo e mais alguma coisa. Agora, há que pagar a factura, mas já sem a azeitona e a cortiça que foram o nosso petróleo e o nosso ouro.Tirem-nos deste filme de horror !


Thin Red Line

5 comentários:

Manuel Brás disse...

Então, vamos lá poetar...

É tamanha a exaustão
de um povo definhado,
reduzindo a combustão
do fado estremunhado.

Mascarando fantasias
com palavras fervorosas
brotaram tais agnosias
de sequelas sulfurosas.

A caótica fugacidade
do carrossel de ocorrências
circula a tal velocidade
agravando as decorrências.

Este processo erosivo
dos nossos modelos sociais
é um turbilhão abrasivo
para ilusões demenciais.

Epílogo (um pouco de esperança)

A participação assertiva
da cidadania esclarecida
é uma prescrição efectiva
que deve ser mais enaltecida.

José disse...

Triste, mas verdadeiro.
Assino por baixo.

Nuno Castelo-Branco disse...

O pior é que ninguém conseguirá tirar-nos disto. A Europa ajuda-os.

Levy disse...

Viver aqui é uma violência. Em tudo.

Maria disse...

Verdades como punhais estas que escreveu. Era preciso que quem finge que manda no país interiorizasse estas suas sábias palavras, mas não, eles nem as lêem nem sequer querem ouvir falar delas. Eles entretetêm-se com mega corrupções, traficâncias, escândalos de vária ordem, jogos sujos de gabinete... e tudo isto feito pràticamente às claras, já nem se dignam fazê-lo no recado dos gabinetes mas à vista do povo, que, completamente impotente porque atado de pés e mãos (eles sabiam perfeitamente o que faziam quando cá meteram as patas), nada pode fazer para travar este nosso caminhar para o abismo. Pobre Portugal que tão grande e orgulhoso foi como país e hoje sofre duma doença terrível e incurável - uma tristeza infinita que se traduz numa depressão profunda dum povo inteiro e que nos vai consumindo lentamente sem que nada possamos fazer para a travar - que nos atinge cada vez mais profundamente no corpo e na alma.
A não se abater nenhum cataclismo sobre Portugal e Deus nos proteja de tal horror, tem que forçosamente haver qualquer outra coisa poderosa o suficiente ou pessoa valorosa - Portugal é grande demais para que tal não aconteça e há milhões de portugueses valentes por aí infelizmente ainda não suficientemente despertos para a luta urgente que é imperioso travar-se - com a nobreza e o patriotismo necessários para nos tirar deste terrível atoleiro em que estamos mrgulhados. Assim Deus o queira e nos ajude com a urgência requerida. Estou certa que esse dia chegará. Quando é que é uma verdadeira incógnita, mas que ele chegará, disso podemos estar certos.
Maria