20 janeiro 2010

Trabalhão para os dentistas: coisas que me intrigam

Não sei se a moda germinou nos salões de literatos do século XVIII, se foi invenção dos daguerreotipistas de Oitocentos ou dos assíduos dos cafés filosóficos da Rive Gauche, mas a verdade é que qualquer bípede implume que queira inspirar respeito intelectual não tira foto sem a mãozinha a amparar o tremendo peso da massa encefálica. Homem que o não faça, não pode acolher pensamento. Distraidamente folheava uma enciclopédia quando me dei conta que, página sim, página sim, todos os vultos se apresentavam perante a posteridade na enigmática pose pensativa. Ora, cada um pensa como pode; eu até penso na banheira ou a fazer haltéres, ou mesmo em situações que a reserva púdica me inibe de confessar. É um cliché que se terá democratizado com a fotografia. E ficou. O homem é um animal bem pouco estocástico. A programação leva-o a imitar, sobretudo aquilo que, de tanto repetido, surge como uma graça.

De Proust a Margarida Rebelo Pinto, a pragmática pose literária. Ao terminar estas linhas, mostrei as fotos a uma amiga tailandesa, visita de casa. Olhou para as fotos e sentenciou: "
บางทีคนนี้ต้องไป หมอ ฟัน" = Bangthíi khun ní tongkan pay há móó fân" (talvez esta gente precise de ir ao dentista). Enfim, como dizia a D.ª Flávia, que era nossa porteira: "esses senhores devem ter um óbsexo qualquer".

5 comentários:

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Olha que a postura da Margarida é tão estudada que não parece ser uma mera obra da vaidade. Já reparou que a Margarida está a formar um triângulo?
Onde andará a aprender estes sinais? Ninguém é promovido ao acaso...

Nuno Castelo-Branco disse...

Surge-me logo a imagem do Eça.

NanBanJin disse...

Realmente... vendo bem... é espantoso.
Agora, como que tomando este artigo por desafio, e fazendo uma pesquisazinha... parece realmente tratar-se de uma tendência que começa, no Ocidente, com o Romantismo.
Assim como quem não quer a coisa, puz-me a googlear imagens e vejamos os resultados
(sem atender a outro critério que um pouco de memória enciclopédica, a segurar a cabeça encontrei):
Chatterton - precocemente saturado da vida - e Lord Byron, William Makepeace Thackeray, apesar daquela fronha sisuda de quem viveu tudo até aos trinta, parece nunca se ter deixado retratar a amparar a cachimónia, e ficamo-nos por Inglaterra.
Dos Franceses parece vir a confirmação da importância desta pose intemporal: de Maupassant a Rimbaud todos sonham de cabeça assente no punho, mas Victor Hugo é de longe o rei das dôres de cabeça: quase não se lhe encontra um retrato sem a pose dessa eterna fadiga - O Paul Eluard parece tê-lo imitado -; Antonin Artaud, da minha parte, recebe o benefício da dúvida, porque sofria mesmo de dôres de cabeça crónicas.
Na Itália parecem ter dado ainda maior realce à pose e são quase todos - dos que me ocorrem e a busca no Google confirma: D'Annunzio, claro, Pirandello, Marinetti, Curzio Malaparte, Pasolini, Alberto Moravia, tudo de mão na môna...
Dos Alemães encontrei Schiller e Nietzsche e pouco mais - parece que na segunda metade do século XIX ninguém queria ser visto nessa pose indolente, quiçá demasiado parisience para o gosto germânico da época - ah! mas na minha demanda de retratos encontrei este Marx & Engels em LEGO muito engraçados:

http://knackeredhack.com/wp-content/uploads/2007/12/marx-and-engels.jpg

Na Rússia só a Blavatsky, mas quer-me parecer que a pose era mesmo estudada, com propósitos bem delineados.
Na América, uns quantos: Jack London, E.E. Cummings, o Faulkner é mais do clube do cachimbo - junto com o Sartre e o David Mourão Ferreira - o Ezra Pound não, nem na Itália o apanharam de bochecha no punho; o Norman Mailer dois ou três retratos e até o Stephen King...
No Japão - país dos verdadeiros escritores suicidários (não, não é a Rússia, é o Japão!...) - a dada altura parecem copiar todos o tique: Natsume Soseki - o seu retrato mais reproduzido tem o tique -; Osamu Dazai - com o tique, sempre cansado da vida e que ao fim de três ou quatro tentativas lá conseguiu finar-se -, Tanizaki, pelo menos um retrato com o tique, Kawabata, como não podia deixar de ser também de deixou captar pela camera com o tique; só o Mishima escapa (e de não a segurar lá perdeu a cabeça, à la Robespierre).

De Espanha, e com o tique no retrato, lá encontramos o Juan Ramón Jimenez, Ramiro de Maeztu na capa da sua "Defensa de La Hispanidad", Ortega Y Gasset, imensos retratos, até o García Lorca se fez retratar com a mãozinha na bochecha.
Na América Latina, à excepção de Jorge Luis Borges, têm todos o tique, de Jorge Amado a Octávio Paz...
No nosso Portugal, além da Margarida Rebelo Pinto, dei, pelo menos, com o Eça, o Fernando Namora, o Jorge de Sena, a Agustina, o Alçada Baptista, o Miguel Sousa Tavares...


E a lista nunca mais acabava... Até a J.K. Rowling...
E ainda há o "clube do cachimbo" e o "clube do cigarrinho ao canto da bôca" (Camus, o Beckett, Drieu La Rochelle, etc.)...

Arquivista disse...

(Proust e Margarida Rebelo Pinto no mesmo parágrafo? Não me parece bem... ;) )

Este hábito de representar o artista com a mão a amparar a cabeça é por sinal bastante anterior ao romantismo; dois exemplos famosos do séc. XVI: o retrato de Heráclito na "Escola de Atenas", de Rafael, e a "Melancolia", de Dürer.
Tanto quanto li num ensaio de Panofsky, precisamente sobre Dürer, esta pose constituía um símbolo da "melancolia imaginativa" a que os primeiros humanistas atribuíam a criação artística. O que é certo é que a pose foi ficando na tradição literária como a imagem do artista à espera do momento de inspiração. Daí até à sua massificação com o aparecimento da fotografia, foi só um passo.


Já agora (é a primeira vez que comento aqui), gostaria de dar os parabéns ao Miguel pelo seu blogue. :)

M Isabel G disse...

Também eu:
http://misspearls.blogspot.com/2007/02/uma-questo-de-nervos.html