24 janeiro 2010

Perguntas impertinentes sem resposta


- O que andámos a fazer com os milhares de milhões entrados a fundo perdido durante quase vinte anos de cornucópia comunitária ?

- Quantos milhares de cursos de formação, linhas de crédito, incentivos, programas de reconversão, reinserção, projectos de dinamização não passaram de cortina de fumo para alimentar a ociosidade, produzir estatísticas, criar lugares que não empregos, socorrer e enriquecer amigos e familiares ?

- Quantas centenas de empresas foram criadas sem outro fito que não o de reproduzir e onerar as despesas de organismos já existentes no Estado e nas autarquias, no desporto, na animação cultural, na assistência social, na construção imobiliária, na conservação e no restauro patrimoniais, em auditorias e assessorias legais, em publicidade e na realização de eventos ?

- Como foi esse oceano de dinheiro distribuído, quem com ele deixou obra perdurável, quantos portugueses não ligados a redes clientelares e de favores, a lóbis e a camarilhas parasitárias foram premiados com tais estímulos, quantos concursos públicos conseguiram escapar à malha da viciação, quantos "ventre ao sol", "pés rapados" ou "povo miúdo" sentiram que lhes era dada a única oportunidade de se libertarem da pobreza ?

- Quantas empresas produtivas, quantas prospecções e minas, quantas fábricas, quantas explorações agrícolas rentáveis, quantos barcos de pesca foram lançados à agua ao longo dessas duas décadas de miragem abundantista ?

- Quantas universidades, institutos e politécnicos privados brotaram como tortulhos em cidades, cidadezinhas, vilas e vilórias, de Trás-os-Montes ao Algarve, produzindo centenas de milhares de licenciados em Sociologia, Línguas e Literaturas, História, Relações Internacionais, Gestão, Direito e Antropologia, quando as necessidades do país eram precisamente as inversas, desfalcando expectativas, promovendo a mediocridade e o semi-analfabetismo, dando doutoramentos, mestrados, cursos de especialização e pós-graduações que valiam tanto como os outrora Diplomas da 4ª Classe ?

- Quantos organismos do Estado continuaram a crescer desmesuradamente, criar lugares e complexificar-se sem outra justificação que o de garantir mais um lugar que qualquer software podia resolver em meia dúzia de minutos ?

- Quantos lugares foram criados para manter as fidelidades partidárias e grupistas, na AR, nas câmaras, nos institutos e fundações, no pagamento de um imposto de regime que lesou profudamente o funcionalismo e o serviço público verdadeiros ?

- Onde estão os hospitais, as maternidades, as creches, as escolas com ar condicionado, caloríferos, cantinas decentes, bibliotecas, laboratórios e pavilhões gimno-desportivos ?

- Quem permitiu que as Câmaras lançassem mão desse empreendedorismo tolo e provinciano que cobriu o país de "pavilhões multiusos", estádios para os futebóis, auditórios e salas para exposições onde nunca se realizam espectáculos, competições, conferências, exposições ?

- Quem permitiu que as forças de segurança do Estado chegassem ao estado terminal de esgotamento, obsolescência e pelintrice, que as esquadras da PSP e postos da GNR se transformassem em tugúrios que nem um banho quente podem oferecer aos agentes da autoridade e as camaratas só encontram paralelo nas celas mais imundas do Limoeiro ?

- Quem transformou as Forças Armadas num monstro macrocéfalo, cheias de generais, brigadeiros e coronéis no topo, sem motoristas, sem oficinas, sem comandantes de esquadra, secção e pelotão na base ?

- Quem permitiu que Lisboa, o Porto e os restantes pólos económicos fossem alvo da mais encarniçada competição pela destruição patrimonial, mutilação estética e erradicação da segurança, pelo desaparecimento do comércio local e em sua substituição se assistisse à explosão de sucursais bancárias, à tributação terrorista sobre o parqueamento automóvel, à evacuação e desertificação humana das baixas ?

- Quem autorizou e estimulou a devastação das regiões circunvizinhas das grandes cidades, quem deu força e meios aos camartelos do pato-bravismo para, em vinte e poucos anos, cobrirem a geografia urbana portuguesa de monstruosidades arquitectónicas, ghettos e enclaves étnicos ?

- Quem deu carta branca a essa chamada iniciativa particular, bem amparada no crédito e conivências políticas para se substituir ao Estado na segurança, no ensino, na saúde, na assistência e na cultura, mas que do Estado recebeu o apoio e incentivo que são a negação do princípio da livre economia ?


São estas as perguntas que dirijo a piedosa mão amiga que me fez chegar um pomposo convite para participar numas quaisquer jornadas de um partido da oposição. Estiveram vinte e tal anos no poder e agora querem fazer crer que chegarão aos umbrais da Terra Prometida, virginalmente puros, para restaurar a confiança do povo que os elegeu e reelegeu repetidamente.

4 comentários:

Manuel Brás disse...

Várias mãos cheias de...

Perguntas impertinentes
cercando anos perdidos
em valores iminentes
de monturos desmedidos.

Tantas cornucópias inacções
e outras tantas indolências,
edificando realizações
de tão penetrantes falências.

Com o verbo maltratado
no discurso político
este saber amarrotado
ganha valor monolítico.

De poleiro em poleiro
num regime enfadado
criou-se um atoleiro
de monturo malfadado.

A cepa retorcida,
com tantas calinadas,
tem sido esvanecida
por mentes iluminadas.

ze disse...

Nem mais!

Nuno Castelo-Branco disse...

Bem podias enviar este post ao palácio de Belém e ao Messias en titre!

Gi disse...

Excelente: é o que perguntamos de facto todos os dias.