17 fevereiro 2010

66: o dia em que mataram o espírito da Europa

A Europa não morreu num dia: foi sangrando ao longo daqueles quatro anos e meio que precederam a morte ritual que ontem cumpriu o cabalístico 66º aniversário. Naquela manhã, o mosteiro de Cassino, que fora o último altar de Apolo antes de se transformar na glória do monasticismo ocidental e da reconquista da potência do espírito sobre a bruta força da barbárie que destruíra a civilização latina, desapareceu sob uma chuva de bombas. Em Varsóvia, Roterdão, Londres, Hamburgo, Berlim, Hanôver, Frankfurt, as bombas romperam ruas, arrasaram prédios, bibliotecas, museus, hospitais e fábricas, queimaram gente viva refugiada em cisternas e tunéis; uma guerra total - a primeira guerra integral onde não contava o direito da guerra, a separação entre frente e rectaguarda, a distinção entre militares e civis - feita contra as pessoas, os seus objectos, afectos e meios de subsistência. Nas batalhas do Leste, choque entre as duas "causas sagradas" do nazismo e do comunismo - duas formas do mesmo gene, como lembra Besancon - perdera-se em definitivo a velha ideia medieval que lembrava serem os inimigos, os prisioneiros e os feridos portadores de direitos. No Arquipélago de Hitler, em tudo análogo ao Gulague, a tecnologia do absurdo, no conforto da racional assepsia dos gabinetes de gestão, com os seus arquivos, horários de comboios, pontualidade, método e logística irrepreensíveis, a aplicação da morte passou a ser entendida como uma forma de produção.

A morte de Cassino foi mais, muito mais que isso. Foi a confirmação que o mundo ocidental se preparava para abandonar o palco da história, que os fundamentos mais sólidos da Europa se quebravam e que não mais se poderia voltar atrás. Foi, em tudo, um crime perpetrado com o mais insensível e grosseiro praticismo aprendido nas academias militares: meios, objectivo, acção.

Era como se os alemães se tivessem entrincheirado na Acrópole ateniense, na Praça de S. Pedro, na Biblioteca de Paris ou na Pinacoteca de Munique e alguém, indiferente ao valor patrimonial daqueles lugares, não vacilasse um segundo que fosse na emissão da ordem de extermínio. Há quem diga que o espírito a tudo sobreleva. Mentira, o espírito também morre. Morreu ali, naquela manhã o espírito do Ocidente. O que ficou ? Muito pouco no meio da abundância de mercados, consumo e dessa "felicidade" que termina onde se levantam as grandes e eternas questões que assaltam qualquer homem.

1 comentário:

NanBanJin disse...

Em nada diminuindo o patente valor simbólico que o Miguel reconhece a esta tragédia da História, é sabido que no decurso dos quinze séculos desde a sua fundação, entre assaltos de Lombardos, Sarracenos e Normandos, e somando-lhes o ímpeto 'libertador' da "Grande Armée" de Buonaparte, a Abadia de Montecassino foi violada e saqueada inúmeras vezes.

Consta também, que nesse Inverno de 1943-44, alguém de entre a líderança da Wehrmacht teve a sensibilidade ou o bom senso de providenciar pela evacuação do extraordinário espólio patriomanial daquele mosteiro Beneditino e pô-lo a salvo do fogo e destruição que se avizinhavam, seguindo aliás, o exemplo de tamanha presença de espírito, já antes revelada por um certo Jopep Renau que organizara, por seu turno, a evacuação do Prado, em Madrid, aquando dos bombardeamentos de Novembro de '36.

É caso para recordar, que mesmo na mais escura das noites parece haver ainda e sempre uma tenaz luz crepuscular que teima em acudir aos náufragos da civilização.

Um forte abraço do Japão,
NBJ