04 fevereiro 2010

Desolação


Uma longa tarde de trabalho na companhia de um alemão, já septuagenário, cheio de verve, raciocínio sem adamascados, pragmático e carré como um relógio. A conversa percorreu caminhos vários e abordou-se, como não podia deixar de ser, o drama da Europa, das suas fragilidades, medos, egoísmos pequenos como ervilhas, manias e sufocante vaidade. O afundamento do Ocidente é um facto, mesmo que teimemos em cobrir a decadência com decentes perorações sobre diálogos inter-civilizacionais, globalizações "societárias" e "permutas" culturais. Lembrou-me, e bem, que a tragédia europeia é humana. Onde antes havia Escola - e na Universidade só entrava quem fazia em pleno as condições da Escola; a capacidade de raciocinar, o saber pensar e formalizar um discurso, o domínio das grandes línguas que foram berço daquilo a que hoje chamamos a tradição intelectual ocidental - hoje há gente, muita gente exibindo títulos que são um insulto a quem os detém e uma sentença de morte na credibilidade de quem os atribui.

Disse-me que a Alemanha está perdida, que do velho prussianismo já pouco ou nada resta, que da ordem, do culto do trabalho e da respeitabilidade outrora obtidos pelo esforço já só subsistem migalhas. Vivemos em preiamar do multitudinarismo, somos todos iguais, já não há regimentos que protejam as instituições que fizeram o orgulho e a força da Europa, tudo está contaminado pela preguiça, pelo trepadorismo e pela cobiça. Em suma, foi o que deu a colonização cultural americana. Ao chegar a casa, um mail do Nuno, perguntando-me se conhecia um texto, recentemente publicado, que versa, precisamente, o desaparecimento da Europa nos palcos das grandes negociações.


Como a devida vénia ao Nuno, transcrevo o diagnóstico que faz, com o maior acerto e clareza, sobre este lento apagar da Europa, o qual subscrevo sem retirar uma vírgula.

"É verdade e isso tem muito a ver com a falta de capacidade de respostas que o sistema político/social em que vive a Europa é capaz de dar. O advento e importância dos media tudo mudou. Hoje em dia quem transmite ideias é o YouTube, quem faz opinion makers é a CNN, quem dá instrução às crianças é a Playstation ou o Google, a resposta para todas as questões. Os livros, as tertúlias, as sãs discussões não existem mais. O sistema onde vivemos não conseguiu encontrar nenhuma resposta para lidar com esta nova realidade e continuamos a viver os ideias da revolução francesa "Liberté,Egalité, Fraternité" sem que saibamos o que isso significa no Mundo actual. Passado o tempo da Guerra Fria, quando a Europa, vivendo no meio do "conflito" ganhava de ambos os lados e conseguia ainda estar à tona, agora, temos pouco. Nem os "valores" da história nem o pragmatismo das sociedades rejuvesnecidas como as Asiáticas ou os outros do BRIIC. Pior que tudo não há filósofos a levar a sério as discussões sobre o "sistema político/social" revisitando a Democracia e elaborando a partir de aí."

Hoje foi um dia em cheio daquele são pessismismo que nos leva a despetar da letargia.

1 comentário:

NanBanJin disse...

Pois é bem verdade, meu Caro Miguel, e bem sabe como eu partilho desse azedume que refere em face deste nosso tempo d'agora.
Mas não é só da Europa: este mais-que-asiático Japão que me acolhe vai acusando, como todos bem sabemos, os mesmíssimos sinais de decrepitude de há várias gerações a esta parte — o elemento político-histórico: o adeus às armas e às tentações expansionistas, o fim da velha ordem imperial e o advento da tecnocracia dos gabinetes; o elemento demográfico: população sobre-envelhecida, declínio acentuado da natalidade, uma tendência crescente e notória entre os mais novos para desconsiderarem projectos de constituir família; o elemento económico: um clima de apreensão generalizada face ao que o futuro eventualmente reserve e isto num país sobre-industrializado e a viver no mais obsceno excesso de abundância consumista; o elemento cultural: uma lenta e agonizante erosão dos valores tradicionais que durante séculos foram as fundações e os pilares de toda uma identidade comum, nacional, civilizacional e espiritual; a alienação e a "parvalhização" (como o Miguel tão bem usa este termo) a entrar por todas as brechas da existência individual e colectiva desta gente...

E eu dou por mim a pensar, naquele velho e gasto "cliché" à la Oswald Spengler, de que tudo isto nos remete invariavelmente para a imagem recorrente dessas nobrezas guerreiras que, chegados os tempos de paz 'perpétua' e apeados de seus cavalhos de batalha, davam lugar a novas aristocracias palacianas, entregues ao gozo de seus espólios, ociosas, propensas ao hedonismo e ao mais degenerado laxismo face a tudo em seu redor — destinadas a decair e desaparecer na mais infame ruína.

Mas depois penso nessa velha e sempre-pronta "arma de arremesso lógica", como um velho amigo meu lhe chamava, que é essa Dialéctica Hegeliana que a todos serve: certamente desta lenta derrocada de uma certa 'civilização', efeito do somatório de forças que a derrogam, algo de novo nascerá; não sabemos ao certo o quê - provavelmente jamais saberemos, por não podermos viver o tempo necessário para o ver - mas ainda assim, algo que poderá ser inteiramente distinto daquilo que as piores profecias pudessem agoirar...

De Kyushu,
NBJ