30 janeiro 2010

Um caso de polícia na Banguecoque de 1881


Joaquim Santana Calvário vivia am Banguecoque, bem perto da então chamada Thanon Mày (Avenida Nova), vulgarmente referida pelos estrangeiros como New Road (Charoen Krung para os thais). A zona, centro comercial e de negócios, com as suas casas em estilo colonial nas elaboradas versões neo-clássica, neo-renascentista ou até sino-portuguesa, era o símbolo daquilo a que Rama V, rei do Sião, gostava de enfatizar como a marcha do país para a ciwiláy ("civilização). Percorrendo-a hoje, não podemos deixar de estabelecer associação com as ruas da velha Singapura: traçado ortogonal, edifícios de dois ou três pisos com lojas e escritórios no piso térreo, toldos projectados sobre os passeios empedrados, consultórios médicos e escritórios de advocacia no primeiro andar, último piso destinado a habitação. A New Road era a cidade europeia. Ali se faziam negócios, localizavam-se os selectos clubes para os europeus, os teatros e restaurantes caros, os jornais em língua inglesa e os bancos.


A nascente burguesia thai, saída do alto funcionalismo, mas também os velhos aristocratas e os ricaços chineses (jáo sua) foram-se lentamente agregando aos farang, com eles estabelecendo lucrativas negociatas, criando redes de influência no seio do Estado, manobrando por autorizações, solicitando favores pagos e dividindo os enormes lucros que o import-export proporcionava. Ali se compravam e vendiam as madeiras raras, as pedras preciosas, se obtinham as autorizações para o comércio das espirituosas e do ópio, se compravam passaportes para os protegidos. Estrangeiro com ambições que quisesse enriquecer sem contrariedades pousava obrigatoriamente nesse formigueiro de homens expeditos dominados pela febre do dinheiro. Ali, tudo se comprava, vendia e negociava. Quem queria manter o seu status numa sociedade em mudança acelerada, oferecia o nome de família, os conhecimentos na corte, as habilidades que estão antes de qualquer lei escrita. Para quem queria fazer nome, pagava ao sangue azul empobrecido, ganhava a respeitabilidade de Sir ou Mister almoçando e fazendo negócios com príncipes da parentela real, com os nobres semi-hereditários, com os altos dirigentes dos ministérios ou com os multimilionários chineses que dominavam o Sião urbano.


Joaquim Santana Calvário era cidadão português. Os seus fartos cabedais conferiam-lhe notoriedade e à sua mesa sentavam-se muitos siameses de alta sociedade. O nosso Joaquim devia ser generoso e um mãos-largas, pois a ele recorriam insistentemente com propostas de negócios os Luang (equivalente a visconde) e os Nay (barões) que havia algumas décadas tinham substituído as funções "feudais" de condutores de homens pelas escrivaninhas dos corredores do Estado. Um destes Luang, de seu nome Ariyotha, em permanentes apertos financeiros, congeminou com dois Nay um arrojado golpe: extorquir por atacado ao crédulo português tudo o que este tinha acumulado ao longo dos anos e apagar o registo de calotes passados.


Convidaram-no para um jantar no chalet de Luang Ariyotha. O português chegou, mas em vez do prometido repasto, foi manietado, amarrado e raptado pelos três notáveis. Ali esteve dois dias submetido às mais duras violências. O caso era antigo. Luang Ariyotha devia uma importante soma a Joaquim, mas ia protelando o pagamento da dívida. Para além de dinheiro, pedira-lhe um escritório, fizera-o fiador para compras astronómicas e nunca pagara por qualquer destes favores de amigo. Talvez fosse melhor assustá-lo e obrigá-lo a renunciar a qualquer reclamação. O rapto fez brado, pos Joaquim conseguiu desembaraçar-se do cárcere privativo e fugiu para o Consulado Português, ali apresentando, escudado na extraterritorialidade, o caso às autoridades siamesas.


Luang Ariyotha foi detido, bem como os seus cúmplices, mas uma ordem de soltura sob fiança - possivelmente decretada por um juíz amigo - transformou um caso de esquadra de polícia num complexo processo judicial. Infelizmente, o processo perdeu-se, pois o não nos foi possível apurar o fim da história. Naturalmente, Joaquim jamais terá sido ressarcido pelos danos morais e patrimoniais sofridos e o astuto Luang e seus amigos Nay terão continuado inimputáveis por mais uns bons e largos anos de habilidades.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Muito interessante seria, se coligisses estes episódios num livro. Podem ser histórias perfeitamente autónomas, sem ligação directa entre si, a não ser a portugalidade. Sucesso editorial, de certeza e um belo serviço a Portugal e ao Rei!

adsensum disse...

Eu compro.