01 fevereiro 2010

Espalhar mentiras sobre reis


O padre Vicenzo Sangermano da Arpino foi um missionário italiano barnabita de Milão que na Birmânia desenvolveu apostulado entre 1783 e 1806. Ao regressar à Europa, deixou para a posteridade uma importante obra intitulada Relazione del regno Barmano (1833), que permanceu durante quase um século como referência obrigatória para o conhecimento da cultura, instituições e vida política birmanesas dos séculos XVII e XVIII. Desta, li a versão inglesa de 1893 intitulada The Burmese Empire a Hundred Years ago, há poucos anos reeditada e que é merecedora de estudo atento. O padre Sangermano era um erudito e, para mais, conhecia em profundidade a língua birmanesa, sendo o seu livro um belíssimo sumário sobre cosmologia, cosmografia, antropologia e sociologia do velho Reino de Ava. Ora, os barnabitas dependiam da Congregação da Propaganda Fide e desta receberam importantes tarefas de evangelização na China e na Birmânia, tendo como parceiros a Société des Missions Étrangères de Paris, irredutível adversária do Padroado Português. Na Ásia, italianos e franceses desenvolviam tenaz luta contra os padres portugueses, pelo que desta aliança nasceu grande cumplicidade, troca de informações e até campanhas conjuntas nos corredores do Vaticano.


Os barnabitas, tal como os missionários franceses, possuídos de um fogo de agressiva intolerância, semearam por toda a Ásia atritos com as cortes que lhes haviam dado a devida permissão para a evangelização. Ao contrário dos portugueses, que conheciam os modos e sabiam manobrar sem levantar ódios gratuitos, franceses e italianos chegaram à Ásia sem mudar uma vírgula ao triunfalismo incandescente de Trento, pelo que depressa a benevolência se transmutou em perseguições sistemáticas, da China ao Sião, do Vietname à Birmânia. Quem pagava a dura factura eram, naturalmente, as comunidades católicas já existentes e construídas pelos padres portugueses de Quinhentos e Seiscentos.


Os zelosos padres mostravam-se estupefactos pelas perseguições e tentaram explicá-las como reacção do demónio perante expansão da verdade cristã. No Sião do terceiro quartel do século XVIII, o embate entre as autoridades e os padres franceses teve consequências desastrosas para a Igreja Católica. Contam as crónicas francesas - sobretudo a monumental Histoire génerale de la Société des missions-étrangères (1894), de Adrien Launay - que o então rei siamês, Taksin de seu nome (r. 1767-1782) desenvolvera terrível perseguição aos cristãos. Ora, se perseguições houve contra católicos, estas resumiram-se aos padres franceses, posto que a comunidade católica, quase inteiramente constituída por luso-descendentes continuou a ser acarinhada pelo rei. Taksin, que encontraria morte violenta no rescaldo de um golpe de Estado, tinha a defender o palácio a sua guarda de católicos portugueses. Se, como diziam as más línguas - vide Turpin, Histoire civile et naturelle du Royaume de Siam, et des révolutions qui ont bouleversé cet empire jusqu'en en 1770 - o rei era inimigo da religião católica, por que raio escolhera como guarda-costas homens dessa religião ? Depois, escreveram as mais mirabolantes estórias. Disseram, entre outras, que Taksin exigia ser adorado como um deus, que mandara matar muitos monges budistas que se haviam recusado prestar-lhe homenagem devida ao Buda, que dizia poder voar e tornar-se invisível. Todas essas histórias, de tão repetidas, acabaram por convencer os cronistas siameses de finais de Oitocentos. As crónicas tailandesas foram, como é sabido, despojadas de todo o manto de milagres, acontecimentos sobrenaturais e batalhas de anjos e convertidas, em finais do século XIX, graças à influência da historiografia ocidental, em enumeração de acontecimentos ocorridos em cada reinado. Como lhes faltava documentação, foram buscá-la aos historiadores franceses italianos.


Estava a ler a obra de Sangermano quando, sem dar por isso, parei. Reli a passagem e espantei. Escreveu Sangermano que o Rei Bodawpaya (r. 1781-1819) "se afirmava superior a Buda, que tentou persuadir os monges [budistas] que os cinco mil anos atribuídos à observância da Lei de Godama [Gautama = Buda] haviam terminado e que ele mesmo [o Rei] seria o Deus que aparecera após o fim da era de Buda". Sem tirar nem por o que Turpin escrevera sobre Taksin e o que Launay repetiria na sua História das Missões. É estranho e a coincidência é, no mínimo, chocante. O mesmo argumento sobre a "loucura" dos reis siamês e birmanês, por coincidência homens que reinaram no mesmo período e que conheceram atritos com as missões tuteladas pela Propaganda. Afinal, parece que o odioso não pertencia nem ao Rei Bodawpaya nem ao Rei Taksin, que eram inimigos mortais, mas a um método de evangelização que cometia os mesmos erros por todo o lado onde se impunha ao velho, suave e inteligente método português de conquistar o coração dos reis e garantir a protecção e a paz às comunidades católicas.

3 comentários:

Fogo disse...

Parabéns pelo Blog.

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Está de volta!

Nuno Castelo-Branco disse...

Ainda ontem e em Lisboa, ouvi todo o tipo de disparates sobre o rei D. Carlos, a rainha e o regime de 1908. Há coisas que não mudam. O que interessa é incensar Jimmy's Carters, Bush's, Obamas e outras nulidades do género.

NanBanJin disse...

Estranhas animosidades, estas, entre arautos da Fé e núncios apostólicos na Ásia d'outrora...

Hoje, e lendo Charles Boxer, "The Christian Century In Japan — 1549-1650", na parte que se refere ao célebre "incidente do San Felipe" em 1596 — que seria um dos mais graves de vários 'mal-entendidos' entre os NanBan e os Shogunatos quer de Hideyoshi, quer dos Tokugawa —, não pude deixar de notar que afinal tudo se deveu à hostilidade inter-missões, e isto porque o capitão Espanhol do San Felipe, persuadido nesse sentido por um certo Frei Pedro Bautista, primaz dos Franciscanos Espanhóis em Kyoto, rejeitou a generosa oferta de mediação do conflito que o opunha ao Daimyo de Tosa, que lhe fora apresentada pelos Jesuítas Portugueses — homens muito mais credenciados e experientes no uso da língua local e bem familiarizados com o protocolo e procedimentos adequados junto da corte do Shogun (e lembremo-nos que, à época, ambos os povos e ordens eclesiásticas estavam sob a égide da mesma corôa Filipina...).
No século XVI, e no Japão, estas quesílias entre clérigos, até seriam relativamente simples de entender.
No Sudeste Asiático de oitocentos, custa a crer que ainda houvesse hostilidades desta monta.
E eu continuo sem lhes entender o porquê...

Abraço do Japão,
NBJ.