03 janeiro 2010

Os umbigos colonialistas

As comunidades ocidentais "expatriadas", como aqui se diz, reunem-se uma ou duas vezes por ano: por altura do Ano Novo e por ocasião das festas nacionais dos países. Há comunidades fortes e influentes, ricas, empreendedoras - dinamarqueses, suecos, alemães, italianos, britânicos - como as há tão discretas e invisíveis que dir-se-ia não existirem. Há aquelas que se unem para patrocinar edições de obras sobre as relações históricas entre o Sião e os seus países de origem, animar exposições de artes, promover encontros e, até, abrirem restaurantes e pub's. Há, finalmente, aquelas que se encontram para matar saudades do idioma e para pôr em dia a má-língua. Dizia-me há tempos um grego, meu companheiro de escola de língua thai, que evitava participar nesses encontros, pois a miniatural confraria dos seus conterrâneos parecia ter-se especializado em dizer mal de tudo o que à Grécia e à Tailândia respeitava.

Os europeus possuem destas coisas. Querem sair da Europa a todo o transe, não gostam do clima frio, das chuvas e das neves, da água gélida das praias, da vida cinzenta, das intrigas do trabalho, das arrelias da política. Contam ansiosamente os meses, as semanas e os dias que precedem as férias de verão para partirem para os trópicos, mas quando se fixam nos trópicos fecham-se nas suas referências e encasulam-se numa blindagem de preconceitos contra a sociedade que os acolheu, ou desgastam-se em estéreis lutas intestinas. Vivem fora, olham de fora, criticam, desprezam, mas gostam de aqui viver. Europeus há aqui que nestas terras vivem há décadas e não falam meia dúzia de palavras em tailandês, não lêem uma linha, nunca entraram num museu, num templo, não sabem o significado dos códigos morais e de etiqueta locais, não passam do bife com batatas fritas e ovo a cavalo. Uma vizinha canadiana teve o atrevimento de se zangar com a sua mulher-a-dias porque esta não compreendera o significado do dia de natal e aparecera, como sempre o faz, para limpar a casa no dia 25 de Dezembro. Outro, suíço, gabou-se ter sobrevivido dez anos com recurso a linguagem gestual.

Inventaram um mundo. O fenómeno não é tailandês; é uma velha tendência colonial que já Roland Meyer, que assinava Komlach, detectara no Camboja do Protectorado Francês dos anos Vinte do século passado: "os brancos sem raízes que amaldiçoam e ignoram o Camboja desde os confins do seu bairro europeu, onde preservam as pueris manias da sua vida dita civilizada". No fundo, querem é criados, passar por grandes senhores, exibir status. O Ocidente só perde, pois nada sabe sobre o Oriente e o que julga saber não passa de fantasias colonialistas.Diverte-me ouvir os colonialistas falarem aos tailandeses de "Lord Buda", quando os thais não sabem o que Buda significa, pois aqui é referido como Phraá. Rio-me das referências que fazem a Luís XIV, a Platão, a Proust, a Degas, a Brecht e ao estilo barroco. Os thais sabem tanto disso como nós de Phra Narai, Sunthorn Phu, Kukrit Pramoj, Vajrayana, o Ramakien, o teatro likay.


Josephine Baker: Ma Tonkinoise (1931)

1 comentário:

NanBanJin disse...

É bem verdade, meu caro Miguel.

Eu próprio, aqui no tão desenvolto, "cool", "up-dated", aplaudido Japão, me deparo com o mesmo aberrante fenómeno.

É sabido, é certo, que o Japão é pródigo em situações e 'fait-divers' caricatos, produto de uma história e conjuntura social, económica e sobretudo cultural de traços muitos próprios, pois seja.
Mas vez por outra parece haver, por cá, um sem-número de gente vinda do "superior" ocidente que parece ter como único gozo, único mesquinho deleite, apontar o dedo, fazer graçolas, troçar deste ou daquele legado cultural, deste ou daquele hábito colectivo dos de cá, dar largas à chacota, seja do "Ingurish" que é o Inglês possível de muitos quantos d'aqui (na maior parte dos casos, note-se, os tais que vêm logo de sorriso escarninho de orelha-a-orelha e pareceres depreciativos de ponta-e-mola, são os mesmos que nem uma frase em Japonês, nem um simples "arigato" conseguem articular), seja da etiqueta (muito complexa, pois seja!) observável em cerimónias várias, como casamentos e funerais, seja (pasme-se) de um vasto rol de ideias-feitas que os daqui cultivam acerca da Europa e d(e cert)os europeus.

Cabe a pergunta: mas afinal, tanto desdém, tanta peneira... mas que vieram aqui fazer, afinal de contas?? Esperavam, porventura, um país onde, à parte achar-se num canto remoto da Ásia, tudo e todos prestam vassalagem ao "triunfo do Ocidente"? Quiçá o cenário de romance côr-de-rosa, sopeirinho, das tais "Memórias de Uma Geisha"; clichés de servilidade de quimono e vénias e olhares timídos, isso sim parece ser o "japão" deles, a "china" deles, a "tailândia deles"... E subsiste a pergunta:
Mas afinal, que fazem eles aqui??
Ah! Pois claro: são "expats"...

Um daqueles neologismos que veio há meia-dúzia de anos de armas e bagagem: "expatriado". Sim, porque os termos i/emigrante só se aplicam aos outros, aos tais dos países pobrezinhos... Eles não, eles são "expats"! Favor não confundir.

Já disse outrora, num outro blogue, de um outro compatriota nosso por cá, o que penso desse termo -"expatriado" - e da presunção que o anima: eu aqui sou imigrante. Assim mesmo, imigrante - palavra que a cada dia que passa mais respeito me inspira -: vim para aqui para trabalhar, estabelecer-me, ganhar aqui a minha vida, fazer aqui o meu futuro, e porque este país me deu essa possibilidade, de sonhar "um futuro". Aqui vivo, aqui faço o que posso para me adaptar, integrar, falar correctamente a língua do país, inteirar-me das suas leis e costumes e os observar, honrar a chance que esta sociedade me deu de poder viver aqui, em paz e como homem de bem.
Decididamente não me posso dar a esse luxo de me intitular "expatriado".
Pendantismo eurocêntrico? não obrigado.

Caloroso abraço,
NBJ, Japão