09 fevereiro 2010

De uma África morta


Hailé Selassie, "Poder da Trindade", herdeiro de uma linhagem de reis divinos, descendente de Salomão e da rainha do Sabá, Leão de Judá, Rei dos Reis e Imperador da Etiópia, o único africano que foi olhado de igual para igual pelos estadistas ocidentais e terminou os seus dias numa cela, continua após a morte a concitar a atenção de muitos amantes da história africana e, até, receber culto tributado aos deuses. Um professor da Universidade de Chulalongkorn recomendou-me uma biografia, a todos os títulos imprevista, desse esfíngico líder que se adornou com todos os atavios de um monarca da Antiguidade para executar uma revolução sem precedentes na África moderna. Referiu-me o meu amigo a estranha coincidência entre Hailé e Rama V do Sião, edificadores do Estado moderno, criadores da cidadania e da igualdade perante a lei, erradicadores da escravatura, outorgadores de personalidade jurídica às mulheres e abolidores da tortura, mercê do exercício pleno e ilimitado de um poder que reclamavam outorgado pelo Altíssimo. Foram, em vida, senhores com poder de vida e morte sobre os seus súbditos. Após a morte, continuam a ser chorados e lembrados como libertadores, apontados como exemplo do governantes justos. A biografia intelectual de Hailé Selassie, de Paulos Milkias, não é um panegírico, mas estudo erudito e profundo sobre o percurso de um homem nascido numa das mais remotas e pobres regiões do planeta que fez da sua coroa um poderoso agente de transformação social e libertação. Por detrás de Hailé estava uma grande vontade animada pela antiga crença messiânica que anunciava a vinda de um grande rei, mas também um homem de gabinete, informado, curioso, grande leitor e seguidor atento de todas as mudanças que se operavam no mundo seu contemporâneo. Com o passamento de Hailé, a África, digamo-lo com sinceridade, nunca mais foi olhada com respeito, excepção feita a Mandela.
Revendo o velho Leão de Judá (em baixo) reconhecemos quanto a África perdeu na corrida para a modernidade fracassada.

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Foi um grande homem e com o Xá, o último libertador de tiranias várias.